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cognitivismo e linguística cognitiva

Paradigma científico contemporâneo nascido nos anos 70 (Brent Berlin, 1974; Eleanor Rosh, 1975), que procura estudar o domínio complexo da cognição humana (incluindo problemas de representação e organização do conhecimento, questões de processamento da linguagem e de aprendizagem, mecanismos de apreensão da experiência e da vivência biológica, cultural e social) através da interdisciplinaridade de domínios científicos como a neurologia, a inteligência artificial, a psicologia, a linguística, a filosofia e a antroplogia.
A aplicação do cognitivismo à linguística constituiu uma alternativa ao paradigma generativista que dominou, durante meio século, o panorama dos estudos linguísticos, na medida em que compreende o fenómeno da linguagem humana como resultado da experiência física, social e cultural de um indivíduo. A linguística assume um papel fundamental no panorama das ciências cognitivas, na medida em que a linguagem, pela sua função essencialmente categorizadora, contribui para o conhecimento do real ao mesmo tempo que lhe impõe uma organização, uma estrutura, uma construção. A forma como categorizamos a realidade é um fenómeno linguístico e cognitivo, uma vez que é o resultado da interação entre a nossa experiência corpórea e o mundo. Esta dependência corpo-linguagem-mundo é o princípio que está na base daquilo a que George Lakoff (1987) designou por experiencialismo, por oposição ao objetivismo dos paradigmas tradicionais pré-cognitivistas. Lakoff (1987) enuncia os postulados do paradigma cognitivista:

1. o pensamento é "embodied", ou seja, os sistemas categorizadores e conceptuais decorrem da nossa experiência corporal e social;
2. o pensamento é imaginativo, não é apenas "mirror of nature", e através de processos cognitivos como a metáfora, a metonímia e imagens mentais, é capaz de ir para além da representação imediata da realidade;
3. o pensamento tem "gestalt properties", logo não é atomista; os conceitos não são apenas o resultado da simples justaposição de semas e unidades individuais.

Ronald Langacker (1987) acrescenta ainda que:

1. O estudo da linguagem não pode separar-se da sua função cognitiva e comunicativa, pelo que deve partir da análise do seu uso e não do seu funcionamento teórico;
2. A categorização da realidade não se realiza a partir de condições necessárias e suficientes, segundo os postulados da semântica componencial generativista, mas sim a partir de relações conceptuais, de aproximação/ afastamento em relação ao protótipo, de semelhanças de família;
3. A função primária da linguagem é a significação, o que a torna iminentemente simbólica. A gramática não se separa da semântica, pois também ela é representativa e estruturadora da componente semântica;
4. A linguagem deve ser entendida como uma entidade dinâmica cujos componentes (semântica e pragmática, semântica e gramática) estão em continuidade e não em dicotomia. A gramática é um organismo em evolução contínua, que se mantém ou altera pelo uso linguístico que se faz dela.

A linguística cognitiva é o resultado da confluência de várias linhas de investigação, de onde se destacam as seguintes tendências:

Teoria dos protótipos: modelo de explicação do fenómeno da categorização, partindo do princípio de que não é possível encontrar um conjunto de traços sémicos comuns a todos os membros de uma categoria. A categorização de um determinado exemplar não se faz por exclusão das propriedades que separam os membros de uma categoria, mas sim pelo reconhecimento dos semas que podem aproximá-los. Desta forma, existem categorias com exemplares mais representativos, ou seja, mais prototípicos, do que outros, os quais se dispõem pelas margens do protótipo e que constituem os membros periféricos do protótipo. Destacam-se os nomes de John R. Taylor (1989), Dirk Geeraerts (1988, 1989, 1992, 1995), Georges Kleiber (1990).

Semântica cognitiva : propostas teóricas que procuram perceber a interação entre o significado de dicionário e os conhecimentos enciclopédicos. Esta conceção de semântica, inseparável da de pragmática, deu lugar aos conceitos de modelo cognitivo idealizado (G. Lakoff, 1987), domínio cognitivo (R. Langacker, 1987, 1991), marco (C. Fillmore, 1985), espaço mental (G. Fauconnier, 1984).

Teoria da metáfora : modelo que parte da hipótese de que a metáfora não é apenas uma figura estilística, mas sim um processo cognitivo, à semelhança da metonímia, que partindo do uso linguístico em interação com a experiência sensorial e cultural, torna abstratos conceitos originariamente concretos. Desenvolvida por G. Lakoff (1987, 1993), Mark Johnson (1980) e Mark Turner (1991, 1996).

Gramática cognitiva: modelo que considera a gramática como um conjunto organizado de unidades simbólicas, resultante da articulação entre uma dimensão semântica e uma dimensão formal (constituída pelo léxico, morfologia e sintaxe). Forma e significado são dependentes, pelo que qualquer alteração na forma tem implicações no significado e vice-versa (R. Langacker, 1987, 1990, 1991).

Gramática de construções: construída em torno do conceito de construção, unidade básica da gramática, seguiu dois percursos diferentes: um menos formalizado, aproximado com a gramática de Langacker, seguido por A. E. Goldberg (1995); e outro altamente formalizado, próximo até das orientações generativistas, com C. Fillmore e P. Kay (1988).

Teoria da gramaticalização: ainda que vinculado ao funcionalismo anglo-saxónico, trata-se de um modelo que se dedica à mudança linguística, concebendo a língua como entidade dinâmica em contínuo processo de mudança motivado pelo seu uso (P. Hopper & S.Thompson, 1985, P. Hopper, 1987; E. Sweetser, 1990; B. Heine et al, 1991).

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