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Romanização da Península Ibérica

Nos finais do século IV a. C. uma nova potência assume protagonismo no Mediterrâneo Ocidental: Roma.
A primeira grande diferença entre o Império Romano e os que o precederam reside no facto do processo expansionista deste ter sido progressivo e lento mas, contudo, seguro. O Império Romano não é obra de uma dinastia, mas sim de um longo processo territorial, garantido por numerosas gerações de dirigentes políticos e militares.
Uma outra característica que diferencia este império dos antecedentes é o facto de Roma não submeter pela força os povos que vai conquistando ao longo da sua expansão; o seu domínio é feito através de implementação de novas realidades administrativas, que, no entanto, tentam adaptar-se às diferentes formas de exercício do poder dos distintos locais.
Em termos gerais, o processo de romanização pode ser definido como a criação de uma nova ordem territorial. Esta nova ordem territorial incluía novas realidades político-administrativas e um processo de complexificação social. A eficácia do exercício do poder e a circulação das diretivas saídas dos diferentes órgãos do Estado foram asseguradas pela criação de um bom sistema de comunicações.
Na Península Ibérica, sob a designação genérica de "período do domínio romano", incluem-se fases de desenvolvimento distintas, apesar de existir a tendência de considerar a presença romana (mais de seis séculos) como uma única realidade.
Os Romanos começaram a conquista da Península Ibérica pelo ano 218 a. C., durante a Segunda Guerra Púnica, entre Roma e Cartago, em que as tropas comandadas por Cneu Cipião desembarcaram em Ampúrias. Durante vários anos lutaram contra o domínio dos Cartagineses, acabando por expulsá-los da Península em 206 a. C., com a conquista de Cádis, passando a dominar o litoral mediterrânico. Seguiram-se as lutas contra os povos peninsulares.
Durante os anos de 206 e 205 a. C. as tropas de Roma enfrentaram e venceram algumas sublevações dos poderios indígenas no Sul da Península. Desde estas datas considerou-se a administração efetiva romana no extremo ocidental do Mediterrâneo. Uma vez instaurada a paz, em finais do século III a. C., a Península Ibérica teve inicialmente uma ocupação romana de cariz militar, garantindo assim o controlo e exploração do território. Só em 197 a. C. se pôs em marcha o primeiro projeto de criação de uma administração provincial. Nesse mesmo ano, o território ocupado foi dividido em duas províncias: a Hispânia Ulterior, a ocidente, e a Hispânia Citerior, a oriente. Nesta altura, as regiões administradas deveriam somente abranger a faixa litoral, dos Pirenéus até às faldas da Sierra Morena. O novo sistema administrativo manteve-se por bastante tempo com as duas províncias.
A partir de 194 a. C. há notícias dos primeiros confrontos entre Lusitanos e Romanos, entre os chefes Lusitanos sobressaíam Viriato e Sertório. Os Lusitanos acabaram por sofrer sucessivas derrotas durante os anos seguintes, reforçando estes a sua presença através da ocupação de novas regiões. No entanto, a primeira grande campanha romana no atual território português só se efetuou em 138 a. C. A iniciativa desta investida esteve a cargo do novo governador da Ulterior, Décio Júnio Bruto. Este fixou o seu quartel-general junto à cidade de Morón, no vale do Tejo, e fortificou Olisipo, possibilitando assim um fácil abastecimento às tropas em campanha por via marítima. Júnio Bruto avançou em direção ao norte, mas contornou as regiões montanhosas do interior, evitando desta forma confrontos com as populações das montanhas. Tudo leva a crer que a campanha se tenha desenvolvido ao longo da faixa litoral portuguesa, traçando, provavelmente, o percurso que mais tarde iria dar origem à estrada que ligaria Olisipo a Bracara. Uma vez terminada a campanha, as tropas dirigem-se para sul e tudo indica que não deixaram qualquer guarnição no Noroeste. Nos anos que se seguem não existem indícios de conflitos entre Romanos e os povos autóctones.
