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A Casa do Pó

Romance histórico, de Fernando Campos, datado de 1986, que tem como protagonista Frei Pantaleão de Aveiro, o autor de Itinerário de Terra Santa. O enigma que encerra a identificação desta figura histórica será o ponto de partida para a ficcionalização de uma busca de identidade que, na primeira pessoa, impõe ao protagonista a indagação sobre o silêncio que envolve as suas origens, definindo-o na oposição entre o que é e o que é obrigado a silenciar, e, nesse desdobramento, esboçando uma crítica ao contexto sócio-religioso desencadeado pelo Concílio de Trento. Gerado na estranheza que separa Frei Pantaleão de Aveiro do sujeito em primeira pessoa do Itinerário, um texto expurgado e que pouco deixa trair sobre a intimidade do seu autor, A Casa do Pó tenta conceder ao frade seiscentista, neste discurso de Novecentos, todas as notas íntimas e pessoais ausentes naquele intertexto, oferecendo-se como um "texto original" guardado na consciência. O itinerário interior de busca de identidade, desenvolvido paralelamente a um itinerário exterior de peregrinação, culminará não apenas no desdobramento dessa identidade ("Travo longos diálogos interiores entre eu e mim" cap. XVIII, p. 353), como no reconhecimento da inutilidade dessa busca e, no limite, com a anulação da identidade. É assim que, na arquitetura simbólica de um desfecho que faz coincidir a morte de Camões e a morte da Pátria (desastre de Alcácer Quibir) com a morte psicológica do protagonista, se compreende que, no fim da demanda, só possa encontrar o vazio, a casa do pó, aquela, segundo a epígrafe, "cujos habitantes estão na escuridão [...] estão nas trevas".

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