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hominização

A hominização é o processo evolutivo que conduziu, a partir de um primata ainda desconhecido, à forma atual do homem, quer física quer intelectualmente. A paleontologia é a ciência que evidenciou as leis gerais segundo as quais esta evolução se parece ter efetuado.
Os primatas podem dividir-se em diversos grupos, que descendem de um antepassado comum. Cada um destes grupos evoluiu em determinada direção, tendendo a uma especialização cada vez maior. A evolução destes primatas caracteriza-se por um aumento do volume cerebral e pelo desenvolvimento das respetivas faculdades. No final do Terciário, o ramo dos antropomórficos ter-se-á separado dos antropoides. Alguns autores, como Teilhard de Chardin, colocam esta separação numa fase do Terciário bastante anterior. Outros autores propõem ainda a separação dos australantropos da linha que conduziu ao homem, colocando-os num ramo da evolução divergente e sem prossecução.
Um aspeto muito importante para poder contextualizar a evolução do homem é o da evolução climática e morfológica do planeta. Há cerca de 40 milhões de anos, grande parte da Terra estava coberta por florestas de tipo tropical e o clima era quente e húmido. Os mamíferos consistiam principalmente em pequenas criaturas que, ao contrário dos répteis, podiam manter constante a temperatura do corpo. Há 35 milhões de anos, o primeiro protótipo de macaco antropoide já estava formado e tinha evoluído. Os olhos e as mãos foram os órgãos que mais mudanças apresentaram. A partir de uma pata com garras desenvolveu-se a mão com dedos capazes de se moverem independentemente uns dos outros e, mais tarde, com o polegar oponível. Esta evolução permitia uma melhor preensão, era útil na procura de alimentos como, por exemplo, insetos, e veio, também, a permitir uma muito boa manipulação de ferramentas. Ao mesmo nível desta destreza manual estava a visão estereoscópica dos primatas. Graças a dois olhos permanentemente apontados para a frente, era possível aos primatas uma ótima perceção do mundo, pois o cérebro recebia uma visão binocular. Com esta superioridade de perceção do mundo, os primatas rapidamente se espalharam por vastas áreas da floresta tropical. Contudo, as modificações geográficas provocadas pela separação dos continentes fez com que estes levassem consigo as suas espécies indígenas. Estas evoluíram de forma autónoma, dando origem a diversas espécies caracterizadas pela adaptação ao meio local. Há cerca de 20 milhões de anos surgia em África um novo grupo de primatas - os primeiros catarríneos antropomorfos. As diferenças entre os macacos antropomorfos e os outros relacionam-se com o modo de locomoção nas árvores: os macacos mais primitivos especializaram-se na deslocação sobre quatro patas, usando a cauda para se equilibrarem, ao passo que os outros se movimentavam muitas vezes suspensos nos troncos.
Há cerca de 4 milhões de anos, grande parte da floresta tropical africana tinha desaparecido, dando lugar à savana. Surgiram neste novo ambiente muitas espécies de mamíferos, em especial herbívoros. Movidos pela necessidade de procurar alimento, muitos primatas abandonaram a floresta para se aventurarem na planície.

É possível encontrar vestígios do processo de evolução do homem até há pelo menos 14 milhões de anos num pequeno hominídeo a que se chamou Ramapithecus descoberto primeiro na Índia e posteriormente na China, na Europa Oriental e na África Oriental. Pertencem ao grupo dos Antropomorfos dos quais persistem hoje os Pongídeos (chimpanzé, gorila e orangotango) e o homem. Das diversas variações morfológicas existentes nos maxilares fazem pensar que se trata de um elo provével entre os Símios e os Hominídeos. Os achados ocupam cronologias que vão desde os 14 milhões aos 8 milhões de anos, pois para além desta data não há conhecimento de quaisquer marcas da sua presença. Por volta de meados do Mioceno (o período vai de 25 milhões a 12 milhões de anos) o Ramapithecus ter-se-ia separado do ramo driopitecídeo também do Mioceno (os vestígios de mandíbulas apresentam semelhanças com os antropoides atuais) e dado origem à espécie australopitecídea, apresentando um maxilar próximo da curvatura em "V" caracterizador desta espécie e a retração dos caninos.
Apesar da escassez de fósseis, os investigadores têm afirmado que a partir dos Dryopithecus se separaram os Pongoidea dos Hominoidea, significando que os pongídeos atuais não fizeram parte da linha evolutiva do homem, no reforço da ideia de que o homem não procede do macaco, mas que ambos tiveram um antepassado comum.