Nos princípios do século I a. C., Públio Crasso, à data governador da Ulterior, comanda uma campanha ao Noroeste (96 a 94 a. C.) em que logra a identificação das fontes de estanho peninsulares. É provável que esta descoberta tenha contribuído para a intensificação das navegações atlânticas, facto, aliás, comprovado pelo registo arqueológico ao longo de todo o século I a. C.
Aproximadamente dez anos mais tarde, 81 a. C., a guerra generaliza-se, mas não tem qualquer relação com as velhas inimizades entre Romanos e Lusos, sendo tão-só um reflexo das guerras civis romanas. As hostilidades prolongam-se por um longo período de tempo e só têm fim em 72 a. C. Após a morte de Sertório (72 a. C.) e da derrota de Perperna, a Península Ibérica vive novamente um período de acalmia. Porém, esta situação foi alterada com a nomeação de Júlio César para governar a Ulterior (61 a. C.). César desencadeou um grande ataque contra os Lusitanos que habitavam o monte Hermínio. As campanhas de Júlio César não se limitariam somente às regiões montanhosas entre Douro e Tejo, mas também às costas da Galiza.
Em 56 a. C., Júlio César, Marco Licínio Crasso e Cneu Pompeio (ou Pompeu) estabelecem um acordo para a partilha dos territórios sob administração romana. A Marco Crasso foi atribuída a província da Síria, a Júlio César as Gálias e a Cneu Pompeio a Hispânia. Contudo, Pompeio acabou por entregar as Hispânias a três legados, que repartiam entre si o governo das províncias. A Citerior foi atribuída a Lúcio Afrânio e a Ulterior a Marco Varrão e Petreio.
Entretanto, e como consequência dos desentendimentos entre Júlio César e Pompeio, ambos com aspirações ao trono, são infligidos vários ataques à Hispânia e os legados de Pompeio acabam por ser derrotados. Em 44 a. C., com a saída dos opositores a César do território, os governadores ocuparam-se da pacificação total da região.
Neste mesmo ano, Júlio César é assassinado e Otaviano, seu filho adotivo, assume o poder vitalício em Roma (27 a. C.), inaugurando-se desta forma a etapa imperial, propriamente dita, da história de Roma. Todavia, as hostilidades na Hispânia haviam recomeçado (29 a. C.), e Roma concentrou uma grande força militar na Península Ibérica contra os Vascos, Cântabros e Ástures. Durante 10 anos estas populações resistiram aos ataques, acabando toda a Hispânia por ser completamente dominada em 19 a. C.
Conforme os Romanos chegaram iam dominando as várias regiões peninsulares, assim impunham as suas estruturas sociais, a sua forma de vida, as suas leis, acabando por dominar e influenciar profundamente, e para sempre, toda a Península Ibérica. É a toda esta ação e influência da civilização de Roma que se chama romanização.
A sua influência fez-se sentir em todos os setores. De uma economia rudimentar passou-se a uma economia agrícola com bom aproveitamento dos solos e das várias culturas, como o trigo, oliveira, fruta e vinha. A língua latina acabou por se impor como língua oficial, funcionando como fator de ligação e de comunicação entre os vários povos. As povoações, até aí predominantemente nas montanhas, passaram a surgir nos vales ou planícies, habitando casas de tijolo cobertas com telha. Como exemplo de cidades que surgiram com os Romanos, temos Braga (Bracara Augusta), Beja (Pax Iulia), Conímbriga e Chaves (Aquae Flaviae). A indústria desenvolveu-se, sobretudo a olaria, as minas, a tecelagem, as pedreiras, o que ajudou a desenvolver também o comércio, surgindo feiras e mercados, com a circulação da moeda e apoiado numa extensa rede viária (as famosas "calçadas romanas", de que ainda há muitos vestígios no presente) que ligava os principais centros de todo o Império.
A influência romana fez-se sentir também na religião e nas manifestações artísticas.
Tratou-se, pois, de uma influência profunda, sobretudo a sul, zona primeiramente conquistada. Os principais agentes foram os mercenários que vieram para a Península, os grandes contingentes militares romanos aqui acampados, a ação de alguns chefes militares, a imigração de romanos para a Península, a concessão da cidadania romana.
