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Frentes da Guerra Fria: 1946-1962

Conflito nitidamente psicológico e acusativo entre os dois blocos de nações um liderado pela União Soviética e outro pelos Estados Unidos. Nunca se deu um confronto, aberto, direto propriamente dito entre estas duas potências, sobretudo devido ao mútuo receio de se desencadear uma guerra nuclear. Este traduziu-se, fundamentalmente, por uma disputa económica e diplomática; no terreno, apenas indiretamente em conflitos regionais. Interesses divergentes conduziram a um clima de mútua suspeição enraizado numa intensa rivalidade ideológica.
Contudo, e por incrível que pareça, a Guerra Fria assegurou a paz na Europa durante cerca de 50 anos.
Na origem deste conflito aparente está a tomada do poder na Rússia pelos comunistas em 1917, que subsequentemente criaram a União Soviética. A Inglaterra, a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos, que intervieram na guerra civil russa, viam com alguma desconfiança e temor a instalação deste regime comunista. Apesar de alguns países não reconhecerem oficialmente a União Soviética, esta manteve-se imperturbável até à Segunda Guerra Mundial. As circunstâncias deste conflito mundial levaram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas a juntar-se aos Aliados na luta contra um inimigo comum: a Alemanha nazi. No entanto, esta guerra serviu também para estender o poderio soviético, beneficiando da fraqueza de uma Europa, que perdia definitivamente o seu lugar no quadro estratégico mundial.
Em 1944-1945 o líder soviético Josef Estaline usou o Exército Vermelho para subjugar a Europa de Leste, sob o pretexto de garantir a sua segurança. O presidente norte-americano, Harry S. Truman, para responder a esta ofensiva russa, pôs em prática uma política para reunir a Europa sob a sua liderança.
A falta de confiança fez quebrar os compromissos assumidos durante a guerra. Estaline, por um lado, não cumpriu a promessa de fazer eleições livres na Europa de Leste, e Truman, por sua vez, não concedeu o auxílio prometido à reconstrução da União Soviética no período do pós-guerra.
A tensão aumentou em 1946 quando Estaline proferiu um discurso interpretado pelos norte-americanos como uma declaração de guerra ideológica ao Ocidente. No ano seguinte os americanos puseram em prática a "Doutrina Truman", que pretendia enviar auxílio para as forças anticomunistas na Grécia e na Turquia.
Nesse ano, o jornalista Walter Lippmann celebrizou o termo "Guerra Fria", num livro com o mesmo nome. Entretanto, no Congresso americano, o senador Joseph R. McCarthy era incumbido dos inquéritos para averiguar as atividades pró-soviéticas dos cidadãos norte-americanos. As investigações sobre as alegadas atividades pró-soviéticas atingiram tal dimensão que esse período ficaria conhecido como da "caça às bruxas". O período macartista foi igualmente caracterizado pelo "Plano Marshall" de 1948, um programa americano de ajuda à reconstrução da Europa Central e Ocidental.
Estaline contra-atacou com a instalação de governos comunistas por toda a Europa de Leste. Em 1948 (1948-1949) a crise de relacionamento atingiu níveis preocupantes quando o dirigente soviético resolveu também bloquear os setores ocidentais de Berlim, salvos com a ajuda Ocidental através de uma ponte aérea que ficou célebre. A partir de então, a rivalidade assumiu-se claramente ao nível militar. Em 1949 as potências ocidentais uniram-se para formar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/ NATO).
As tensões intensificaram-se em 1949, quando os soviéticos ensaiaram a primeira bomba atómica; paralelamente, os maoístas comunistas tomaram a China. Estes dois países assinaram uma aliança estratégica em 1950. Entretanto, os Estados Unidos favoreciam o desenvolvimento do Japão para fazer face à Ásia comunista.
Quando a Coreia do Norte, comunista, invadiu a Coreia do Sul, em 1950, precipitando a Guerra da Coreia (1950-1953), Truman fez intervir os Estados Unidos sob os auspícios das Nações Unidas. Era claro que o bloco comunista apoiava o invasor.
Com a morte de Estaline, em 1953, o clima de tensão aliviou-se, mas em 1955 o bloco soviético formou o Pacto de Varsóvia. A Alemanha, por sua vez, entrava na NATO. Os países que não se posicionavam junto de um destes blocos, os não-alinhados, recusavam, como podiam, o poder das grandes potências mundiais.
O clima de tensão intensificou-se nos anos 50 quando os dois blocos começaram a desenvolver mísseis balísticos intercontinentais e procuraram aumentar a sua rede de influência na África, na Ásia, na América Latina e no Médio Oriente. A União Soviética instigou a construção em 1961 do muro de Berlim para proteger a Alemanha comunista da Alemanha ocidental. Uma grave crise rebentou em 1962 quando os soviéticos colocaram mísseis em Cuba. O presidente americano John F. Kennedy ameaçou retaliar, e o conflito só foi sanado depois do compromisso dos comunistas retirarem o arsenal nuclear se os americanos não atacassem Cuba.
Os soviéticos ficaram, por outro lado, enfraquecidos com a quebra das relações com a China e com a primavera de Praga na Checoslováquia; e os protestos de outros governos satélites, como na Hungria. Os americanos, por seu turno, envolveram-se na desastrosa guerra do Vietname, que lhes custou 55 mil homens, e não devolveu o Vietname Sul ao seu bloco (pró-ocidental).
Nos anos 70 as duas potências acordaram manter uma política de coexistência pacífica. A invasão soviética do Afeganistão em 1980 saldou-se num desastre, como fora a Guerra do Vietname para os americanos, dado que não atingiram nenhum dos objetivos inicialmente propostos e confrontaram-se com pesadas baixas e cenários de guerra adversos. O contra-ataque americano foi a intensificação da luta anticomunista, nomeadamente na Polónia, apoiada numa exacerbada preocupação com o armamento e a defesa sob a presidência de Ronald Reagan, com o lançamento do plano de defesa estratégico conhecido como "Guerra das Estrelas".
Rapidamente as duas potências concordaram que despendiam avultadas somas de dinheiro com a política de armamento. Em 1985 Mikhail Gorbachev, o líder da nova geração soviética, chegou ao poder na União Soviética, inaugurando um conjunto de políticas reformistas (Glasnost, transparência, e Perestroika, transformação). Estas políticas aliviaram as tensões mas provocaram o desmembramento do bloco, com a União Soviética a não resistir aos movimentos ocidentais anticomunistas.
A queda do muro de Berlim em 1989, a assinatura o tratado entre as quatro potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial, a 12 de setembro de 1990, que permitiu a reunificação alemã, e o apoio da Rússia na Guerra do Golfo (1990-1991) marcaram o fim da Guerra Fria.
O presidente norte-americano George Bush chamou a atenção para "uma nova ordem mundial", que deveria substituir a rivalidade entre as superpotências.
A Guerra Fria poderia ter terminado mas o mundo debatia-se com constantes tensões, que não provinham necessariamente da velha rivalidade entre a ex-União Soviética e os Estados Unidos.

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