conto
Género comum e bastante popular durante os séculos XVII e XVIII, vê em Gonçalo Fernandes Trancoso o seu primeiro cultor português.
No princípio do século XIX esta preocupação moralizante que lhe era atribuída em séculos passados desaparece quase por completo. No entanto, deste tipo de conto inicial permanece ainda a tendência para a forma narrativa que se cinge à realidade, quer esta seja histórica (de acontecimentos relatos do passado) quer seja do domínio da experiência do próprio autor que a escreve.
Raros eram os contos cujas histórias relatadas se referiam a atos, acontecimentos e personagens passadas às quais o autor apenas tinha acesso através de um forte apoio em documentos de arquivo.
Menos vulgar ainda, dir-se-ia, mesmo, quase inexistente era o conto baseado em histórias de pura imaginação.
De um modo geral, o conto vai-se definindo no decorrer da segunda metade do século XIX como um episódio vivido, onde se espelha um relato de um qualquer caso singular onde o autor interveio ou de que teve conhecimento, e que se apresenta literariamente concebido como uma espécie de romance curto.
Este critério de limitação de tamanho e de relação com o real tornou o conto um género fácil, que recebia, por parte da maioria dos escritores, um agradável acolhimento, correndo, no entanto, o risco de ser "adaptado" por escritores de toda a estirpe.
Só mais tarde, nomes como Eça de Queirós (1845-1900) e Fialho de Almeida (1857-1911) deram ao conto uma nova vida e uma plena renovação que ele até então não tinha experimentado, dando, assim, a este género, anteriormente considerado como secundário, uma autonomia literária que se vê enriquecida e confirmada no século XX, com nomes como Carlos Malheiro Dias (1875-1941), Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), Aquilino Ribeiro (1885-1963) e Raúl Brandão (1867-1930), entre muitos outros que experimentaram este tão apreciado género literário.
Dado o envolvimento pessoal do autor/escritor no texto do próprio conto, era frequente constatar a coexistência de um poeta e de um contista no mesmo homem que escrevia, dando assim a este género tão em moda um novo traço que o definia: uma perfeita simbiose do poético do autor no género narrativo breve - o conto. Esta simbiose começa primeiramente por se manifestar, de forma clara, em Mário de Sá-Carneiro, seguindo-se depois nomes como José Régio, Branquinho da Fonseca e Miguel Torga (1907-1994), para além de muitos outros.
Adotado como género maior por muitos autores portugueses, o conto, pode mesmo dizer-se, servia na perfeição os intentos destes escritores por relacionar-se tão perfeitamente com o temperamento português, isto é, por permitir, numa forma rápida (narrativa curta), expressar prontamente todas as emoções e sentimentos.
Ainda hoje assim se mantém: com cultores de todas as idades, ligações literárias, estéticas e ideológicas, o conto continua a ser um dos géneros prediletos, capaz de reclamar estatuto privilegiado em nomes de autores como José Rodrigues Miguéis, Domingos Monteiro, Irene Lisboa, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues e David Mourão-Ferreira.
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