Umas das principais realizações romanas em solo hispânico foi a implantação de um novo modelo de sociedade, em que os centros urbanos eram formados como polos do Governo regional, estratificados e submetidos a um poder mais amplo. Este cenário não era de todo inédito em algumas regiões da Península Ibérica, mas a sua extensão à totalidade do território peninsular foi uma criação romana.
No ano em que Otaviano assume o poder, a província Ulterior foi dividida em duas, Bética e Lusitânia. A Bética abrangia a atual região da Andaluzia e a Lusitânia corresponderia, sensivelmente, ao atual território português.
Otaviano teve um papel relevante na criação de grandes colónias, tais como Pax Julia (Beja), Augusta Emerita (Mérida), e também apoiou a urbanização de alguns dos antigos povoados indígenas, como aconteceu com Conimbriga (Condeixa) ou Selium (Tomar). Uma outra importante concretização da administração provincial romana são os conventus iuridici. O conventus consistia numa atividade de carácter jurídico. Anualmente, o governador de cada província reunia-se em diferentes cidades com os seus respetivos representantes, para ministrar justiça e transmitir as novas diretrizes da administração romana. No âmbito dos conventus prestava-se também o culto ao Poder de Roma, personificado na pessoa do imperador e da sua família. Esta função religiosa parece ter sido uma das principais atribuições destes atos públicos.
O período de guerra civil que se seguiu ao reinado de Nero, por volta de 68, traz novamente uma vaga de conflitos para a Península Ibérica.
Em 69, depois de derrotar as forças do seu adversário (Vitélio), Vespasiano assume o império e funda a dinastia dos Flávios. Sob a dinastia dos Flávios, últimos decénios de I d. C., deu-se o processo de divisão administrativa das Hispânias, com a municipalização efetiva de todas as sedes regionais: as civitates. A prosperidade flávia prolongou-se na Península Ibérica nos reinados antoninos, cuja dinastia se iniciou em 98 com Trajano, o primeiro imperador romano natural da Hispânia. Esta dinastia, que ocupou quase todo o século II, é normalmente celebrada como a "Idade de Ouro" do Império Romano. Foi uma época caracterizada por uma grande prosperidade económica e desenvolvimento regional.
Ao longo do século III, o Império viveu dias difíceis com o início do chamado "período de anarquia" (235), durante o qual se sucederam querelas entre chefes militares e conturbações a nível político.
Entre 284 e 288, com Diocleciano (284-304), opera-se uma nova reorganização das províncias hispânicas. O território peninsular é dividido em cinco províncias: Tarraconense, Cartaginense, Bética, Lusitânia e Galécia. Esta nova divisão irá vigorar até à perda dos territórios da Península Ibérica por Roma.
Nos finais do século IV, o império é governado no Oriente por Teodósio, que detinha grande prestígio em toda a extensão do império. Este facto deve-se à fraqueza demonstrada por Augusto do Ocidente, Valentiniano III, e pela origem hispânica daquele. Em 380 d. C., com o Édito de Tessalónica, o Cristianismo é adotado como religião de Estado, desmoronando-se assim um dos últimos bastiões da ideologia imperial. O imperador deixa de ser o chefe supremo dos cultos, para dar lugar à hierarquia da Igreja.
A partir de 409 a situação política na península altera-se radicalmente com a invasão dos povos germânicos, e sobretudo com a fixação dos vândalos e suevos na Galécia, em 411. A aplicação dos decretos imperiais foi impedida e, nas zonas rurais, a influência dos bispos ortodoxos foi reduzida.
Com a morte de Teodósio, em 395, o império é dividido pelos seus dois filhos, Honório, que passou a governar o Ocidente, e Arcádio, a querer o Oriente. Em 407, um usurpador autoproclama-se nas ilhas britânicas, com o nome de Constantino III. O seu projeto de poder pessoal revelou-se de extrema importância para a história da Hispânia. Em 411, e face à situação criada pelos usurpadores na Hispânia (o território tinha sido invadido por Constante, filho de Constantino III), Honório estabeleceu um pacto com os "bárbaros" aqui instalados. Deu-lhes a Galécia, a Lusitânia e a Cartaginense, mantendo para o império a província Tarraconense. A partir desta data assiste-se ao gradual desmoronamento da influência do Império Romano na península.
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