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onomatopeia

Linguística: Representação gráfica de uma imagem acústica criada intencionalmente pelo homem e que funciona apenas dentro da comunidade linguística em que foi gerada; palavra cuja sonoridade pretende imitar o som produzido no mundo real.
Na definição de José Herculano de Carvalho (1973, Teoria da Linguagem, Coimbra: Atlantida Ed.:187), "a onomatopeia no sentido restrito e mais exato do termo, será então um objeto sonoro de configuração bem definida e valor significativo constante, embora impreciso, dentro de uma determinada comunidade linguística, constituído (..) por um som ou, mais frequentemente, uma combinação de sons correspondentes aos fonemas da língua dessa comunidade: zás, pum, pimba, dlim-dlão, tlim-tlim, tic-tac, etc".
Segundo a TLEBS (Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário), a onomatopeia designa um dos processos morfológicos de formação de novas palavras (neologismos). Esta consiste numa unidade lexical (palavra) resultante de um processo morfológico, que se baseia na criação de novas palavras a partir da imitação de um som natural.
As onomatopeias são construídas de forma a adaptarem-se ao conjunto de sons de que dispõe o sistema fonológico de cada língua, o que explica as diferenças entre as várias línguas no que respeita à representação das mesmas realidades acústicas, como se pode ver nos exemplos que se seguem:



As onomatopeias mais frequentes procuram imitar "vozes de animais" (mé-mé - para o balir da ovelha; cri-cri - para o grilo; miau - para o gato; mu-mu - para o mugir da vaca; zzzz - para o zumbir da mosca ou da abelha e também para o sono; quá-quá - para o grasnar do pato; piu-piu - para o piar do pintainho; etc), embora outros sons sejam também representados, como por exemplo trrim-trrim (para a campainha do telefone), chuac (para o estalido do beijo), etc. A banda desenhada é o género mais produtivo de onomatopeias em todas as línguas por ser um espaço onde a imagem é dominante e onde a palavra tem um lugar reduzido.
Existem também palavras cuja formação histórica assenta num princípio onomatopaico de imitação do som da natureza, tendo sido posteriormente lexicalizadas e integradas na gramática das línguas. São exemplos deste caso no português, palavras como tilintar, ciciar, chilrear, coaxar, miar, uivar, ribombar, zumbir, zunir, entre outras. José Herculano de Carvalho (op. cit: 192) refere-se também a "onomatopeias de movimento", que consistem em representações não já de um som, mas sim da imagem visual ou de um movimento: cambalear, bambolear, ziguezaguear, etc.

Retórica: Como figura de retórica, a onomatopeia resulta da combinação de palavras cujas sonoridades contribuem para a sugestão ou para o reforço da descrição de um determinado objeto ou sentimento. Neste sentido, a onomatopeia cruza-se com figuras de repetição fónica como a aliteração, em que a repetição de um certo som reforça o conteúdo do texto para evocar ou sugerir uma certa imagem ou estado de espírito. No poema "Violoncelo" de Camilo Pessanha, a aliteração das sibilantes sugere simultaneamente a água que passa sob as arcadas, as lágrimas e o choro do poeta:

"Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
Leme e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!"
(Camilo Pessanha, "Violoncelo", in Clepsidra, ed. de João de Castro Osório, Lisboa, Ática, 1983)

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