autoridade
Tendo Weber (1978 [1920], Economy and society, I e II. London: University of California Press) como principal teórico na sua elaboração, o conceito de autoridade consiste na probabilidade de um comando com determinado conteúdo ser obedecido por determinado grupo de pessoas, relação social esta de carácter assimétrico que implica a dominação de um(ns) sobre outro(s). Weber (1978) distingue três tipos de autoridade:
(i) autoridade tradicional, que, assentando na crença das virtudes e da força das tradições percebidas como imemoriais ("sempre foi assim"), conhece relações de hierarquia entre chefes e os demais membros da comunidade, os quais, na sua qualidade de servidores e súbditos, demonstram uma lealdade para com o chefe, cujas prerrogativas lhe permitem ter um certo poder de decisão discricionário não só no recrutamento do staff como na delegação de tarefas;
(ii) autoridade carismática, que, tendo por base as qualidades excecionais ou sobre-humanas do profeta, chefe ou líder (revelação, heroísmo, santidade), obtém, por parte dos seguidores, um reconhecimento e devoção incondicionais;
(iii) autoridade legal, que, fundamentando-se num corpo de normas legais codificadas, estabelece as respetivas competências e funções em consonância com certas regras fixas, permite a seleção e a promoção do pessoal técnico e administrativo com base em determinadas normas, certificados e contratos (qualificações, mérito, idade, tempo de serviço).
Estes três tipos de autoridade, sendo tipos ideais, não se encontram, em regra, em estado puro, na realidade, podendo nos dias de hoje constatar-se o predomínio da autoridade racional-legal e suas derivações administrativo-burocráticas, mas combinada com outras formas. O exercício da autoridade confronta-se com duas exigências: o estímulo ao desenvolvimento e a eficácia, podendo degenerar em rotineiro ou em arbitrário. Sociólogos e politólogos de inspiração paretiana (1968 [1916], Pareto, Vilfredo - Traité de sociologie générale. Genéve: Droz), afastando-se das premissas contratualistas e comunitaristas, sustentam que, quer a autoridade, quer sobretudo o poder, pressupõem uma relação de imposição-obediência marcada pela competição e pela rotatividade das elites no poder, apostadas em dominar, ora de forma bruta e até violenta, ora de forma manipuladora e astuta, as massas, dando lugar, respetivamente, a dois tipos de governo: o dos leões e o das raposas.
A vertente autoritária das sociedades e das personalidades individuais tem sido objeto de debate, não só na Sociologia - de que o estudo de Adorno (1950, he authoritarian personality. New York: Harper and Row) sobre a personalidade autoritária é o mais significativo -, como também na Psicologia, principalmente na Psicossociologia, sobretudo organizacional, em que se opõem dois tipos de autoridade: uma democrática e participativa e uma outra autoritária e repressiva. Segundo Adorno (1950), a personalidade autoritária, entendida como uma síndroma psicossocial de predisposição ao preconceito e ao estereótipo, é explicada psicanaliticamente pelo recalcamento do desejo, designadamente erótico, por parte de membros da família e demais educadores iniciais.
Numa perspetiva neoliberal, Dahrendorf (1974 [1959], Las clases sociales y su conflito en la sociedad industrial. Madrid:Rialp) e Parkin (1979, Marxism and class theory: a bourgeois critique. London: Tavistock Publications) assinalam que, nas sociedades modernas, o principal conflito não é de ordem económica, mas centra-se em torno do controlo do poder e da autoridade nas diversas esferas da economia e da sociedade. Porém, os conflitos de poder e autoridade podem sempre ser resolvidos pela concertação e negociação com base em normas emanadas dos representantes do poder político, os quais, por sua vez, são escolhidos segundo certos procedimentos legais que preveem a sua eleição por sufrágio universal. Para estes e outros autores, como Dahl (1989, Democracy and its critics. New Haven. London: Yale University Press) e Arendt (1960, "What is authority". In Between past and future: eight exercises in political thougt), a manutenção da autoridade por esta via, embora implique obediência, é a única maneira de os indivíduos defenderem os seus interesses, partilharem a sua identidade e reterem a sua liberdade; de outro modo, a perda de autoridade pode degenerar em totalitarismo. Para teóricos configuracionistas, como Elias (1980 [1970],
Introdução à Sociologia. Lisboa: Edições70), e autores marxistas e marxizantes (1973 [1968], Habermas, Jürgen - La technique et la science comme idéologie. Paris: Galliimard; 1978, Lukes, Steven - Power. A radical view. London), o poder e a autoridade são polimorfos e assimétricos, exprimem, de modo explícito, implícito ou até oculto, as desiguais relações de classe, patriarcais ou outras formas de dominação, ocasionando crises de legitimidade, nomeadamente na fase do capitalismo tardio.
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