Miscelanea de Garcia de Resende, e variedade de historias, costumes, casos, e cousas / que em seu tempo aconteceram
Integrada na segunda edição do Lyvro das Obras de Garcia de Resende, e escrita provavelmente nos mesmos anos em que redigiu a Crónica de D. João II, entre 1530 e 1533, a Miscelânea, dedicada a D. João III, relembra, em verso, os grandes acontecimentos e protagonistas da história europeia e portuguesa ocorridos entre meados do século XV e primeiros decénios do século XVI.
Refletindo o processo histórico-cultural que acompanhou o nascimento da idade moderna, o autor da Miscelânea assume-se como espectador das inúmeras transformações políticas, económicas, sociais, morais, de modas, de costumes verificadas nos últimos oitenta anos: as viagens de descoberta, a constituição de impérios, a emergência do capitalismo, o desmoronar do sistema feudal, o desenvolvimento da cultura palaciana, a ascensão de novas classes dominantes e novos valores, o aparecimento da imprensa, etc.
Aí, a lógica da mudança obedece à sucessão de novidades contrárias: "Vimos rir, vimos folgar, / vimos cousas de plazer, / vimos zombar, apodar, / motejar, vimos trovar [...] E depois vimos cuidados, / paixões, descontentamentos, / muytos malenconizados, / muytos sem causa agravados (...) Vimos muyto espalhar / Portugueses no viver, / Brasil, ilhas povoar, / e aas Indias yr morar, / natureza lhe esquecer: / veemos no reyno metter / tantos captivos crescer, / e yremse hos naturaes, [...]".
A enumeração das histórias, "costumes, casos, e cousas" acaba, deste modo, por redundar na constatação de uma desordem, evidenciada, por exemplo, pela arbitrariedade da recompensa de serviços, pois "Muy mal se pode sofer / com siso, nem paciencia, / veer a hûos muytos valer / sem esforço, sem saber, / virtudes, nem eloquencia, / e veer outros questo tem, / e sempre serviram bem, / viver sempre mesterosos, / sem favor, e desgostosos / da gram sem razam que vem." Confluindo na temática do desconcerto do mundo, resolvida na crença de que só a fé em Deus dá sentido à mudança, a Miscelânea nasce, por outro lado, do desejo humanista, já enunciado no prólogo ao Cancioneiro, de registar em vulgar todos os feitos que, mau grado a sua "mundana gloria", não devem ser esquecidos.
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