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Da França de 1851 à Primeira Guerra Mundial

A Revolução de fevereiro de 1848, ocorrida em França, suscitou uma onda de movimentos semelhantes na Alemanha, Áustria e Itália. A Segunda República francesa foi proclamada a 24 de fevereiro de 1848, inspirada por ideais humanitários e democráticos. Por outras palavras, o socialismo, o romantismo e o cristianismo misturaram-se de tal forma que lembrava os tempos da Revolução Francesa.
A Revolução de 1848 marcou um ponto de viragem na França, uma vez que o proletariado passou a fazer parte do cenário político. Os grandes impulsionadores desta revolução, Lamartine e Arago, burgueses, quiseram fazer esta revolução para o povo, estabelecendo o sufrágio universal, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião (clubes), a abertura da Guarda Nacional aos trabalhadores, aboliram a pena de morte em questões políticas, a escravatura nas colónias e o desemprego foi resolvido com a criação das Oficinas Nacionais, a 26 de fevereiro de 1848.
A burguesia, como grande classe e a mais unida, acabou por vencer as eleições de abril de 1848.
Entre a Assembleia Constituinte, composta por republicanos moderados que queriam uma república moderada e não social, e os operários rebentou um conflito, isto é, quando a Assembleia Constituinte quis acabar com as Oficinas Nacionais, os operários uniram-se contra esta medida. Porém, foram detidos por Cavaignac.
A esta sublevação, que ficou conhecida pelas "Jornadas de junho" - por ter acontecido de 23 a 26 de junho de 1848, seguiu-se uma deportação massiva para a Argélia, acabando por desaparecer a ala socialista do partido republicano.
Embora na Constituição de 1848 continuassem a figurar a soberania do povo e o sufrágio universal, a Assembleia confiou a chefia do Governo a um presidente da República, eleito por sufrágio por quatro anos.
Numa tentativa de pôr fim à onda de sublevações que ocorreram em junho e à difícil situação financeira, foi eleito Luís Napoleão Bonaparte a 10 de dezembro de 1848, que era sobrinho de Napoleão I e uma Assembleia Legislativa em maio de 1849, que defendia a ordem e na qual participavam os conservadores (monárquicos e católicos).
Desde cedo, Luís Napoleão resolveu colocar homens da sua confiança na chefia de postos da administração e do exército, relegando para segundo plano os poderes da Assembleia Legislativa. Porém, como não conseguiu obter desta um aumento dos seus poderes, por meio da revisão da Constituição em julho de 1851, iniciou a 2 de dezembro de 1851 um golpe de Estado.
A burguesia republicana reagiu, assumindo a resistência.
A maior parte da população, com medo da revolução social, aliou-se a Luís Napoleão, o que levou à aprovação do golpe de Estado pelo plebiscito de 21de dezembro de 1851.
Resultado de um plebiscito posterior, o Segundo Império foi proclamado a 2 de dezembro de 1852. Caracterizado pelo poder pessoal do imperador, apoiado pela burguesia e pelo clero, este império teve como objetivo dar à França glória militar e prosperidade económica, numa tentativa de relegar para segundo plano a perda das liberdades.
A participação da França na Guerra da Crimeia (1854-1856) que acabou com o Congresso de Paris, deu a este país o primeiro lugar na Europa.
Após o atentado de Orsini (1858), Napoleão III, defensor da política das nacionalidades, transformou-se no grande vitorioso da independência italiana, isto é, alcançou duas vitórias sobre Magenta e Solferino, em junho de 1859, que valeram à França a anexação de Nice e Saboia pelo Tratado de Turim, em 1860.
Napoleão III enviou expedições para a China e Síria, com o objetivo de proteger os interesses espirituais e materiais dos seus súbditos.
No que respeita à Argélia, resolveu impor aos colonos uma política liberal para com os muçulmanos, mas não obteve êxito.
No que toca à expansão colonial, o império adquiriu a Nova Caledónia, colonizou o Senegal, conquistou a Conchinchina, estabeleceu o protetorado francês no Camboja e instalou-se no mar Vermelho, mais concretamente em Obock.
Em 1869, a França abriu o canal de Suez que muito a prestigiou.
Por outras palavras, podemos dizer que este Segundo Império foi marcado por um grande desenvolvimento económico. Entre 1848-1870, os caminhos de ferro multiplicaram-se, as comunicações marítimas foram melhoradas, ao mesmo tempo que surgiram grandes companhias de navegação e melhoria dos portos. No campo industrial, destacam-se os progressos alcançados na indústria siderúrgica.
