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Cada homem é uma raça

O livro Cada homem é uma raça (1990) apresenta 11 contos ("estórias") - "A Rosa Caramela", "O apocalipse privado do Tio Geguê", "Rosalinda, a nenhuma", "O embondeiro que sonhava pássaros", "A princesa russa", "O pescador cego", "O ex-futuro padre e sua pré-viúva", "Mulher de mim", "A lenda da noiva e do forasteiro", "Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu", "Os mastros do Paralém" - contos de encantar, pela extraordinária capacidade de nos envolver em todos aqueles cenários deslumbrantes.
Todo o texto é percorrido por uma prosa extraordinariamente figurativa, que marca um estilo próprio do seu autor - Mia Couto.
Cada homem é uma raça capta, de imediato, a atenção, o que se deverá, essencialmente, ao facto de as descrições nele contidas serem extremamente rápidas, concisas e em tudo precisas, numa técnica muito semelhante aos slides fílmicos.
O texto envolve o leitor não só pela capacidade de transmissão de ambientes, cenários, sentimentos, conflitos e realidades que prendem a sua atenção, mas também pela deliciosa linguagem que ali se vê espelhada. Mia Couto introduz o leitor num perfeito funcionamento africano da língua portuguesa. De facto, em todos os contos assiste-se a uma harmoniosa mistura de palavras dos dialetos moçambicanos (de variados dialetos) com o português, criando, assim, o que se pode chamar de africanidade do discurso: reconstrói-se o português integrando-o dentro de um discurso matizado de palavras, expressões e frases típicas dos diversos dialetos moçambicanos, indo afoitamente remexer as tradicionais raízes do mito. Em síntese, no que diz respeito à linguagem discursiva deste texto, pode dizer-se que Mia Couto aparece, na década de 80, para marcar definitivamente a intenção de legitimar a linguagem africana/moçambicana.
Em Cada homem é uma raça o leitor é introduzido em universos que, por envolvimento pleno com o que lhe é contado, passa a sentir do lado de dentro.
Ao longo de todos os contos o leitor é confrontado com diversos sentimentos e situações que retratam a real vivência do povo moçambicano: a dor, o pesadelo, a injustiça, a miséria, a alienação dos moçambicanos que não refletem sobre a miséria em que vivem.
A obra em si é um perfeito espelho de todo o tecido humano-social de determinados lugares e respetivos quotidianos. Esta obra, talvez devido à experiência profissional do autor (Mia Couto é Biólogo de formação e, como tal, dedica grande parte do seu tempo a estadias fora da cidade onde vive, fazendo recolhas de material de estudo), fornece ao leitor recolhas preciosas de histórias e características de diversos locais moçambicanos. De facto, é frequente ver-se nas personagens o reflexo de pessoas e incidentes reais. A par com esta objetividade de cariz realista, verifica-se também a espantosa "mistura", "intromissão" de enredos e tramas cuja lógica se mede, não poucas vezes, pelo absurdo e por um irrealismo notório.
Assim, se por um lado aparece o renovar de uma linguagem inteira (dialetos moçambicanos e língua portuguesa), por outro surge o relato de circunstâncias e sentimentos bem reais, culminando - em forma de síntese deste poderoso testemunho da narrativa moçambicana - naquilo que melhor poderá caracterizar este livro de contos: uma sucessão de "estórias", que, sob a forma de "histórias para contar", nos dão uma fiel - por vezes efabulada - visão da realidade moçambicana que poucos souberam até então contar.
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