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Paleolítico Superior

É no contexto do Paleolítico superior que se inscreve o aparecimento do Homo sapiens sapiens. A sua capacidade de mobilidade fez disseminar as indústrias que caracterizam o período, notando-se em áreas consideráveis a existência de comunidades desenvolvidas sob o ponto de vista técnico. O Paleolítico superior significou uma evolução em relação aos períodos anteriores, devido ao uso mais racional dos recursos à disposição da comunidade e caracteriza-se por um maior aperfeiçoamento da técnica de fabricação de utensílios, resultando numa grande variedade de objetos, que inclui os que foram executados em osso.
Nota-se um maior cuidado na organização do habitat, demonstrando uma maior complexidade social e o desenvolvimento da sensibilidade perante questões como a morte, pois comprova-se a ocorrência de rituais funerários.
A importância do período reside também no facto de ter sido o momento da eclosão das manifestações artísticas que se espalharam por grutas, abrigos e em rochas ao ar livre, na forma de pinturas, gravuras e esculturas.
No dilatado período correspondente ao Paleolítico superior foi possível estabelecer para a Europa uma sequência muito segura da sua evolução, distinguindo-se importantes momentos culturais que correspondem a uma evolução das principais indústrias - o Aurinhacense, o Solutrense e o Magoalenense caracterizadas por alguns utensílios exclusivos em cada uma delas (a nomenclatura deriva dos locais onde foram encontrados os primeiros vestígios materiais). O agrupamento de técnicas e tipos de instrumentos ajudam a definir culturas e até civilizações. No entanto, os investigadores têm deparado com alguns problemas que dificultam a divisão e a clareza de cada período - cada um dos complexos apresenta muitas diferenças internas, muitas vezes não existe coesão e o mesmo complexo pode surgir em cronologias diferentes noutros territórios.
Dos achados revelados pela arqueologia, é significativa a presença de uma grande variedade de indústrias líticas durante o Paleolítico superior, baseadas no retoque de lâminas destacadas de um núcleo de pedra, resultando em artefactos de pequenas dimensões, o que demonstra um apuramento da técnica de talhe. O auge desta indústria ocorreria no Magoalenense superior. Os artefactos assumem agora outras formas como os raspadores, as pontas de dorso abatido e as foliácias. Para além da natural predominância de objetos líticos, o osso e o marfim marcam a sua presença. Contam-se entre as inovações, a agulha, o arpão e as zagaias, muitas vezes decoradas, patenteando o nível técnico que os homens da altura conseguiram atingir.
A transição do Paleolítico médio para o Paleolítico superior (35 000 - 31 000) caracteriza-se pela técnica Levallois, pelas pontas foliáceas e pelo aparecimento das pontas em osso. A última fase do Paleolítico médio revela a cultura Mustierense, correspondente à atividade do homem de Neandertal. O Paleolítico superior inicia-se com a interglaciação Würm II-III e termina com o Würm IV, sendo naturalmente afetado por alternância de climas frios e climas temperados que teve efeitos sobre a flora e a fauna. Esta mudança teve naturais consequências nas atividades cinegéticas e de recoleção notadas na observação dos espólios (ossos, conchas, sementes e pólens).
Os primeiros níveis estratigráficos onde foram encontrados objetos pertencentes ao Paleolítico superior revelam ainda a presença de indústrias Mustierense, principalmente raspadeiras, pontas, buris e lascas obtidas segundo a técnica levallois, o que poderá levar a considerá-las como indústrias de transição. Verifica-se ainda uma certa semelhança de algumas características do mustierense e os complexos industriais do Paleolítico superior. A ideia de uma continuidade está também presente em outros aspetos da vida das comunidades, nomeadamente no tipo de economia, que não deixa de ser o da caça e recoleção, no tipo de organização do habitat, que mantém as mesmas características observadas no Paleolítico médio, mas comportando um crescente número de indivíduos, e na forma de entender as questões ligadas à morte, verificando-se uma evolução no tipo de enterramentos e de rituais a eles associado.
