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Quotidiano na Grécia Antiga

No período clássico grego verificou-se uma expansão do comércio e da indústria, coadjuvada pelo regime democrático em vigor, o que teve naturais consequências na vida dos Gregos, embora o sobressalto dos conflitos fosse frequente. Ao nível das estruturas sociais formou-se uma classe média dos proprietários, de negociantes, de armadores e de fabricantes. A riqueza começaria a manifestar-se a breve trecho no modo de agir dos Gregos, especialmente entre os Atenienses. As mulheres envergavam trajes de excelentes tecidos e usavam peças de ouro que lhes adornavam o corpo. Difundiu-se por toda a Grécia a elegância dos costumes, tornado bem patente no modo de vestir, mas que não se coadunava com a modéstia, a pequenez e o desconforto da grande maioria das habitações. A qualidade da habitação variava muito, indo das casas de campo luxuosas, de proprietários abastados na periferia, passando pela casa relativamente bem construída das famílias com uma situação económica estável até às casas de gente pobre, que incluíam as cavernas escavadas na rocha. As casas apresentavam divisões consoante os sexos e o lugar social que os habitantes ocupavam na casa: os homens estavam separados das mulheres, tendo estas que se instalar no piso menos confortável. As atividades diárias desenrolavam-se no piso térreo da casa, onde se verificava uma grande falta de higiene, agravada pelo fraco abastecimento de água, muito escassa durante o verão. As casas geralmente careciam de uma boa e robusta construção, pois as paredes eram bastante frágeis, sujeitas a vários tipos de degradação e tornavam-se desconfortáveis no inverno. O mobiliário presente nas casas variava conforme as possibilidades do proprietário: nas casas dos pobres reduzia-se a um leito e a alguns utensílios de cerâmica de uso diário; entre a classe média e os ricos já se usavam mais peças de mobiliário, mas, mesmo assim, não era costume usar mobiliário luxuoso e caro. Bastavam as poltronas, os tamboretes, uma mesa, alguns leitos (os melhores eram os que se destinavam aos proprietários, os filhos e os serviçais dormiam em colchões simples) e as arcas. Apesar da ideia de quotidianos, na generalidade, pouco luxuosos, através das ruínas que chegaram até nós, as representações do quotidiano que observamos, por exemplo nos vasos, mostram-nos cenas livres de banquetes e de ambientes muito faustosos. O desafogo económico também teve o seu reflexo nas cidades, que se embelezaram e alargaram em direção ao mar, pois o maior controlo das costas pelas frotas fazia com que esta aproximação fosse mais segura. São notórios os planos de grandes obras e o melhor exemplo foi a construção da Ágora de Atenas no seio do bairro novo, envolvido por pórticos e por edifícios públicos. Mas foram os templos que mais atenção exigiram dos Gregos, destacando-se o exemplo da construção do Templo de Atena na Acrópole. Desde sempre a Acrópole constituiu o coração e o centro de irradiação da cidade. De acordo com o ambiente geral das cidades, também as cerimónias religiosas se revestiam de importância e de magnificência, como foi o caso do incentivo das realizações das Panateneias. Ao longo destes e de outros festejos, a poesia e a representação de tragédias tinha uma máxima importância para os Gregos, que se deslocavam a grandes distâncias para participar. Se no século VI se vê despontar este sentido da grandeza, é, de facto, no século V que esse fausto mais se fez notar. O ato de honrar os deuses da cidade ou da nação era um ato patriótico, o que provocou um maior luxo nos templos que marcavam ainda mais a cidade. Foi principalmente em Atenas que se verificou a febre de construções, nomeadamente os edifícios para o comércio, para a defesa (as muralhas que ligaram Atenas ao Pireu, os arsenais, os pórticos e armazéns) e para os deuses (obras do Santuário de Elêusis e reedificação dos edifícios da Acrópole de Atenas, que se arruinaram com as guerras médicas e com o tempo que passou sobre eles). Com Péricles, Atenas transformou-se no símbolo de toda a Grécia. A cidade ia crescendo e os bairros organizavam-se de forma concêntrica em torno dos lugares centrais: a Ágora e a Acrópole, onde fervilhava a vida urbana no labirinto das ruas, das lojas, das oficinas e das habitações (ao contrário dos Romanos, os Gregos não tinham preocupações com o traçado racional e planificado das cidades).
Para além dos edifícios religiosos, bem marcantes na malha urbana, os Gregos sempre se preocuparam com a criação de outras estruturas indispensáveis à sua vida quotidiana: o teatro e a Ágora. O teatro ocupava um lugar de destaque na vida dos Atenienses. Conhecem-se as disputas entre o público por um lugar nas bancadas para assistir às representações, facto que obrigou as autoridades a conceder a cada zona da cidade um número de filas previamente estabelecido. Um dos teatros mais famosos foi o Teatro de Dionísio, iniciado no século VI a. C., mas que só foi terminado após o período do Governo de Péricles. Os Atenienses não vinham aqui apenas para ver o desempenho dos atores, mas também aqui cultuavam Dionísio, pois os espetáculos eram em sua honra. A Ágora era um local multifacetado onde os Atenienses, os estrangeiros e os visitantes presentes na cidade comerciavam diariamente, mas também tinham possibilidades de assistir a outro tipo de atividades. Era o lugar público, lugar de encontro. Inicialmente era aí que se representavam peças teatrais, se faziam assembleias e corridas de cavalos. Posteriormente, as funções ligaram-se cada vez mais ao trato comercial, atividade desempenhada de uma forma perfeitamente caótica entre os lugares de venda. Outro lugar onde se verificava uma atividade comercial frenética era o Pireu, onde se estabeleciam os comerciantes estrangeiros.
A vida quotidiana dos Gregos desenrolava-se entre a casa e a praça. Apesar da melhoria da condição da mulher livre após as reformas do século VI, em certas cidades permanece afastada da vida política e intelectual. O seu lugar é o gineceu, mas, se demonstra aptidões no campo literário ou artístico, vê a sua posição na sociedade negativamente afetada. A maior parte dos cidadãos livres era constituída por artífices ou comerciantes, que viram melhorar a sua posição económica na época de Péricles devido ao grandes empreendimentos efetuados. Os cidadãos livres poderiam ter a sua atividade laboral dentro de um certo conforto, pois os trabalhos mais pesados eram da responsabilidade dos escravos. Os homens livres tinham a possibilidade de deixar regularmente o seu trabalho para participar nas assembleias e sessões do Tribunal, sendo remunerados por isso. Era frequente encontrar os jovens atenienses no Ginásio, onde se exercitavam de corpo despido, nas diversas modalidades: corrida, salto, luta, lançamento de disco e dardo. Este era também o lugar privilegiado para os intelectuais, filósofos e retóricos, que aqui se reuniam com os seus alunos, nos corredores que rodeavam as pistas e os balneários.
A vida dos Gregos era essencialmente uma vida pública de encontros, reuniões nos lugares públicos, de negócios, de lazer, refletindo-se naturalmente na vida familiar, dentro de portas. O incremento desta atitude foi possível com o importante período de democracia inaugurado por Péricles.
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