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identidade (sociologia)

O termo identidade é, hoje, um conceito de utilização generalizada nos vários ramos das Ciências Sociais, facto que confere complexidade à sua definição. Etimologicamente, o termo significa característica do que é o mesmo ou, numa asserção mais propriamente ontológica, a essência do ser, aquilo que permanece. Todavia, o termo sobreviveu para lá dessa raiz essencialista, designando afinal, hoje, e num aparente paradoxo, o que assegura a continuidade do indivíduo, do grupo ou da própria sociedade, através de um percurso existencial de permanente mudança, de rutura, de crise, de adaptação, de reinvenção e até de sobreposição de identidades. Espaço de consenso entre as Ciências Sociais de hoje será, também, o da noção de que nem o indivíduo existe como tal isolado do contexto social, nem a sociedade se constitui como um todo exterior ou alheio aos indivíduos e às especificidades dos seus trajetos. Pelo menos desde G. H. Mead que se afirma que o "eu" de cada um se define pelo exercício da alteridade, pela interação com e pelo reconhecimento do outro. Assim, a própria identidade pessoal constitui-se como objeto da ciência social, nomeadamente da Sociologia. Na ótica de A. Giddens, será este mesmo um objeto premente, fruto de uma modernidade que vem exaltando os valores do individualismo, mas que, concomitantemente, lhe retirou a segurança das identidades grupais duradouras (a da família, a do estrato social, a do grupo profissional, a da comunidade local...). Dir-se-ia que o próprio conceito evoluiu, adaptando-se aos novos contornos do objeto. Assim, a uma conceção clássica de socialização finita no tempo, como processo definidor da personalidade e integrador no espaço social, veio progressivamente sobrepor-se uma noção de socialização como processo permanente, que acompanha o percurso de vida e que procede por adaptações sucessivas a novos contextos.
Se a modernidade alçou o indivíduo para a frente e até para fora do grupo, tal não significa que as identidades grupais tenham integralmente soçobrado. Pelo contrário: os sucessivos percursos de socialização (que aqui poderemos designar de procedimentos de ajustamento da identidade) são outras tantas etapas de inserção em grupos sociais diversificados. Não cabe sequer radicalizar a asserção das identidades mutáveis, ao ponto de desprover de identidade os próprios grupos: o familiar, que, por si, também se adapta, ainda que com ruturas, à lógica do individualismo, apresentando-se hoje polimorfo e instável; o profissional, fortemente perpassado por esse individualismo imperante e frequentemente nocivo ao tradicional gregarismo corporativo, mas fundamental na inserção e na reinserção no mundo do trabalho; os grupos de idades (os de adolescentes, os juvenis, os da terceira idade, entre outros) que escondem o ciclo da vida humana em "identidades" transitórias.
Por sua vez, definem-se outras identidades partilhadas de âmbito mais vasto: tal é o caso das identidades nacionais. Numa modernidade ocidental, que se vem imaginando como plenamente democrática, concebe-se a política como espaço comunitário, partilhado e participado por todos os cidadãos, assim irmanados pelos laços de uma comunidade abstrata (P. James); ou, variante desse conceito nacional, evoca-se uma cultura ancestral, étnica até, que sustenta essa comunhão: a identidade cultural. Todavia, a tendência globalizadora, também inaugurada pela modernidade, e, por outro lado, o multiculturalismo que essa mesma tendência necessariamente arrasta consigo, abrem caminho a novas identidades, cujos referenciais não podem mais ser os de um passado (eventualmente remoto), antes os de um presente conscientemente construído como projeto de futuro.
Cabe ainda mencionar outro dos critérios diferenciadores dos seres humanos, hoje fortemente revisitado, senão mesmo integralmente posto em causa: o da divisão segundo o critério do género (assente no bimorfismo sexual). Tradicionalmente considerada uma identidade geneticamente adscrita, passou progressivamente a ser lida como construção social, tendo aberto espaço para sucessivas renegociações e reconstruções, que põem hoje em causa a bipolarização convencional, dando lugar ao polimorfismo.
Não se entenda, contudo, que as trajetórias dos indivíduos se transformaram em alea, ou seja, em atos absolutamente espontâneos, e, portanto, integralmente imprevisíveis, pulverizando as lógicas explicativas do social, remetendo-as para um discurso narrativo a posteriori, portanto historicizante, dos percursos cruzados dos sujeitos. Se esse é, em alguma medida, o ponto de chegada das abordagens pós-modernas da identidade e se ele tem sido frutuoso ao suscitar novas perspetivas de investigação que apontam no sentido da microanálise dos fenómenos sociais (nomeadamente, as histórias do eu, em formato biográfico ou mesmo autobiográfico), o interesse das abordagens macro não vem sendo, por isso, liminarmente negado. Por outro lado, a uma teoria da identidade, qualquer que seja o âmbito das Ciências Sociais a que ela se possa aplicar, terá de andar associada uma teoria da dinâmica da identidade.

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