As primeiras indústrias do Paleolítico superior que sucedem ao Mustierense são o Perigordense e o Aurinhacense. O Perigordense surge abundantemente no Périgord e o Aurinhacense aparece na França meridional, tendo depois sido substituída pelo Perigordense superior. Verificou-se uma grande variedade dos tipos de indústria e uma interestratificação das duas culturas. La Gravette e La Ferrassie são os sítios que revelaram uma sequência quase completa de níveis perigordenses em sincronia com os níveis aurinhacenses. O Perigordense inferior situa-se entre 35 000 e 30 000 anos a. C. Esta fase da cultura ainda apresenta alguns utensílios de filiação Mustierense (raspadeiras e denticulados) que se misturam com buris de ângulo, raspadores em pontas de lasca e com um número diminuto de objetos em osso. O Perigordense superior também tomou a designação de Gravetense, por ter sido em La Gravette que se encontraram os utensílios que o caracterizam - pontas de dorso abatido que se associam a raspadores sobre lascas e folhinhas de dorso abatido. Apresenta-nos uma evolução relativamente ao período anterior na técnica de fabricação de artefactos líticos em lâmina que agora se obtêm a partir do núcleo. A difusão geográfica é mais extensa do que a que se verificou para a fase antecedente (França, Bélgica, Espanha e Itália) e as datações oscilam entre 26 000 e 20 000 a. C. Pertencem ao Gravetense as mais antigas expressões artísticas esculpidas e gravadas ou pintadas em abrigos ou grutas. Ainda se verifica a presença do Perigordense superior na Europa Central e Oriental.
O Aurinhacense é muito abundante no Sudoeste da França e ocorre por volta de 28 000 a. C. Surge também em Espanha, em Itália, na Alemanha e na Bélgica. Dos materiais recolhidos das escavações chegaram-nos objetos líticos - lascas de um tamanho ainda considerável, raspadores - e objetos em osso - pontas de zagaia em forma de losango, ovais e bicónicas.
O Solutrense sucede ao Gravetense no final do Würm III, com uma duração curta, cerca de 22 000 até 17 000 a. C., e com uma implantação mais visível no Sudeste da Europa, local onde apareceu, com a sua avançada indústria de folhas de lança lisas retocadas no dorso ou nas duas faces e de adagas em sílex, cuja técnica utilizava o aquecimento prévio do material a lascar e a percussão indireta. Vulgarmente chamam-se a estes objetos, já muito precisos, "folhas de loureiro" e apresentavam dimensões variáveis. Surgem também raspadores bastantes aperfeiçoados e a agulha perfurada. É possível verificar já uma tendência microlítica. Paralelamente a uma evolução significativa no tipo de indústrias, assiste-se também a um incremento das diferentes formas de expressão artística que se inscrevem na transição entre os Estilos II e III da classificação de Leroi-Gourhan.
O Magoalenense, datado de entre cerca de 18 000 e 10 000/9 000 a. C., foi a última fase do Paleolítico superior, florescente em Espanha e França, onde atingiu seu maior esplendor, tendo posteriormente atingido a Inglaterra, a Suíça, a Alemanha e a Bélgica, embora a sua origem seja ainda mal conhecida. O sítio de La Magdeleine trouxe à luz do dia uma indústria que significou o auge da cultura paleolítica. Caracteriza-se pela grande variedade de utensílios em osso, marfim e chifre que alcançam uma grande qualidade, nomeadamente as pontas de lança, arpões e propulsores e pela presença de micrólitos. As periodizações dentro do Magoalenense, num total de seis, foram feitas tendo como base as peças de osso, o que demonstra a sua importância nos contextos estratigráficos. O Magoalenense inferior (15 000 a. C.) apresenta espólios em que se destacam as pontas de zagaia de secção oval em bisel, os buris de tamanho grande e diversas formas de furadores. Ao longo desta fase do Magoalenense os utensílios vão evoluindo, resultando num aperfeiçoamento dos buris, dos raspadores de extremo de folha, num encurtamento das pontas das zagaias e na presença de propulsores e varetas. No Magoalenense superior (10 000 - 9 000 a. C.) a indústria diversifica-se, patente nos arpões que vão tomando formas cada vez mais eficazes (uma fileira de dentes e depois duas), pontas em forma de forquilha e zagaias com bisel duplo. Os objetos apresentam decoração que passa de formas bastante realistas para outras mais esquemáticas. É neste período que a pintura e a gravura atingem o ponto culminante. A vida da comunidade adquire novos contornos, nomeadamente nas diferentes possibilidades no campo da atividade venatória, com a utilização de novas técnicas e novos instrumentos e no que diz respeito ao estabelecimento mais estável nas grutas e abrigos, constituindo sociedades com um maior número de membros com atividades específicas e locais próprios no interior do habitat.
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