Artigos de apoio

bode (mitologia)

Utilizado em sacrifícios religiosos em muitas tradições do mundo, o bode tinha na simbologia pagã um significado divino de libido, força primeira e fecundante. O ritual do sacrifício do bode na antiga Grécia está na origem da tragédia, que significa "canto do bode". Sacrificado nos rituais bíblicos do Antigo Testamento, o bode foi, nos tempos medievais, conotado com o demónio e a feitiçaria.
Em Israel, o bode era um dos animais preferencialmente escolhidos para expiar os pecados das tribos de Deus, concentrando-os simbolicamente na sua cabeça, e fazendo-os desaparecer pela sua morte em sacrifício, surgindo assim a figura e a expressão bode expiatório. Os bodes eram assim identificados com os homens ou com os deuses. Uma das festas religiosas mais antigas de Atenas, a Apaturia, era representada por um deus vestido com uma pele de bode preto. O bode era o animal por excelência sacrificado nas festas do deus Dionísio, sendo identificado nesse sentido com o próprio deus. Este ritual era chamado de Canto do Bode, tendo sido a palavra "tragédia" a dar origem a esta forma de arte cénica. Na mitologia grega, Dionísio transformou-se em bode na sua fuga para o Egito quando o Olimpo foi atacado por Tífon.
Em Roma, a divindade Mamuralia era também representada nas festividades dos idos de março por um homem vestido com uma pele de bode. As palavras capricho e Capricórnio resultam da raiz latina caper, que significa precisamente bode.
Apesar de mencionados na Bíblia e utilizados pelos Hebreus nos seus sacrifícios, os bodes foram depois utilizados pelas autoridades eclesiásticas cristãs da Idade Média como representações do diabo e do mal, talvez numa tentativa de erradicar a tradição do seu culto. O bode passou então a ser associado às práticas de bruxaria e à própria luxúria, tornando-se impuro e maléfico. Nas representações do Juízo Final, os bodes eram colocados à esquerda em manada significando os condenados. Eram também apresentados como a montada das bruxas. Apesar da condenação cristã medieval, o culto do bode não foi erradicado das tradições populares. No Mediterrâneo, existe a noção que o sangue de bode tem propriedades maravilhosas e é capaz de temperar o próprio ferro. Nas aldeias, o bode assume o papel de para-raios, que absorve tudo o que de mal pode acontecer deixando por isso tanto a aldeia como os seus habitantes a salvo. Na Escandinávia, ainda hoje se celebra o bode do Natal em palha o qual é sacrificado no fim do ano.


1

2

3

4

5