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ordem social

O termo ordem foi muitas vezes definido por oposição a desordem e a transformação social.
A diversidade de utilizações do termo faz com que o seu uso seja por vezes evitado por parte dos sociólogos, o que não invalida que as questões relativas à ordem social se ponham. Como é que a ordem social é possível? De que modo se reproduz a ordem numa sociedade? Quais são os mecanismos pelos quais se reproduzem as desigualdades (Bourdieu, Pierre; Passeron, Jean-Claude - La reproduction, éléments pour une théorie du système d'enseignement, 1970)?
Mas a questão da ordem social pode também ser tratada, de um ponto de vista microssociológico e praxeológico, pela abordagem da reprodução das ações e das situações. É assim que a etnometodologia estudou o modo como as atividades sociais se auto-organizam e se reproduzem segundo uma ordem social, tornando-se simultaneamente compreensíveis. Esta ordem é prática e moral e resulta das atividades regulares realizadas pelos membros da sociedade, segundo as suas próprias competências. Uma fila de pessoas na paragem do autocarro, uma audiência num tribunal, uma aula, uma conversa entre duas pessoas, são exemplos de atividades práticas convencionais e processuais, que se realizam segundo uma ordem.
Os atores, na sua vida quotidiana, realizam atividades conjuntas ordenadas, cooperam uns com os outros em ações recíprocas, mantêm conversas que apresentam uma sequência e são compreensíveis, põem-se de acordo sobre aquilo que fazem e que veem, utilizam definições comuns das situações, graças a uma ordem social e moral. Ora, esta ordem não é exterior aos atores (como pretendia Durkheim), segundo normas, regras e convenções que lhes são impostas. Do ponto de vista microssociológico, adotado pela etnometodologia, trata-se de uma ordem praxeologicamente gerada nas situações ou nas experiências da vida em conjunto, segundo uma exigência prática de inteligibilidade e de responsabilidade (o ego age não somente de modo a que a sua conduta seja entendida por outrem, mas também segundo as expectativas dos outros em relação a ele e à responsabilidade das consequências das suas ações). A ordem social é, assim, produzida localmente ao nível das interações da vida quotidiana, na medida em que os atores efetuam atividades ordenadas e organizadas, que satisfazem as expectativas recíprocas e uma compreensão comum. É por isso que Garfinkel e Sacks referem as propriedades de ordem, ou características "formais" das atividades práticas: a sua regularidade, reprodutibilidade, normatividade, tipicalidade, etc. Estas propriedades formais são engendradas pelas práticas e independentes daqueles que as realizam. São elas que possibilitam as ações concertadas em cada momento, ao nível das atividades conjuntas, das rotinas, ou das trocas interpessoais.

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