No plano urbanístico é de realçar a nova Paris. Haussmann encarregou-se deste novo traçado, entre 1853-69.
Porém, nem tudo era desenvolvimento e benefícios.
A classe operária continuava a viver em situação precária, isto é, muitas horas de trabalho e salários baixos, ao mesmo tempo que o direito à greve estava proibido.
Porém, as vitórias sobre as províncias italianas e o tratado de livre comércio franco-britânico fizeram com que o império, fortemente autoritário, se tornasse um império liberal, isto é, tendo Napoleão III perdido o apoio dos católicos, devido à sua política em Itália, e o apoio dos industriais, que se sentiam ameaçados pela concorrência, procurou apoio na burguesia.
Isto levou a que o corpo legislativo visse os seus poderes alargados, com direito de interpelação, em 1861, à concessão do direito à greve (1864).
Contudo, estas concessões não impediram que os republicanos, contrários, avançassem e, quando Napoleão III resolveu estabelecer um regime parlamentar, o império já estava exangue, cansado pelas constantes agravantes na política externa, como foi o caso da expedição ao México de 1861-1867 que correu mal e as campanhas militares desastrosas que se multiplicavam.
Para agravar a situação, a França declara guerra à Alemanha de Bismarck e a Capitulação de Sedan a 2 de setembro de 1870 deu início à revolução de 4 de setembro de 1870 e à proclamação da Terceira República.
Os líderes da oposição republicana, como Gambetta, Favre, Simon e Ferry, formaram um Governo de Defesa Nacional, presidido pelo general Trochu, governo este provisório.
A cidade de Paris foi cercada pelos alemães a 19 de setembro e os republicanos continuaram a resistência até à sua vitória.
Gambetta organizou a chefia da província, porém o exército foi derrotado e Paris capitulou a 28 de janeiro de 1871, sendo assinado o armistício entre a França e a Prússia.
A Assembleia Nacional, de fação monárquica adepta da paz, reúne-se em Bordéus e Thiers foi eleito como chefe do poder executivo.
Em 1870, Thiers tentou impedir a guerra e ratificou os preliminares do tratado de paz assinado em Frankfurt a 10 de maio de 1871, isto é, a França ficava sem a Alsácia-Lorena e teria de pagar uma indemnização de guerra bastante avultada à Alemanha.
Este homem enfrentou a Comuna desde 18 de março a 28 de maio de 1871, que consistia num levantamento da população de Paris, causado pela derrota face aos alemães e à sua consequente miséria provocada pelo cerco. Esta Comuna foi banida pelo exército de Versalhes, vendo-se, desta forma, anulado o movimento operário em França.
Entre o chefe do Governo, Thiers, que defendia que a república era o único regime que podia vingar em França, e a Assembleia Nacional, que defendia a restauração monárquica, surgiam conflitos. Desta feita, Thiers demite-se de chefe do executivo, a 24 de maio de 1872, sendo substituído pelo marechal Mac-Mahon.
A discórdia entre os monárquicos facilitava a vida da República que se ia instaurando. Contudo, a França necessitava de uma nova Constituição que proclamasse a República. Assim, a 30 de janeiro de 1875 surge a nova Constituição que foi a mais duradoura que a França teve desde 1791.
Das eleições de 1876 saíram vitoriosos os republicanos.
Em 1879 é eleito Jules Grevy para presidente da República e os republicanos, agora no poder, uniram-se no combate ao clero, isto é, envoltos num ideal maçónico, não só pretendiam tirar às congregações o ensino, mas também fazer da escola nova e laica uma escola gratuita e obrigatória como base do regime republicano. Este período de 1880-82 ficou conhecido por "República Oportunista", tendo sido marcado pela influência dos burgueses e de políticos ligados aos grandes negócios, como Ferry, que obrigaram a grandes despesas no equipamento e a uma política colonial. Estes homens deram à França um regime livre, isto é, os condenados da Comuna foram amnistiados; o segundo ministério de Ferry (1883-85) aboliu os cargos inamovíveis dos senadores, instituiu a eleição por sufrágio universal dos conselheiros municipais, instituiu a liberdade de imprensa, o direito de reunião, o direito à greve e votou a lei do divórcio.
