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criação artística

A criação artística é um processo comunicativo que valoriza os conceitos de criatividade e de arte. Enquanto a criatividade é um processo ordenador e configurador do que assimilamos da realidade mas ultrapassa-a ao alargar-se ao mundo do imaginário, a arte, por seu turno, implica o belo, a beleza e a sedução. A criação artística implica uma capacidade de transmutação de experiências e alimenta-se das condições que dão acesso ao sentir da beleza. Este sentir associa-se à sedução que o mesmo objeto cria.
Fernando Pessoa considera que a criação artística implica a conceção de novas relações significativas, graças à distanciação que faz do real. O poeta parte da realidade, mas distancia-se, graças à interação entre a razão e a sensibilidade, para elaborar mentalmente a obra de arte.
Desde sempre, o Homem recorreu à criação artística como arma de comunicação e, por vezes, de protesto, de intervenção e defesa. Mas, enquanto uns a consideravam uma necessidade de expressão e realização ou de tomada de consciência, outros censuravam-na ou receavam-na, precisamente por isso. Na criação da obra de arte, são fundamentais a liberdade do indivíduo e a vitalidade do povo. Esta vitalidade é apreendida pelo artista, que assume um papel importante na consciência de um país ou de uma cultura.

Ao longo da história, o sentido de criação artística tem sofrido alterações. Na antiga Grécia, Platão considerava que a obra de arte devia copiar modelos que a alma tem e que por reminiscência recorda da sua vivência anterior no mundo inteligível. A criação artística é um reencontro com a beleza que existe dentro da mente do artista. Aristóteles introduz o conceito de "mimésis", de imitação da realidade, celebrando-a e transfigurando-a na perfeição que ela deveria ter. A arte surge como imitação ou representação da Natureza, das ideias, da harmonia cósmica. Na Idade Média, a produção artística surge como expressão de louvor a Deus, o único verdadeiro criador. O artista na Idade Média não tinha interesse pela natureza em si própria, mas apenas quando ela era o espelho da realidade sobrenatural. Na Renascença, o Homem acredita nas próprias capacidades criativas, defendendo a arte como imitação da realidade. O Renascimento quebra a síntese medieval da arte e da moral, em que a primeira tinha como único fim fazer bem feito, e a moral dizia respeito à intenção mesma do autor. Durante o século XIX e princípios do século XX, inicia-se uma desvalorização da dimensão imitativa da arte e aposta-se na sua dimensão expressiva e subjetiva a nível emotivo, formal ou simbólico.
Afirma Heineman (in A Filosofia no Século XX, 1983 3ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian: 451) que "a expressão ars não se encontra limitada à arte nem se opõe à ciência. Também abrange as regras que estão na base de uma arte ou ciência, portanto as teorias, por exemplo, gramática e retórica." E considera que uma análise linguística nunca pode apreender a essência da arte, mas é capaz de chamar "a atenção para determinadas facetas do fenómeno, que não devem ser esquecidas na análise, como, por exemplo, que a arte tem que ver com o poder, com a habilidade, instrumento, atividade regrada e com algo fundamental que penetra todas as atividades do homem." Nietzsche em A Vontade da Potência (§ 853) afirma que a arte "é a grande possibilitadora da vida, a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida".
O mesmo Heineman (idem: 451-452) diz que, por um lado, "a arte, como atividade, é uma emanação da atividade fundamental da vida humana (alma, espírito)"; por outro lado, "a arte, como atividade, é o ensaio incessante do espírito para se elevar à imagem e à forma, isto é, para formar e estruturar domínios parciais da experiência humana e do material que se encontra à sua disposição."Estas duas considerações mostram que a arte tem sempre duas faces: uma mais inconsciente e outra consciente, ou seja, uma imanente e outra autónoma. A arte imanente tem a ver com a relação natureza e arte e permitiu que os antigos chegassem a considerar que o homem tinha imitado a atividade artística dos animais, como na arquitetura "das células dos favos das abelhas, na tecelagem das teias, na construção dos ninhos e no canto das aves" (idem). A arte autónoma, consciente, conduz à especificidade da arte humana.
Schelling considera que a atividade da consciência é, de início, teórica e depois prática, para em seguida tornar-se estética, quando se consegue, pela arte, pressentir a unidade entre a natureza e o espírito. Afirma Schelling que "a arte é para o filósofo a coisa mais sublime, a que lhe descobre o santuário onde arde numa única chama, numa união eterna e original, o que está na vida e na ação, logo no pensamento também" (in História do Pensamento, 1987, S. Paulo: Nova Cultural, p. 500). Isto significa que na arte se encontra a exposição da união entre o espírito consciente e a natureza inconsciente, o infinito e o finito, o sujeito e o objeto. Significa ainda que a arte (e, por isso, a Beleza) é o lugar da união entre o eu limitado e os ilimitados, o que levou a uma feliz afirmação de Hölderlin que diz que "a poesia é o princípio e o fim da filosofia" (in História do Pensamento, 1987, S. Paulo: Nova Cultural. p. 497).

Na apreciação da criação artística há uma interação entre a obra de arte e o artista e entre o espectador e o gozo do objeto. Para se apreciar a obra de arte é necessário seduzir a obra e deixar-se seduzir por ela. Só depois de entendermos a necessidade desta mútua sedução estamos aptos a entender qualquer obra de arte em qualquer época da história.
O conceito de criação artística, abordado e desenvolvido pela filosofia e por todas as correntes estéticas, abrange não apenas as tradicionais artes da pintura, da arquitetura, da escultura, do desenho, da literatura, da música e da dança, como, posteriormente, da fotografia, do cinema e, a partir da mudança do segundo para o terceiro milénio, de experiências artísticas graças ao digital e ao computacional, que permitem misturar sons, textos, imagens ou movimentos. As tecnologias favorecem o desenvolvimento de uma criação artística scripto-audio-visual.
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