As tentativas de classificação da família dos hominídeos resultou na seguinte divisão com as diferentes fases de hominização: os Australantropos (os mais antigos) que se subdividem em dois géneros - Australopithecus (gracilis e robustus pertendentes a uma fase pré-humana) e Homo (habilis correpondente à fase pré-humana); os Arcantropos cujo género é o Homo erectus (da fase humana antiga); os Paleantropos - Homo Sapiens Neanderthalensis (da fase humana moderna); e os Neantropos - Homo sapiens sapiens. Todos se increvem na Era Quaternária e os mais antigos andarão em torno dos 4 milhões ou mesmo 5 milhões de anos.
O local que ocupou a atenção dos arqueólogos foi a Etiópia, porque na bacia do Afar surgiu um fóssil de restos de um hominídeo que já apresentava um porte ereto ao qual veio a dar-se o nome de "Lucy", e que teve o seu aparecimento muitos anos após a extinção do Remapithecus. Este achado de 1974 foi classificado como Australopithecus afarensis, um pré-australopiteco que data de aproximadamente 3,5 milhões de anos, e poderá ter estado na origem do tronco humano. Antes deste Australopiteco, não se conhecem vestígios que indiciem um elo de ligação evolutiva que tenha conduzido aos "Pitecos" africanos. É o ponto de interrogação da história da hominização. Num esqueleto que mede pouco mais de 1 metro de altura, a posição dos ossos da anca e da coxa sugerem já uma locomoção bípede. A marcha bípede foi uma enorme conquista para a o processo evolutivo. Com a destruição da floresta tropical, fruto de uma acentuado abaixamento da temperatura mundial entre 7 e 5 milhões de anos, a savana povoou os espaços e os homínideos viram-se na contingência de abandonar as árvores e de se aventurarem no espaço aberto, adaptando-se às novas condições. Terão ocupado o vale do Rift, na África Oriental, entre 4 a 1,5 milhões de anos.
Seria novamente em África que iriam surgir novos dados que permitiriam um avanço nas teorias da hominização. Tratou-se do aparecimento de vestígios um pouco mais tardios do que Lucy e que datam de há 2 milhões de anos: dois géneros de Australopithecinae e a espécie Homo habilis. Conhecem-se duas variedades de australopiteco: a grácil - Australopithecus africanus - (mais magro, com cerca de 1,25 m de altura, contorno da mandíbula em "V", fronte destacada e desenvolvimento cultural pobre) e a robusta - Australopithecus robustus - (mais entroncado, com estatura de 1,55 m, face óssea relativamente lisa, crista sagital, mandíbula em V e uma cultura pobre). A estatura do Homo habilis é leve, a sua capacidade craniana é aumentada em relação ao peso do corpo. Se a morfologia faz já lembrar o homem moderno - são bastante ágeis - deve o seu nome à capacidade que apresenta na fabricação de utensílios em pedra. A dieta destes hominídeos incluía pela primeira vez carne, apesar de a fruta e os vegetais constituírem a principal base da sua alimentação. Conforme a carne se tornou uma fonte cada vez mais importante de alimento, a caça foi-se desenvolvendo. Crê-se que o Homo habilis tenha sido o direto antepassado do homem moderno. A evolução natural resultou na extinção dos Australopithecinae há 1,5 milhões de anos e no desenvolvimento do Homo habilis, que se transformou em Homo erectus.
Este último surge em África há 1,8 milhões de anos e aí permaneceu até há 1 milhão de anos. Possuía uma massa corporal bem próxima do homem atual, com uma capacidade craniana de cerca de 1000 cm3, frontal pouco convexo, toro supraorbital maciço, crista sagital, mandíbula robusta e dentes de grande dimensão. Estudos do seu crânio provam que possuía linguagem e organização social. É, na verdade, um caçador - recoletor nómada que se organizava em pequenos grupos. Conhece-se o fabrico de utensilagem que revela um maior aperfeiçoamento e complexificação do que a que nos chegou do Homo habilis. Surgem com esta espécie novos instrumentos: os bifaces e os cutelos. Uma das conquistas mais importantes destes homens foi o conhecimento do fogo. O fogo permitia cozinhar os alimentos, tornando-os mais moles, tendo deixado de ser necessário possuir maxilares tão fortes. Isto permitiu o desenvolvimento do volume cerebral graças à diminuição das dimensões dos maxilares e dos fortes músculos que lhe estão associados. Notam-se ainda preocupações ao nível da organização dos locais de abrigo. As investigações mostraram a sua presença não só em África (Zâmbia, África do Sul, Argélia, Tanzânia e Quénia), mas também na Europa (conhecidos como pré-neanderthalenses), na China e na Indonésia - a progressão geográfica terá sido muito lenta num lapso de tempo que poderá ser de quase um milhão de anos. O Homo erectus foi identificado pela primeira vez em Java em 1891, tomando o nome de Pitecanthropus erectus, cuja datação oscila entre 1 milhão e 700 000 anos atrás. Também na China se verificaram algumas ocorrências em Chu-ku-tien e foram denominados por Pitecanthropus pekinensis.
