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Cultura Material

O termo cultura material está relacionado com a finalidade ou sentido que os objetos têm para um povo numa cultura, ou seja, a importância e influência que exercem na definição da identidade cultural de uma sociedade. O que é material e físico, objeto ou artefacto é entendido pelos seres humanos como um legado, como algo é para ser apreendido, usado e preservado, que ensina a reproduzir o mesmo objeto ou a guardar a sua memória. Surgem aqui os objetos manufaturados (carácter artesanal) e os que são produzidos num ambiente tecnologicamente mais avançado, na maquinofatura. Os objetos têm uma época e lugar de produção, um povo que os faz e reproduz, logo têm um sentido histórico e humano: a relação entre o objeto e o seu sentido torna-se assim no campo de estudo dos investigadores da cultura material. Numa definição mais clássica, a cultura material pode assim ser entendida como o conjunto de artefactos criados pelo Homem, combinando matérias-primas e tecnologia, o qual se distingue das estruturas fixas pelo seu carácter móvel.
A noção de cultura material, que, em princípio, se aplicaria apenas a objetos "isolados", poderá ser alargada de forma a abranger quase todas as produções humanas, levando a que alguns estudiosos considerem a história da tecnologia, os estudos de folclore, a antropologia cultural, a arqueologia histórica, a geografia cultural e mesmo a história da arte como subcampos de estudos de cultura material. O estudo da cultura material como objeto de conhecimento científico tem progredido muito mais nos países de cultura anglo-saxónica, a partir da Arqueologia, ciência do saber histórico que esteve na origem dos primeiros trabalhos acerca do tema em questão. Victor e Vere Gordon Childe, grandes pré-historiadores e arqueólogos britânicos, ativos de finais do século XIX até começos do seguinte, influenciados pela escola marxista, determinante no debate filosófico da cultura material, seus conceito e significações, foram os pioneiros na identificação deste ramo do saber. No mundo anglo-saxónico como no mundo "comunista", ou na Alemanha, com efeito, os estudos de cultura material progrediram muito mais, de forma comparada e multidisciplinar, já que no sul da Europa, por exemplo, em Itália ou na França, as disciplinas de estudo das produções materiais continuaram a estar isoladas entre si, separadas e sem relação científica ou interdisciplinar.
O estudo e a interpretação da cultura material tornaram-se, entretanto, no Norte e Leste da Europa, como na América do Norte, uma crescente e aprofundada preocupação académica, com estudos e investigações de nível superior a serem-lhe dedicados. Uma das principais razões para este incremento prendeu-se com o facto de as coleções museológicas terem começado a ser entendidas como uma representação da cultura material "armazenada" desde o passado. Por outro lado, as exposições museológicas foram assim encaradas, nesse sentido, como o principal meio pelo qual o passado é publicamente apresentado e divulgado. Os museus são assim capazes de mostrar, através das suas coleções, o Homem, o verdadeiro objeto dos estudos em torno da cultura material. As suas coleções representam, deste modo, a expressão material das relações humanas. Os estudos museológicos têm sido um dos ramos do conhecimento científico que mais tem potenciado o desenvolvimento da investigação sobre cultura material. Esta, enquanto disciplina, assenta em três dimensões, uma espacial ou topológica (o lugar, as transformações e onde se vêm os seus resultados), outra cronológica ou histórica (processo evolutivo das transformações e sua manifestação) outra antropológica (as relações humanas e psicossociais que enformam a produção dos objetos ou artefactos de que o Homem se serve, como tecidos, utensílios, ferramentas, adornos, meios de transporte, moradias, armas etc.).
Surge por vezes o termo inglês cultural material, que não se deverá confundir com Cultura Material. O conceito arqueológico de cultural material (termo inglês) designa os materiais achados em sítios arqueológicos, tenham ou não sido produzidos pelo Homem. São materiais próprios de culturas antigas, os quais acabam por ser reveladores da cultura material do povo que os produziu ou usou.

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