alegoria
Figura de estilo complexa, de carácter macro-estrutural, que é constituída por uma sequência continuada de figuras micro-estruturais, baseadas na analogia, que são geralmente metáforas. A alegoria encerra uma comparação alargada entre uma realidade concreta e animada, que é mostrada ao leitor/ouvinte com o objetivo de explicar/clarificar uma entidade abstrata (intelectual, moral, psicológica, sentimental, teórica).
Esta realidade mental, de mais difícil compreensão, é representada através de entidades concretas, objetivas, normalmente seres humanos ou animais, com uma finalidade didática. Por isso, a alegoria assume, muitas vezes, a forma de parábola, de fábula, de sermão, de exemplo, de sátira, etc., e é possível ser encontrada em todos os géneros literários. A dimensão macro-estrutural da alegoria permite que seja alargada à totalidade de uma obra, como um conto, uma epopeia ou uma peça de teatro. A alegoria é um recurso estilístico muito frequente na literatura medieval e nos textos litúrgicos ou de alcance ético-moral.
Um exemplo famoso de alegoria é o que encontramos na Alegoria da Caverna, de Platão (in, A República, Livro VII). Para Platão, a caverna representa o mundo, mundo este que é um lugar de ignorância, sofrimento e punição, em que as almas são acorrentadas pelos deuses, de costas para a luz do sol, símbolo da inteligência, da clarividência, da cultura, luz essa que cegava quem para ela olhasse. A caverna é um mundo de sombras projetadas por uma luz indireta, símbolo de aparências, de onde a alma tem que sair para contemplar o mundo das Ideias e da Verdade.
Também nos autos de Gil Vicente é frequente encontrarmos uma dimensão alegórica. É o caso do Auto da Alma, em que a Alma é uma personagem alegórica, que caminha pelo mundo à semelhança de um peregrino que percorre vários lugares e que se cruza com o bem e com o mal, alternadamente cedendo às tentações demoníacas e aos apelos angélicos. A Alma acaba por encontrar o bem, na tranquilidade e amparo da estalagem da Santa Madre Igreja, que lhe serve uma refeição mística constituída pelas Insígnias da Paixão de Cristo.
Encontramos ainda outro exemplo no Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, em que a descrição física do polvo simboliza a hipocrisia, a traição e a dissimulação humanas:
O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. (Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes)
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