As formas de transição para Homo sapiens na Europa datam de entre 400 000 e 250 000 anos. Entre 100 000 e até 50 000 anos conhece-se melhor a evolução, pois os achados são mais abundantes, indicando a presença de Homo sapiens, em dois núcleos: em África e na Ásia (forma que evoluiu até ao homem moderno); e na Europa, no Próximo Oriente e Ásia Central, que deu origem ao Homo sapiens neanderthalensis, mais comummente conhecidos por homens de Neandertal (o primeiro exemplar foi descoberto em 1856, na Alemanha, no Vale de Neanderthal junto a Dusseldorf), cujas características morfológicas do crânio mostram algumas variações (arcadas supraorbitárias salientes, maciças e ininterruptas, testa baixa, ausência de verticalidade da fronte, achatamento da abóbada craniana, maxilar inferior recuado com ausência de queixo e uma grande capacidade craniana - 1300 cm3 a 1600 cm3) e possuem uma construção robusta dos ossos do esqueleto. Embora ainda ainda não se conheça profundamente o homem de Neandertal, a tendência atual é para se considerar que não apresenta características tão selvagens como anteriormente lhe eram atribuídas e uma das provas desta nova atitude é o achado de vestígio de uma inumação em Shanidar, no Iraque, datada de 60 000 anos, que demonstra já a existência de ritualização da morte e naturalmente uma sensibilidade inerente à sua realização. É possível que realizassem algumas cerimónias. A indústria lítica que produziram é designada por Mustierense, mas ainda aparecem bifaces acheulenses da fase anterior.

Durante a Idade Glaciar, de há cerca de 40 mil anos, surgem vestígios de homens de características inteiramente modernas, o Homo Sapiens Sapiens (Neantropianos), que terão coexistido com o arcaico Homo Sapiens. Pertencem ao grupo do Homo Sapiens Sapiens o Homo sapiens fossilis ou de Cro-Magnon e o homem atual, que deriva do primeiro. Saliente-se que este tipo humano surgiu subitamente e é muito parecido connosco. Desenvolveram-se mais cedo na África Austral e só muito mais tarde é que chegaram à Europa, substituindo o homem de Neandertal há 35 000 anos, o que poderá indicar uma nova dispersão pelo Velho Mundo. Os vestígios surgiram em França, no Mónaco, na Europa Central, na Alemanha, em Java, na Austrália, na China, na África do Sul e no Norte de África. A sua principal característica era a de estar dotado de uma inteligência superior, capaz de usar símbolos para representar objetos - é o período da eclosão da expressão artística, com o seu apogeu há cerca de 18 000 anos, em plena Idade do Gelo. Geralmente caracteriza-se por ter uma capacidade craniana de cerca de 1350 cm3, fronte arredondada e quase vertical, cristas supraciliares pouco desenvolvidas, região occipital arredondada, mandíbula e dentes de tamanho pequeno, eminência do queixo e os ossos dos membros relativamente gráceis.
As tentativas de explicação da passagem destes homens de um continente a outro têm incidido na hipótese da variação do clima através dos efeitos das glaciações. Entre há 70 000 e 12 000 anos, a glaciação teve consequências ao nível da deslocação de homens, pois viram-se na contingência de abandonar os territórios que tinham povoado a norte, que se tornaram inóspitos, e de se deslocarem para sul. A gelificação da água provocou a retração dos mares, colocando a descoberto línguas de terra entre os continentes que permitiram a passagem e a difusão por novas áreas. Foi o que aconteceu com o povoamento do continente americano, só possível através da existência de uma ponte no Estreito de Bering, ligando a Ásia à América. Assim, a presença humana na América do Norte ocorreria entre há 27 000 e 19 000 anos, tendo-se posteriormente difundido para sul até à América Central e do Sul, cuja presença se deteta a partir dos 10 000 anos. É mais difícil a explicação da chegada do homem à Austrália, pois, embora o mar tenha sofrido uma retração, não foi suficiente, porque o Mar de Timor ainda constituía uma barreira. Se as primeiras presenças detetadas na Austrália datam de há 32 000 anos, é possível que tenham alcançado o território através do uso de jangadas.
O homem moderno habitou nesta altura e experimentou pela primeira vez diversos meios e a eles teve que se adaptar. As diferenças a que hoje assistimos resultam desta adaptação, pertencendo toda a população humana à espécie Sapiens Sapiens. A evolução física da população humana terminou há cerca de 20 mil anos. A partir desta altura evoluíram as ideias e as técnicas, a recessão dos gelos provocou adaptações locais e isolou os habitantes da Austrália e da América. Com o final da última idade glaciar tiveram lugar, no período temperado que se lhe seguiu, as mais importantes inovações tecnológicas. O homem passou a trabalhar instrumentos cada vez mais complexos e descobriu a agricultura, o que lhe permitiu abandonar a caça e a recoleção e fixar-se definitivamente.
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