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A Arte dos Séculos XVII e XVIII

A arte maneirista de meados do século XVI, contemporânea da fase final da arte renascentista, prolongou-se até ao século XVII, altura em que atingiu a sua maturidade. Este estilo, nascido em Itália, marcou a transição da linguagem renascentista para uma nova estética reinterpretativa do classicismo, refletindo uma conjuntura de mudança social, política e religiosa.
Se o Renascimento fora a época do otimismo e da crença nas capacidades do Homem, o Maneirismo foi a época das inquietações. Em meados do século XVI as certezas do Renascimento vão ser abaladas pelo rebentamento de conflitos de variada ordem: Martinho Lutero desencadeia o movimento protestante; as tropas espanholas e francesas invadem a Itália; a cidade de Roma é saqueada pelas tropas de Carlos V em 1527; os turcos assediam a Europa oriental; dá-se a revolução heliocêntrica de Copérnico; as atividades comerciais desenvolvem-se à escala do mundo.
O Maneirismo é um movimento de elites, pois as obras de arte são pensadas e produzidas para o consumo e desfruto particular dos mais cultos e mais abastados, atraídos pelo colecionismo emergente.
É também um movimento artístico academista. O pintor e escritor florentino Vasari inaugurou a primeira Academia teórica, na cidade de Florença, onde se ensinam e se discutem as disciplinas artísticas de arquitetura, pintura e estética.
Este estilo, prenunciado nos trabalhos de artistas renascentistas como Michelangelo Buonarroti, Rafael Sanzio e Leonardo da Vinci, caracteriza-se sumariamente por um intencional desequilíbrio compositivo, pela utilização de cores ácidas na pintura e pelo gosto das posições afetadas ou artificiais e pelas formas alongadas.
Bramante e Rafael são os teóricos da arquitetura, que partem deste revigorado classicismo para dar origem a uma nova estética saída da reforma religiosa, do saque de Roma e de uma profunda crise que abalou os conteúdos programáticos clássicos. A arquitetura maneirista propõe uma reinterpretação do vocabulário clássico com maior liberdade, recorrendo ao jogo de volumes e de contrastes, destacando algumas partes dos edifícios e utilizando elementos estruturais como decoração e aspetos decorativos originais.
Michelangelo Buonarroti foi o artista revolucionador em obras como a Biblioteca Laurenziana de Florença e a Basílica de S. Pedro de Roma, onde construiu uma inovadora cúpula. Outro nome essencial da arquitetura maneirista é Vignola, autor de tratados de arquitetura e da Igreja de Gesú em Roma, a sede da congregação religiosa criada por Santo Inácio de Loyola (Companhia de Jesus), que se tornou o protótipo das igrejas jesuítas. Esta igreja é de facto muito importante pois ela responde às novas exigências da Contrarreforma, apresentando uma nave larga rodeada de capelas intercomunicantes e com um púlpito para acolher e melhor servir um grande número de fiéis. Curiosamente a fachada não é da autoria de Vignola, mas de Giacomo della Porta.
Outras figuras não menos importantes são Serlio e Andrea Palladio, um intelectual com uma forte influência no resto da Europa.
A escultura maneirista não põe de parte o naturalismo tão apreciado pelo Renascimento, mas procura novos caminhos recorrendo a formas alongadas e "afetadas" e posições complicadas como "serpentinata". Num período difícil para a Igreja católica, os motivos religiosos são substituídos por uma escultura mitológica de tipo erótico. Este tipo de escultura apareceu com Michelangelo e tornou-se conhecida através de Benvenuto Cellini e Giambologna.
O introdutor do Maneirismo na pintura foi Michelangelo, nomeadamente através do Juízo Final da capela sistina. O Maneirismo na pintura manifesta-se pela utilização de perspetivas oblíquas, pelo desequilíbrio compositivo, pelos jogos de cores ácidas e pelo movimento. Em Itália destacaram-se Andrea del Sarto e os seus discípulos florentinos; o retratista Bronzino; Correggio, da escola de Parma; Veronese; Tintoretto, da escola de Veneza; e Giulio Romano e Sebastiano del Piombo, de Roma.
No resto da Europa, os grandes pintores que adotaram este estilo foram por exemplo Brueghel na Flandres, Matias Grünewald, na Alemanha, e El Greco, em Espanha.
Em Portugal uma das correntes maneiristas bebeu da fonte dos tratadistas italianos, sobretudo de Serlio e Palladio. No nosso país praticava-se a "arte romana" tanto nas realizações maneiristas como renascentistas. Casos excecionais são o claustro do Convento de Cristo de Tomar, de Diogo de Torralva, e a capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos, de Jerónimo de Ruão. Numa corrente de teor mais nacional encontramos mestres de formação nacional, que edificam igrejas-salão, inspiradas nos Jerónimos, como a Sé de Portalegre.
Paralelamente à corrente italiana e à nacional, há uma terceira corrente que segue o modelo da igreja del Gesú de Vignola e reproduz as igrejas jesuítas feitas à medida das necessidades e possibilidades adequadas a cada caso - templo do Espírito Santo em Évora, de Manuel Pires, a igreja de S. Roque, em Lisboa, e a Sé de Leiria, de Afonso Álvares.
