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Polifemo

Existiam duas figuras mitológicas gregas com este nome. Uma era o lápita Polifemo, filho de Élato e de Hipe, embora a sua paternidade divina fosse Poseidon, o deus do mar. A sua mulher era Laónome, que, segundo uma lenda não muito clara, seria irmã de Hércules. Este Polifemo teve como irmão Ceneu, e terá participado na célebre batalha travada entre os Centauros e os Lápitas, episódio imortalizado mais tarde numa das primeiras obras escultóricas de Michelangelo Buonarroti. Esteve também na expedição dos Argonautas, embora não tenha estado com Jasão até ao fim da mesma. Fundou Cio, na Mísia, o que está na origem de não ter acompanhado Jasão. O lápita Polifemo terá morrido na guerra entre os seus e os Cálibes.
O outro Polifemo mais não é do que o famoso Cíclope da Odisseia de Homero. De acordo com esta epopeia, é o mais medonho e feroz de entre aqueles gigantes de um só olho, na testa, e aspeto selvagem. Era filho de Poseidon e de uma ninfa marinha, Toosa, filha de Fórcis. A sua atividade principal era a pastorícia. Habitava numa caverna, numa ilha provavelmente a sul da Sicília, alimentando-se de carne crua, humana de preferência, ainda que o fogo não lhe fosse desconhecido, por vezes bebia vinho, mas de forma desregrada. Às vezes também chamava pelos outros Cíclopes, quando se sentia ameaçado, embora nunca lhes soubesse explicar o motivo do seu apelo.
Polifemo está ligado à aventura de Ulisses, no regresso deste a casa. Polifemo revelou-se um anfitrião perigoso, tratando os marinheiros gregos como se fossem animais do seu rebanho. De facto, Ulisses, que acostara na ilha dos Cíclopes, ter-lhe-á ingenuamente pedido hospitalidade por uns dias, identificando-se como Ninguém. O gigante, contudo, prendeu o herói e doze dos seus companheiros na sua caverna, onde estavam também os seus animais. Ulisses, de acordo com o plano do Cíclope, seria então o último a ser devorado. Polifemo, entretanto, tinha já dado semelhante destino a alguns dos seus prisioneiros gregos, comendo-os um a um ao jantar. Ulisses ter-lhe-á dado um vinho excelente como oferenda ao aportar na ilha, de modo que Polifemo lhe queria agradecer deixando-o para último. O Cíclope, todavia, bebeu primeiro o precioso néctar, ficando ébrio e deitando-se a dormir profundamente. Ulisses tinha já pensado, antes, em matar o monstro durante a noite, mas não conseguira, com seus homens, arrastar a pedra que obstruía a caverna. Desta vez, porém, embriagado como estava, seria talvez então a ocasião de tentarem a sua sorte. Assim, estava o monstro a dormir quando Ulisses e os seus companheiros engendraram uma artimanha para se verem livres de tão cruel e sanguinário carcereiro. Aguçando a ponta de uma estaca de madeira de pinheiro, endureceram-na passando-a pelo fogo. O grupo pegou então na estaca e, com toda a força possível, espetaram-na no único olho do Cíclope adormecido. Este, tomado pela horrível dor, gritava desesperado, rugindo embravecido. Os outros Cíclopes ter-lhe-ão perguntado o que sucedia, mas Polifemo apenas respondia que Ninguém o estava a atacar. Os outros monstros achavam, assim, que Polifemo estava ou bêbedo ou louco, indo-se por isso embora.
De manhã, o monstro abriu a porta da gruta para os carneiros irem pastar. Então, Ulisses e os companheiros agarraram-se ao seu ventre para se dissimularem entre o rebanho e assim conseguiram sair da ilha a salvo. Polifemo, cego, de nada se apercebeu, apesar de ter apalpado todos os animais que por si tinham que passar à saída da caverna. Entretanto, ao longo, já no navio aparelhado e rumando ao alto mar, Ulisses gritava para terra a Polifemo com o intuito de zombar do gigante cego. Mas Polifemo conhecia há muito um oráculo que dizia que o Cíclope seria um dia cegado pelo herói agora em fuga, o que o tornou ainda mais enraivecido por ter sido enganado por Ulisses e se ter cumprido assim o presságio. Ainda lançou contra a embarcação de Ulisses enormes pedras, mas sem sucesso algum. Por este motivo e nesse momento terá nascido a ira de Poseidon, pai do Cíclope, contra Ulisses, jurando vingança eterna sobre o herói de Ítaca.
Apesar do impacto que a Odisseia teve no mundo grego, com todas as suas histórias e mitos, é de espantar que Polifemo se tenha convertido mais tarde numa figura de certa graciosidade, tendo uma ardente paixão com uma Nereide, Galateia. Uma lenda posterior narra que esta se terá apaixonado pelo monstro e lhe terá dado descendência. Noutras versões, este Cíclope aparece galante, embevecido pela paixão por uma bela ninfa.
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