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Invasões Bárbaras

A História do Ocidente Medieval nasce das ruínas do Império Romano, enfraquecido desde a segunda metade do século II. A unidade deste mundo, foi abalada, perde-se sobretudo com a crise do século III e o seu velho centro - Roma - já não conseguia controlar as províncias que se emancipavam e se tornavam elas próprias conquistadoras. Um sintoma dessa mudança é o facto dos imperadores Trajano e Adriano serem hispânicos, embora esse assunto também fosse visto pela pujança desta região e pelo seu papel mobilizador em termos políticos e culturais no conjunto do Império Romano.
Além disso, as disputas pelo poder, lideradas pelos diferentes núcleos militares, provocam grandes conflitos e um estado de guerra civil quase permanente.
Outro fator que contribuiu para o colapso deste mundo foi a perda de poder e importância do Ocidente face ao Oriente. Materializada pela fundação de Constantinopla, a nova Roma, pelo imperador Constantino (324-330). A queda do edifício romano em ruínas foi precipitada pelas invasões bárbaras (século V), embora este fenómeno não fosse uma novidade para os romanos.
Os invasores eram fugitivos pressionados por outros povos mais fortes que eles, cuja crueldade era, muito possivelmente, fruto do desespero, sobretudo quando os romanos lhes negavam abrigo, muitas vezes pedido de uma forma pacífica. Os bárbaros (os Hunos, os Lombardos, os Vândalos, os Alanos, os Suevos, os Visigodos, os Ostrogodos, os Anglos, os Saxões, os Francos, os Burgúndios, etc.) tinham uma superioridade militar conferida pela sua cavalaria e pelo hábil manuseamento da arma da invasão, uma espada comprida pontiaguda, muito cortante e de grande eficácia.
Outra vantagem dos bárbaros foi a cumplicidade, passiva ou ativa, da populaça romana, descontente face à minoria endinheirada.
Os bárbaros que se instalaram no Império Romano, durante o século V, não eram os jovens selvagens e cruéis descritos nos textos da época. Eram guerreiros que, nas suas incursões, tinham recebido muitas influências e evoluído, antes de assaltarem o mundo romano. Aprenderam técnicas e arte com os asiáticos, os iranianos, os greco-romanos e os bizantinos. Consigo trouxeram novos saberes que aplicaram na ourivesaria, na metalurgia, na arte do couro e a decoração estilizada das estepes.
Outra grande transformação operada nos invasores foi a cristianização de uma parte considerável deste povos bárbaros (Ostrogodos, Visigodos, Burgúndios, Vândalos e Lombardos). Contudo, a sua conversão dirigida por Ulfila, o "apóstolo dos Godos", acabou por ser uma fonte de problemas, porque estes aderiram ao Arianismo, considerado uma heresia depois do Concílio de Niceia.
Estes homens, ao contrário do que se pode pensar, sentiram-se atraídos pelos romanos. Por esse motivo os seus chefes chamaram os romanos para seus conselheiros e por vezes tentaram imitar os seus costumes. Não eram inimigos das instituições romanas, mas os seus usurpadores. É curioso que nenhum bárbaro se fez imperador. Odoacro em 476, quando depôs o imperador do Ocidente Rómulo Augústulo, enviou as insígnias imperiais a Zenão imperador de Constantinopla. Teodorico usou um nome romano, Flavius, e escreveu ao imperador dizendo que era seu servo e que pretendia fazer do seu reino uma réplica do seu.

A pressão dos povos bárbaros sobre as fronteiras do Império Romano intensificara-se nos séculos II e III. As hordas bárbaras forçaram a fronteira perto do Danúbio e saquearam várias províncias (Rétia, Nórica, Panónia, Dácia e Ilíria). Os seus destacamentos chegaram à Itália do Norte.
O imperador Marco Aurélio conseguiu derrotar os Marcomanos, mas no século III Roma foi obrigada a reforçar a sua defesa contra os Germanos, que se sentiam cada vez mais atraídos pelas riquezas de Roma e das suas províncias.
Os invasores agrupavam-se, nesta altura, em poderosas alianças militares, que punham em prática as táticas militares aprendidas com as legiões romanas. Se no início do seu relacionamento com os romanos, os bárbaros estavam obrigados a fornecer efetivos armados e pagar pesados tributos, agora a situação invertera-se. Os romanos passavam a estar obrigados a pagar grandes somas para tentar travar as invasões.
Os imperadores, cedendo à pressão deste povos, autorizavam-nos a estabelecer-se nas províncias do império. Os bárbaros ocuparam as áreas ao longo do Danúbio, nos Balcãs e na Gália. De um modo geral, instalavam-se em terras incultas e mantinham-se afastados das cidades, chegando com alguma frequência a coexistir com os romanos.
Nos séculos IV e V, o Império Romano já não conseguia conter a pressão dos povos bárbaros que cobiçavam as riquezas e as suas terras. Na fase final do império, as tribos isoladas e as federações militares lançavam-se em constantes vagas sobre a Europa.
Os grandes protagonistas destas migrações foram as tribos germânicas de Leste, sobretudo os Godos, que tinham, de início, povoado o litoral Sul do Báltico, estendendo-se pela Escandinávia. Nos séculos II e III estes dirigiram-se para Sudeste, estando no início do século III no litoral norte do mar Negro.