A República estabeleceu, em 1872, o serviço militar obrigatório, esforçando-se por direcionar para a expansão colonial os seus sentimentos de guerra sedenta de vingança da Alemanha, por outras palavras, Bismarck , ao anexar, em 1871, a Alsácia-Lorena, despertou nos franceses o nacionalismo exacerbado que levou à crise boulangista (1886-1889) e ao caso do Panamá (1889-93) e, finalmente, ao caso Dreyfus (1894-99).
A defesa do exército acabou por se transformar em antissemitismo e xenofobia.
No final do século XIX, o socialismo e o sindicalismo desenvolveram-se.
O surgimento do Bloco de Esquerda levou à constituição, em 1899-1902, dos gabinetes Waldeck-Rousseau e, em 1902-1905, do gabinete Combes.
As leis laicas de Ferry levaram a que a maioria dos católicos fosse contra os republicanos. Foi neste campo que os republicanos se uniram. Assim, após a promulgação da lei sobre as congregações, em 1901, aplicada por Combes, a França rompeu as relações com a Santa Sé em julho de 1904, proclamando a separação da Igreja e do Estado a 9 de dezembro de 1905. Esta lei, condenada pelo Papa Pio X, permitiu à Igreja de França renovar-se, já que as medidas anticlericais não eram suficientes para fazer uma política.
O Bloco de Esquerda desmembrou-se a partir de 1906, apenas continuando no poder a ala radical de Clemenceau (1906-09), sobrepondo-se, assim, a questão social à religiosa.
Entre 1907-10 surgiram grandes distúrbios. A condição social dos operários franceses era mais precária do que a dos seus congéneres alemães e ingleses, apesar da Lei Millerand, em 1900, ter fixado a duração do dia de trabalho em 10 horas.
A revolta conduzida por Clemenceau dividiu a ala esquerda e até ao eclodir da Primeira Guerra Mundial o regime passou por uma grande instabilidade.
A partir de 1890, o governo da Terceira República adotou uma política externa muito exacerbada, caracterizando-se pela aliança franco-russa que culminou, em 1892, pela realização da Entente Cordiale com a Inglaterra em 1904, o que levou ao isolamento da Alemanha internacionalmente. Para agravar a situação, em maio de 1911 deu-se a ocupação de Fez pelos franceses, que provocou uma imediata resposta da Alemanha, a qual enviou uma canhoeira para Agadir, em julho de 1911, e que teve como desfecho o acordo franco-alemão assinado em novembro de 1911, que dava aos franceses liberdade para se moverem em Marrocos.
Assim, o nacionalismo que já estava um pouco adormecido desde o caso Dreyfus, voltou a animar-se.
A crise de 1908-09, na Bósnia, levou a que toda a Europa entrasse numa corrida aos armamentos.
Em 1913 surge a lei do serviço militar obrigatório durante três anos, a que responderam as eleições de maio de 1914 com a vitória da ala esquerda pacifista, hostil à guerra, opinião partilhada pela maioria da população.
O presidente da República eleito em janeiro de 1913, Poincaré, um nacionalista nato, era um homem obcecado pela vingança contra a Alemanha.
Apesar de uma moeda forte, de possuir um grande império colonial e de ter aumentado a produção de hulha, ferro e aço, a França da Terceira República ficava um pouco aquém da Alemanha no que toca à indústria mecânica e às indústrias química e elétrica. Além disso, quanto à demografia registou-se um aumento pouco significativo em 40 anos, ao contrário da Alemanha.
Por estas e outras razões, o eclodir da Primeira Guerra Mundial custou à França muitos milhares de mortos e despesas, aumentando o seu atraso em relação às outras potências.
Deste modo, a França tomou consciência que só poderia ganhar a guerra se tivesse a ajuda da Inglaterra, EUA e das outras potências.
A sua debilidade económica fez com que tivesse de ser ajudada no armistício pelas outras nações. Assim, a Conferência de Paris, em 1919, deu origem a descontentamentos entre os Aliados e, o próprio Tratado de Versalhes assinado a 28 de junho de 1919 fez com que a França saísse prejudicada, como a Alemanha, já que não conseguiu obter a anexação da Renânia. A subida dos preços foi geral e a opulência dos novos-ricos que lucraram com a guerra foi enorme, provocando desde o fim da guerra um grande mal estar social, sendo o ano de 1919 marcado por inúmeras greves e por uma crise económico-financeira muito grave.
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