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Crescente Fértil

Há cerca de 12 mil a 10 mil anos, modificações ocorridas no clima da Terra marcaram definitivamente a vida humana. Com a subida das temperaturas médias, deu-se o fim da última glaciação, Wurm, e o respetivo recuo das calotes de gelo que cobriam, principalmente, imensas superfícies terrestres no hemisfério norte.
Em várias regiões do planeta, consoante a abundância de água ou a ocorrência de temperaturas favoráveis, várias espécies vegetais silvestres cobriram vastos espaços, agora libertos de milhares de herbívoros, que recuaram com os gelos ou mesmo se extinguiram. Surgiram os cereais selvagens e, com o tempo, a sua "domesticação", contemporânea das espécies animais. O Homem sedentarizou-se gradualmente, procurando os melhores espaços ou os "ótimos climáticos", tentando rentabilizar em termos de quantidade os produtos de uma atividade nascente e proporcionadora de uma dieta alimentar mais rica e variada e com maior durabilidade: a agropecuária.
Esta imagem de conjunto, mais nítida cronologicamente entre os séculos VIII e VI a. C. e correspondente à Proto-História - transição do Neolítico para as civilizações da escrita -, está identificada com algumas regiões do planeta: América Central e andina, Norte de África, do Vale do Indo à China oriental e ao Sudeste Asiático, embora o destaque recaia na área geográfica situada entre o vale do Nilo e a Mesopotâmia, entre os atuais Egito e Iraque, isto é, o Crescente Fértil. Crescente devido à forma dessa fase da lua do seu desenho no mapa; Fértil devido à riqueza dos seus solos agrícolas, implantados em vales banhados por rios de grande caudal e cheias abundantes. Por um lado, o Nilo, autêntico invólucro de terra fértil e de civilização, fechado entre dois desertos absolutos e proteção dos seus povos. Por outro, dois rios leitosos - Tigre e Eufrates - entre desertos igualmente mas também bordejados de montanhas de sopés e vales produtivos, confluindo ambos os cursos aquíferos para um único braço de água doce (o Chattel-Arab). Ambos os vales foram locais de primeiras implantações de núcleos humanos sedentarizados, com formas de urbanismo bem marcadas e com larga expectativa de florescimento e desenvolvimento comercial e económico, político e militar, sempre radicando estes crescimentos na agricultura rentável e promissora. Note-se porém que os povoados de maiores dimensões desenvolveram-se inicialmente nas franjas montanhosas da Anatólia (atual Turquia), como Çatal Huyuk, por exemplo, talvez por questões defensivas.
Depois, e correspondendo a uma segunda nota de destaque e importância histórica do Crescente Fértil, muitas populações implantaram-se junto aos rios ou então assistiu-se ao agigantamento de núcleos antigos, acompanhando o crescimento das civilizações que os enquadravam ou serviam de suporte. Entre essas civilizações destacam-se, primeiras entre iguais, a Suméria (3500 a. C.) e, principalmente, o Egito (3400 a. C.). Outras se desenvolveram depois na Mesopotâmia (Meso, meio, potamos, rios), como a Babilónia, os Assírios, Acádios, Hebreus e Fenícios, todas de carácter belicoso, o que baralhou politicamente este corredor de povos em trânsito entre a Ásia, a Europa e a África. Nesta última, os Egípcios, à parte algumas incursões de Povos do Mar e dos Hicsos, mantiveram-se fechados no seu casulo natural formado pelo Nilo sagrado, entre desertos invioláveis selados por um delta pantanoso e inseguro e a Núbia distante e de acesso difícil. Puderam mais tranquilamente desenvolver padrões culturais e civilizacionais ímpares, para além de se notabilizarem na agricultura e nas atividades económicas que o seu rio propiciava.
O Crescente Fértil, espaço de povos e de nascimento da agricultura, da escrita e das cidades, é também um marco histórico, o lugar da Terra onde mais nitidamente se definiu o fim do tempo da recoleção, da dependência face à natureza e do nomadismo e o começo da sedentarização, da autonomia humana face aos caprichos naturais e da elevação e concretização de capacidades há muito evidenciadas no Homem mas que timidamente e de forma lenta se tinham manifestado.
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