Fazer o luto
Para estas situações, infelizmente, não existem fórmulas mágicas e o sofrimento é mesmo inevitável, independentemente da idade dos envolvidos.
"Gostaria de ver tratado o tema das crianças que sofrem prematuramente a morte do pai. O que fazer? O que dizer? O que pensam? Como lidar com esta situação tão abstracta para as crianças? A minha filha tem apenas 4 anos e acabou de perder o pai. Sinto-me receosa e muito insegura quanto ao que tenho feito pela minha filha."
Caetana Paulo, Lisboa
Sobreviver à morte do cônjuge, quando da relação a dois resultou um ou mais filhos, é uma missão duplamente difícil. Para além do convívio com a solidão da viuvez, há o sofrimento da(o) mãe/pai que vêem os filhos entregues ao estatuto de órfãos, sobrepondo-se frequentemente esta última dor à primeira. Por esta razão, a preocupação de quem sobrevive é quase sempre tornar este acontecimento brutal e irreversível num acontecimento menos doloroso para os mais pequenos.
Para estas situações, infelizmente, não existem fórmulas mágicas e o sofrimento é mesmo inevitável, independentemente da idade dos envolvidos. Quando não há manifestação de dor é, por vezes, mais preocupante do que quando sentimentos de tristeza e revolta são exteriorizados abertamente, já que, frequentemente, as crianças negam a sua própria dor para proteger os adultos, cujo sofrimento constatam. As crianças reagem de forma diferente à morte, consoante o estádio de desenvolvimento em que se encontram. Por esta razão, conhecer a forma como os diferentes grupos etários fazem face ao processo de luto é um dado importante, na medida em que isso poderá permitir uma actuação mais eficaz.
Centrar-me-ei apenas na faixa etária dos 2 aos 5 anos. Nesta faixa etária, segundo Piaget, a criança encontra-se na fase do pensamento intuitivo ou pré-operatório. Neste período, o sistema de pensamento que as crianças tipicamente utilizam é o criativo e intuitivo. A intuição permite à criança libertar-se das limitações impostas pela realidade, embora investigações recentes tenham mostrado que as crianças em idade pré-escolar têm maior capacidade do que se pensava para fazer a distinção entre o real e o imaginário. Nesta idade, as crianças já têm capacidade para pensar, reflectir, perguntar e já possuem um certo grau de autocontrolo. É também típico, nesta etapa do desenvolvimento, o pensamento mágico, isto é, a abundância de superstições e de fantasias, que são tidas como reais. Por esta razão, é frequente as crianças fazerem de conta que a pessoa falecida está ao seu lado e interagem com ela.
Embora as crianças já tenham uma noção ténue do que aconteceu, facilmente ficam confusas e precisam de ouvir repetidamente explicações sobre o sucedido. Face a esta necessidade, é fundamental que os adultos mais próximos, em termos afectivos, se mostrem disponíveis para falar sobre o assunto e para ouvir, nunca devendo fazer de conta que nada aconteceu. Quando as crianças não são informadas da verdade, o risco é maior, porque as suas fantasias sobre a morte podem ser ainda mais cruéis que a realidade. A linguagem usada para revelar a morte deve ser simples e adequada à idade da criança, evitando no entanto o uso de eufemismos, tais como "adormeceu profundamente".
Nesta faixa etária ainda é frequente as crianças considerarem a morte como um acontecimento reversível. Por esta razão, frequentemente simulam a morte dos seus brinquedos, reanimando-os de seguida. A temática da morte pode assim ser representada nas actividades lúdicas da criança sendo isto normal e até saudável.
A morte deixa sempre uma ferida aberta que só poderá cicatrizar se à criança, também for dada a oportunidade de fazer o luto, o que implica obrigatoriamente dor, dor que só pode ser reduzida até um certo limite, limite esse que é sempre diferente de zero.
Como referenciar este artigo:
Fazer o luto . In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-03-11].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$fazer-o-luto>.
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