Autorretrato (Bocage) (AUTORRETRATO)Magro, de olhos azuis, carão moreno,Bem servido de pés, meão na altura, Triste de facha, o mesmo de figura, Nariz alto no meio, e não pequeno:Incapaz de assistir num só terreno, Mais propenso ao furor do que à ternura;Bebendo em níveas mãos por taça escura De zelos infernais letal veneno:Devoto incensador de mil deidades (Digo, de moças mil) num só momento, E somente no altar amando os frades:Eis Bocage, em quem luz algum talento; Saíram dele mesmo estas verdades Num dia em que se achou mais pachorrento.BocageEste soneto de Bocage apresenta uma estrutura interna claramente bipartida.Na primeira parte, constituída pelas quadras e pelo 1.º terceto, o sujeito poético esboça o seu autorretrato, em dois momentos distintos: - a primeira quadra, que respeita ao retrato físico - rosto magro, olhos azuis, pele morena, pés grandes ("bem servido de pés"), estatura média ("meão na altura") e nariz grande ("alto no meio e não pequeno"). - a segunda quadra e o primeiro terceto, que evidenciam o retrato psicológico - triste de aspeto e de figura, volúvel e inconstante ("Incapaz de assistir num só terreno"), irascível ("Mais propenso ao furor do que à ternura"), enamorado por muitas mulheres ("Devoto incensador de mil deidades").Na segunda parte, constituída pelo último terceto, o sujeito poético revela a sua identidade e as circunstâncias que proporcionaram a criação do soneto. De destacar ainda que este soneto, como muitos outros da lírica de Bocage, apresenta elementos neoclássicos: a forma (soneto) e o vocabulário alatinado (níveas, letal, deidades). No entanto, predominam os elementos românticos: o carácter autobiográfico, o individualismo, o tom confessional, o amor sensual.O universo poético bocagiano gira à volta de três grandes temáticas: o eu, o amor, a morte. Daí, o aparecimento de temas autobiográficos (o eterno apaixonado, volúvel e inconstante; o destino cruel; o sofrimento na vida e o desejo de morte; as dificuldades económicas), as referências ao amor (guiado pelo coração, não pela razão; amor imenso que conduz ao sofrimento, à insónia, ao desejo de morrer) e à morte (como solução para ultrapassar esse sofrimento).
Como referenciar este artigo:
Autorretrato (Bocage). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-05-18].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$auto-retrato-(bocage)>.
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