As tribos que se instalaram a Oeste do Dniepre ("habitantes da floresta"), foram chamados Visigodos e os que ocuparam as estepes ao longo deste rio, para Leste, tomaram o nome de Ostrogodos. O norte da bacia do mar Negro também foi povoado por tribos bárbaras como os Gépidas e os Hérulos.
Na segunda metade do século III e no século IV, os romanos foram obrigados a defender os seu territórios atacados por Francos, Alamanos e Burgúndios. Estes últimos tinham abandonado as terras entre o Vístula e o Oder, para se estabelecer nas margens do Meno.
A união dos Ostrogodos, dirigida por Hermanarico, em 375 foi surpreendida pelos Hunos de Átila, vindos da Ásia. Após o suicídio do seu chefe os Ostrogodos foram submetidos por estes bárbaros e forçados a acompanhá-los para Oeste.
Em face de uma ameaça latente, os Visigodos procuraram estabelecer-se na Trácia e na Mésia, com a autorização do imperador Valente. Em 376, instalaram-se no Sul do Danúbio.
A falta de mantimentos para alimentar uma população em crescimento e as dificuldades geradas pelos romanos conduziram à revolta dos Godos, que receberam o apoio da população romana. Em 378 (9 de agosto), o exército romano foi derrotado na Batalha de Andrinopla. Na sequência destes acontecimentos, o imperador Valente tentou, sem sucesso, fugir.
Os Godos devastaram a Península Balcânica e chegaram a Constantinopla. O general Teodósio, futuro imperador do Império Romano do Oriente, tentou chegar a um acordo do qual resultou a cedência das províncias balcânicas aos Godos.
À morte de Teodósio (395), os Visigodos voltaram a revoltar-se e sob o comando de Alarico rumaram até Constantinopla. Contudo, Arcádio, Imperador do Oriente, conseguiu desviá-los para Oeste. Em 410, Alarico fez uma incursão pelo norte da Europa, sendo arrastado até ao Iliricão pelo general romano Estilicão.
Nesta época os Alanos, os Vândalos e os Suevos, expulsos da Panónia pelos Hunos, faziam pressão sobre as fronteiras do império. Comandados por Radagásio e aliados aos Ostrogodos, cercaram a cidade de Florença (405-406), mas foram vencidos por Estilicão.
Entre 407 e 409, a Gália foi saqueada por Alanos, Suevos e Vândalos, que logo de seguida (409-411) se apoderaram da Hispânia. Estilicão foi obrigado a chamar as legiões estacionadas na Bretanha e na Gália do norte, acabando assim com o domínio romano sobre a Bretanha. Uma nova incursão dos Visigodos conduziu o imperador Romano do Ocidente a refugiar-se em Ravena, enquanto Roma era cercada.
Em 409, Alarico voltou a cercar a cidade que não suportou as privações a abriu as portas ao inimigo. O chefe godo entrou em Roma (24 de agosto de 410) e pilhou a capital do império. De seguida partiu para o Sul da Itália, com o objetivo de atingir África, no entanto os seus planos foram gorados com a perda da frota e a sua morte precoce.
Ataúlfo, sucessor de Alarico, levou os Visigodos até à Gália e estendeu os seus domínios até à Península Ibérica, conseguindo afastar os Alanos e os Vândalos. Este últimos liderados por Genserico, passaram em 429 da Espanha para o norte de África, onde tomaram as possessões romanas.
Em 455, os Vândalos saquearam Roma e em meados do século V, os Saxões, os Anglos e os Jutos abandonaram o norte da Germânia e a Península da Jutlândia para invadir a Bretanha.
Em 451, a União dos Hunos, liderada por Átila, após terem pilhado as cidades da Gália, travaram uma importante batalha nos campos Catalaúnicos, próximo de Troia, onde os Hunos combateram os Burgúndios, os Francos e os romanos de Aécio. Após a morte de Átila a União dos Hunos desfez-se e estes rumaram para Leste.
Os Burgúndios, instalados na Saboia desde 443, como aliados de Roma, ocuparam Lion no Sudeste da Gália (457). Em 476, o último imperador do ocidente, foi deposto por Odoacro, chefe dos exércitos bárbaros de Itália. Este acontecimento marca, tradicionalmente, o fim do Império Romano do Ocidente.
O domínio de Odoacro na Itália foi curto, pois em 488 os Ostrogodos dirigiam-se para estes territórios, para fugir à fome que assolara a Panónia dominada pelos Hunos e procurar novas terras. Teodorico, o seu chefe derrotou Odoacro, tomou Itália e instalou-se em Ravena (489-493), a casa dos últimos imperadores romanos.
Entretanto em 486, Clóvis, rei dos Francos, um povo que se instalara no Reno inferior, conquistou o norte da Gália até ao Loire.
A invasão dos bárbaros mudou o Ocidente Medieval, entre a morte de Teodósio (395) e a coroação de Carlos Magno (800), nasce um novo mundo que surge da fusão de dois mundos, o romano decadente e o bárbaro emergente.
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