A corrente inspirada no decorativismo flamengo é minoritária, mas podemos encontrá-la na igreja de Nossa Senhora da Luz, em Lisboa, de Jerónimo de Ruão, e na reedificação da igreja de S. Vicente de Fora, ordenada por Filipe II e dirigida por Baltasar Álvares. Na escultura destacou-se Filipe de Hodarte e na pintura Gregório Lopes, Garcia Fernandes e Gaspar Dias, entre outros. Francisco de Holanda, um teórico amante da cultura clássica, esteve em Itália, onde terá contactado com Michelangelo, deixou-nos um álbum de desenhos De Aetatis Mundi Imagines, oferecido a Filipe II.
O Barroco também surgiu no fim do século XVI, mas a sua vida foi bem mais longa do que a do Maneirismo, uma vez que se manteve até ao século XVIII. Se incluirmos o Rocaille ou Rococó, o Barroco é uma fase artística da Europa ocidental, que se estende do século XVI ao início do Neoclassicismo do último quartel do século XVIII.
É o estilo emblemático do Antigo Regime e da Arte da segunda Contrarreforma, que reflete um tipo social muito característico e um espírito ao mesmo tempo de misticismo e de paixão.
Esta arte exprimiu-se através da exaltação do movimento, da materialização da emoção e do êxtase, da sensualidade das formas, da monumentalidade cenográfica, do exagero ornamental propositado e do jogo de contrastes intensos: sombra/luz; massas/vazio; curvas/contracurvas e côncavos/convexos.
O Barroco é o reflexo de uma sociedade cortesã em mutação e do regime absolutista, numa Europa assolada por conflitos religiosos e vivendo num clima de pesado misticismo e de uma revigorada religiosidade saída da reforma tridentina do catolicismo.
O Palácio de Versalhes, que acolhia a famosa corte de Luís XIV, o "Rei Sol" de França, é a imagem simbólica do regime absolutista. É uma das construções emblemáticas do Barroco, pelo menos em termos de arquitetura civil, pois nela estão condensadas algumas das suas principais características, sendo bem vivo o espírito que preside a este género artístico. Versalhes é um luxuoso palácio, que enfatiza a monumentalidade de uma construção excessivamente decorada, e dotada de magníficos jardins, produzida para dignificar e prestigiar o seu promotor e proporcionar conforto e prazer àqueles que dele usufruíam. O convento/palácio de Mafra, de Ludovice, foi criado para copiar, à escala nacional, o palácio francês. Foi patrocinado por D. João V, um monarca que investiu parte das riquezas coloniais brasileiras em obras de arte ao estilo barroco, com o objetivo de engrandecer a nação e a sua governação.
A arquitetura barroca dá um novo significado à tradição clássica, rejeitando a simetria e as proporções matemáticas substituídas por relações livres das dimensões. As linhas retas do Maneirismo são preteridas relativamente às linhas curvas e a sobriedade ornamental é superada por um exagero de decoração.
Bernini, o arquiteto italiano que projetou a colunata de S. Pedro na cidade do Vaticano, é um dos expoentes máximos da arquitetura barroca, que, como facilmente se constata, teve uma grande projeção internacional.
Em Portugal, onde a influência do estilo "Chão" (Plain Style), isto é, do Maneirismo, foi muito forte, são de certo modo raros os edifícios em que o movimento e as massas arquitetónicas exteriores correspondem à estrutura interna, como é característico da pura arquitetura barroca. São usados com intenções decorativas, mas a escultura pode ter a função arquitetural.
Nicolau Nasoni, um pintor ilusionista chamado ao nosso país para trabalhar na decoração pictórica da Sé portuense, veio a revelar-se um dos principais introdutores deste estilo em Portugal, atuando primordialmente na Região Norte, na cidade do Porto. Naquele núcleo urbano riscou várias igrejas e palácios, entre os quais se destacam o Palácio do Freixo e o de S. João Novo, as igrejas da Misericórdia na Rua das Flores e a igreja e torre dos Clérigos, um conjunto que se assume como o ex-líbris da cidade.
A escultura barroca vive das formas exuberantes e muito movimentadas; Bernini também se notabilizou nesta disciplina artística ao produzir uma das obras escultóricas mais significativas deste estilo: o "Êxtase de Santa Teresa de Ávila", uma obra da piedade religiosa, onde a figura esculpida apresenta uma notável expressividade.
A pintura barroca tem como temas principais as naturezas-mortas, também conhecidas por bodegon, cenas da vida familiar e paisagens pitorescas. Normalmente são representadas muitas personagens, captadas em ações movimentadas e irracionais. Em Espanha, destacam-se os trabalhos de Velasquez, Ribera e Murillo. Na Flandres, o grande mestre da pintura barroca foi indubitavelmente Rubens e na Holanda foi Rembrandt. Na Itália, Caravaggio, o "pintor maldito" que vivia no submundo perseguido pela lei, produzia quadros revolucionários, quer pela técnica, quer pelo tratamento dado às personagens. Os seus trabalhos caracterizam-se pela utilização magistral da técnica do claro-escuro, isto é, o jogo de contrastes entre zonas de sombra e zonas de luz, e pela seleção e representação das suas personagens. Os modelos escolhidos para retratar cenas religiosas ou mitológicas eram encontrados entre a populaça mas, muitas vezes, também recorria ao autorretrato.
A arte barroca entrou em decadência com a própria decadência do Antigo Regime, e a um estilo faustoso e exuberante sucede um estilo mais comedido e racional, que pretendia voltar às formas classicistas, puras e equilibradas, recuperadas do Renascimento. A uma época de excessos, o Neoclassicismo respondeu com uma arte mais serena e mais sóbria.

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