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Ordens Mendicantes

As Ordens religiosas ditas mendicantes têm por regra fundamental a imposição aos seus membros de nada possuirem em comum. Esta exigência completa a imposição da pobreza individual comum às demais Ordens religiosas. Além disso, é ainda permitido às Ordens Mendicantes o direito de mendigar nos locais públicos, donde advém o seu nome. Estes institutos exercem também atividades caritativas e pastorais, dedicando-se os seus frades - assim se designam os seus efetivos, muitas vezes referidos como monges, estes pertencendo às Ordens Monásticas - também à pregação itinerante, nos meios urbanos preferencialmente. Estas Ordens, fortemente hierarquizadas, desde sempre gozaram do privilégio da isenção, pelo qual o papa libertava uma comunidade religiosa da jurisdição do bispo diocesano, colocando-as sob a alçada do Vaticano.
As Ordens Mendicantes existentes compreendem os Dominicanos, os Franciscanos (os mais numerosos, divididos em vários ramos: Frades Menores, Conventuais, Capuchinhos, Terciários), os Agostinhos (Eremitas, Descalços e Recoletos) e os Carmelitas (Calçados, ou da Antiga Observância, e Descalços, ou da Observância Reformada), os Servitas, os Mínimos, os Hospitalários de S. João de Deus, os Mercedários, os Trinitários e a Ordem Teutónica, para além dos ramos femininos de alguns destes institutos religiosos.
As raízes destas Ordens remontam ao século XII, período de grande agitação social e espiritual. Numerosas personalidades, visionários ou inspirados, fundam comunidades que rompem com as autoridades constituídas, civis ou religiosas, marginalizando-se socialmente. É o caso dos Valdenses ou dos Cátaros (ou Albigenses), no sul de França, por exemplo. Neste contexto de efervescência religiosa, Domingos de Guzmão (mais tarde, S. Domingos), cónego da catedral de Osma (Castela, Espanha), a convite do papa Inocêncio III, em 1205, acompanhará o seu bispo, Diego, na evangelização dos hereges do Languedoc (sul de França) através da pregação e do exemplo de uma vida sem pecado. Um dos seus primeiros atos será a criação de uma comunidade feminina em Prouille, na diocese de Toulouse. Em 1215, o bispo desta cidade encarregará Domingos de pregar contra os Cátaros na região, depois do seu sucesso em Montpellier. Rapidamente, Domingos achar-se-á à frente de uma comunidade de missionários, origem da futura Ordem dos Pregadores, ou Dominicanos, autorizada pelo papa Honório III em 1216.
Na mesma época, por volta de 1209, Francisco, jovem oriundo de uma rica família de mercadores de Assis (Itália Central), renuncia à sua vida fácil e inspirada em ideais de cavalaria, decidindo dedicar-se a uma existência de acordo com os valores do Evangelho. Acabará por fundar uma Ordem, um pouco a seu contragosto, a que chamará de Frades Menores (ou "irmãos pequeninos"), aprovada pelo papa Inocêncio III em 1210, embora a regra definitiva só em 1223 tenha sido aprovada. Estas primeiras Ordens Mendicantes, quase simultâneas, são logo seguidas de duas outras no século XIII: os Eremitas de Sto. Agostinho (1243) e os Carmelitas (1234-1247).
Os membros destas Ordens Mendicantes distinguem-se dos monges pelo facto de não acentuarem a contemplação e a liturgia na sua vida religiosa, antes privilegiando a vontade de imitar Cristo no apostolado, tendo uma atitude mais social e ativa. O seu zelo evangélico e aceitação popular eram tais, nos primeiros tempos, que não tardou muito a sofrerem a hostilidade do clero secular e dos bispos. Estes viam com maus olhos os frades mendicantes invadirem o seu domínio, retirando-lhes fontes de rendimento não desprezáveis, devido à concorrência das igrejas das Ordens Mendicantes às igrejas paroquiais. Além disso, os frades mendicantes implantar-se-ão nos colégios e nas universidades, originando-se conflitos com os professores titulares de certas cadeiras. Em 1253, os franciscanos e os dominicanos recusaram-se a participar numa greve organizada pelos estudantes e corpo docente da Universidade de Paris, a mais importante daquele tempo. Seguiu-se um violento conflito, com os papas a apoiar os frades contra os bispos e a universidade. Somente em 1300 haverá paz com a intervenção do papa Bonifácio VIII, que limitou os privilégios dos mendicantes. De qualquer forma, na Idade Média, as Ordens Mendicantes conhecem um florescimento notável, ultrapassando em preponderância social, cultural e política, para além do número de efetivos, as Ordens Monásticas, tradicionais e fechadas, que conhecem então uma certa estagnação.
Desde o Concílio de Trento (1545-1563), a maior parte das Ordens Mendicantes, e ainda que se mantenham ramos de estrita observância e pobreza absoluta no seio de algumas, é autorizada a possuir bens comuns, o que implica não viver exclusivamente da caridade pública, forma de vida desadequada ao século XVI. Os tempos de Contrarreforma implicavam uma maior capacidade de resposta das instituições católicas, entre as quais sobressaíam as Ordens Mendicantes, de grande utilidade apostólica e evangelizadora. Nestas tarefas incluía-se o esforço de missionação em que cada vez mais se envolviam, mercê dos grandes impérios coloniais que se desenhavam no século XVI. Daí a necessidade de possuirem bens comuns que gerassem rendas para suportar todo esse conjunto de atribuições que se lhes afiguravam. O Código de Direito Canónico reconhece-lhes, porém, o seu estatuto original e concede-lhes o direito de pedir esmola na diocese a que pertence a comunidade.
Originalmente itinerantes, os mendicantes foram-se gradualmente fixando em conventos, comunidades estabilizadas donde irradiavam para as suas ações apostólicas ou demais incumbências pastorais e caritativas. Muitas vezes denominam-se as suas casas, erradamente, mosteiros ou abadias, termos ligados às Ordens Monásticas.
A centralização das Ordens Mendicantes é outra das suas características marcantes, com uma organização em províncias, à frente das quais se encontra um superior (dito provincial). No governo de cada Ordem existe um superior geral, eleito em capítulo geral em intervalos de tempo variáveis segundo o instituto religioso e seus estatutos.
Após os abalos profundos sofridos na Revolução Francesa e no século XIX, com a diminuição do número de efetivos, o desaparecimento de províncias e comunidades inteiras, as perseguições e projetos nacionais de laicização, e após uma fase de renascimento em finais da década passada, as Ordens Mendicantes encontram-se, hoje em dia, implantadas em todas as regiões do Mundo, apesar de conhecerem uma certa estagnação no seu crescimento. A sua atividade missionária, educacional, pastoral e científica é notável, constituindo-se como um dos baluartes do mundo católico da atualidade, possuindo, igualmente, um inigualável número de santos e beatos, sendo alguns deles dos mais cultuados e famosos entre todos, como S. Francisco, Sto. António, S. Domingos, Santa Teresa de Ávila.
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