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complexo de castração

Em psicanálise, o conceito de "castração" não corresponde à aceção habitual de mutilação dos órgãos sexuais masculinos, mas designa uma experiência psíquica completa, inconscientemente vivida pela criança por volta dos 5 anos de idade, e decisiva para a realização da sua futura identidade sexual. O complexo de castração não se reduz a um simples momento cronológico na sexualidade infantil. Pelo contrário, a experiência inconsciente da castração é incessantemente renovada ao longo de toda a existência e particularmente em jogo na cura analítica do paciente adulto.
O complexo de castração compõe, juntamente com o complexo de Édipo, a base onde a estrutura dos desejos que funda e institui o sujeito na sua relação com o mundo opera a sua subjetividade. Reconhecer que os limites do corpo estão aquém dos seus desejos é admitir a quebra de um certo sentimento de omnipotência que o eu insiste em sustentar, na nossa relação imaginária com o outro.
Constituir-se sujeito desejante, na sua origem, através da ameaça da castração para o menino e da inveja do pénis para a menina é fincar os pés na existência tendo-a marcada pelo trauma que recalca o desejo incestuoso do objeto para sempre perdido, a mãe (função materna). É o peso do processo civilizacional, a atuar através da estrutura edípica, que impõe ao sujeito humano o recalque das suas pulsões, constituindo-o como sujeito.
O complexo de castração, tal como o de Édipo, opera nas escolhas objetais até o fim da nossa existência. É através da fantasia inconsciente de castração que o complexo encontra a sua principal via para estruturar o sujeito. É no terror da angústia inconsciente de castração que habita a génese das manifestações neuróticas. Medos, fobias e sintomas diversos, que surgem no plano consciente, são apenas mecanismos de defesa contra a emergência desta angústia que nos é insuportável.
Freud constatou que a criança ao observar a mãe nua, ao invés de ver ali os órgãos sexuais da mulher, interpreta a vagina como falta. A mãe é vista como castrada.
Portanto, os sexos diferenciam-se segundo a perceção da presença ou ausência do pénis. Assim, o sexo feminino é interpretado com sendo castrado.
Freud conclui, então, que na relação mãe-filho, o complexo de Édipo faz intervir um terceiro termo, que ele denomina de função paterna. Esta está intimamente relacionada à lei. Logo, perceber a mãe como castrada significa reconhecer a castração do outro. Significa reconhecer que ela é um ser limitado, ou seja, um ser submetido à lei.
O menino, por conta da ameaça da castração, e, por medo de perder o seu pénis, o que implicaria numa perda da integridade narcísica, terá que renunciar à mãe. No que diz respeito à menina, o reconhecimento de que à mãe falta o pénis, isto é, de que ela é privada do phalo, faz com que a menina entre no Édipo e, assim, volte-se para o pai.
Ambos, portanto, menina e menino, ao reconhecerem a falta na mãe passam a ter a falta inscrita no seu próprio ser. Reconhecer a castração significa situar-se em relação à própria ordem simbólica, da qual o phalo é a pedra fundamental. Do ponto de vista da psicanálise, no entanto, para que se possa desejar é necessário que haja falta. Assim, poder-se-á afirmar que só há desejo se houver castração.

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