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Sociedade Brasileira (início do séc. XX)

A população brasileira, no início do século XX era composta, de um modo geral, por uma elite que detinha o poder político, uma classe média urbana e pelos sertanejos. Havia ainda os emigrantes europeus e japoneses que, no início do século, afluíram ao Brasil em grande número.
O Brasil, de 1890 a 1939, tinha uma economia voltada para o comércio externo. O café, os couros e as peles eram os principais produtos de exportação. O café cultivado em regime de monocultura dominava a produção agrícola, embora a cultura do algodão assumisse uma expressão crescente a partir de 1890. Entre 10% e 20% do excedente era destinado à exportação. O algodão alimentou ainda uma indústria fabril crescente. No decorrer da Primeira República (1889-1930), a necessidade de aumentar a produção interna levou à criação de estabelecimentos fabris no Brasil. Quanto ao gado, este era explorado em regime de latifúndio. Os latifúndios cafeeiros ou pecuários estavam nas mãos dos coronéis, que também detinham o grande comércio. O título de coronel fora criado durante a Regência e era uma patente da Guarda Republicana, que com o passar do tempo passou a ter um sentido honorífico apenas. O coronelismo foi um fenómeno típico da Primeira República e o poder económico e político dos coronéis foi decisivo durante esta época da história do Brasil.
Nos centros urbanos, a elite era composta pelos comerciantes envolvidos no comércio externo, sobretudo do café e da borracha, e ainda pelos grandes financeiros da banca. Neste grupo, incluíam-se igualmente as altas patentes militares que estiveram envolvidas na instauração do regime republicano em 1889 e que fizeram parte do governo da Primeira República. A classe média era um grupo urbano composto por funcionários públicos, pequenos comerciantes e profissionais liberais. Um grupo ainda incipiente mas que adquiria cada vez mais importância, sobretudo a partir da década de 30 e das mudanças político-sociais do Estado Novo (1937-1945). Nas primeiras décadas do século XX, os militares encontravam-se desarticulados e existia uma clivagem entre as altas patentes, que faziam parte das elites da sociedade e as baixas patentes. As tensões eram frequentes, pois cada grupo defendia interesses diversos. O movimento Tenentista (1922-1927) foi um desses momentos. Um outro grupo social, que passou a ter uma importância crescente, foi o dos operários fabris.
A presença dos emigrantes, sobretudo italianos, introduziu mudanças importantes, como o sindicalismo, o socialismo e o anarquismo. Fora dos centros urbanos, a população do sertão trabalhava nos campos ou na pecuária e vivia com grandes dificuldades em parte devido às condições adversas do meio, em parte devido à exploração gananciosa dos latifundiários. Para escapar à miséria muitas vezes imigravam para outras regiões à procura de trabalho. Foi o que aconteceu durante o Primeiro Ciclo da Borracha (1879-1912) que levou à selva amazónica um sem número de aventureiros muitos deles vindos do sertão nordestino.
O sertanejo encontrava ajuda, muitas vezes, na religião, para superar as dificuldades. A sua fé simples levava-o a escutar com avidez as palavras dos "homens santos" que pregavam no sertão. Estes "homens santos" estiveram na origem de alguns dos mais importantes movimentos sociais desta época, como a Guerra dos Canudos (1893-1897), a Guerra do Contestado (1912-1916) ou a Comunidade do Caldeirão (1926-1936).
O papel do emigrante para o desenvolvimento da sociedade brasileira foi crucial. Do ponto de vista económico, o emigrante veio substituir o negro como mão de obra. O Brasil decretou o fim do tráfico de escravos com a Lei Eusébio Queirós em 1850 e a abolição com a Lei Áurea em 1888. Ainda no século XIX, os emigrantes europeus começaram a chegar ao Brasil. Primeiro suíços, depois alemães, italianos, espanhóis e portugueses. Os italianos, que perfizeram 70% dos emigrantes desembarcados no Brasil, vieram para trabalhar nos cafezais, mas pouco anos depois partiram para os centros urbanos em busca de melhores condições de vida. Muitos deles foram engrossar o proletariado nascente. Entre 1908 e 1915, mais uma vez, a falta de mão de obra para trabalhar nos cafezais, leva o governo a praticar uma política de emigração subsidiada. Desta vez foram os japoneses a chegar ao Brasil, 15 000 numa primeira vaga, com a viagem paga uma parte pelo governo e a outra pelos cafeicultores. Mais tarde, entre 1925 e 1935, um segundo grupo de 140 000 japoneses entrou no Brasil. A partir de 1950 a emigração japonesa terminou por completo. Os emigrantes urbanos, por excelência, eram portugueses e espanhóis, árabes - sírios e libaneses - e ainda judeus. Os árabes começaram a chegar ao Brasil no século XIX e no século XX os números aumentaram. Eram sobretudo caixeiros-viajantes que percorriam as localidades do interior mas que com o decorrer do tempo acabaram por se fixar nas grandes cidades. O contributo dos emigrantes para o crescimento da taxa populacional no Brasil foi significativo. Eles foram responsáveis por 10% do crescimento populacional do país nas primeiras quatro décadas do século XX.
A contenção no fluxo migratório foi uma realidade a partir dos anos 30. O Decreto-Lei de 4 de maio de 1938, publicado por Getúlio Vargas, restringe drasticamente a entrada dos emigrantes no país. Somente um máximo de 2%, por nacionalidade do total de emigrantes entrados no país nos últimos 50 anos, obtinha visto de permanência. Os portugueses estavam isentos destas regras.
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