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Crianças maltratadas







Crianças maltratadas
Aos 4 anos foi retirado da sua família e colocado numa outra de acolhimento, onde, segundo as últimas informações obtidas, também é vitima de violência familiar. Quando confrontado com esta questão, o José negou insistentemente que fosse alvo de maus tratos...







O José Pedro tem 13 anos e frequenta o 5.º ano de escolaridade pela terceira vez. Até aos 4 anos viveu no seio da família biológica tendo sido alvo de grande negligência. O estado de desnutrição e o atraso de crescimento que apresentava quando deixou a família de origem é prova inequívoca do abandono a que foi votado. Aos 4 anos foi retirado da sua família e colocado numa outra de acolhimento, onde, segundo as últimas informações obtidas, também é vitima de violência familiar. Quando confrontado com esta questão, o José negou insistentemente que fosse alvo de maus tratos e demonstrou um receio enorme face à hipótese de vir a ser integrado numa instituição.
Este jovem manifesta hoje uma profunda incapacidade de estabelecer relações afetivas seguras, mantendo uma atitude de desafio e oposição constante face aos adultos. O José tem também grande dificuldade em estabelecer relações positivas com os colegas, isolando-se frequentemente.Esta é uma história verídica, que acompanho há já alguns anos... infelizmente histórias como esta não são tão pouco habituais como isso e todos os que contactam com a estrutura escolar sabem-no bem!
O ser humano logo que nasce tem necessidade de estabelecer vínculos emocionais com aqueles que cuidam dele, sendo o contexto emocional que envolve o recém-nascido muito importante para o desenvolvimento da identidade humana e do auto-conhecimento. As experiências relacionais da infância afetam a capacidade de estabelecer relações afetivas na idade adulta.
À semelhança de muitas crianças maltratadas, o José apresenta sintomatologia depressiva, sentimentos de tristeza, tendência para permanecer isolado, grande insegurança, baixa autoestima e uma perceção mais negativa de si próprio comparativamente com outros jovens.
A imprevisibilidade e a negligência nos cuidados parentais, segundo Bowlby, têm também implicações negativas no desenvolvimento da personalidade.
Apesar dos maus tratos sofridos nos primeiros anos de vida terem efeitos mais nefastos no desenvolvimento, relativamente a outros fatores adversos, e do abuso precoce ser muito marcante em termos desenvolvimentais, o José Pedro poderia vir a desenvolver uma trajetória adaptativa em resultado de processos e experiências subsequentes. A sua colocação num contexto familiar diferente poderia ter sido o momento-chave para quebrar o ciclo da adversidade. Tal não aconteceu devido às características da família que o acolheu.
A escola também poderia ter funcionado como um fator protetor, pois o José tem tido o apoio de vários elementos da comunidade educativa, nomeadamente de vários auxiliares de ação educativa. Apesar de todas estas figuras que potencialmente o poderiam apoiar, este adolescente não consegue estabelecer relações afetivas seguras, assumindo uma atitude de constante desafio, mesmo com as pessoas que o procuram apoiar. A sua capacidade para estabelecer relações afetivas seguras parece estar completamente perturbada. O José apresenta também uma grande dificuldade em exprimir os seus pensamentos e sentimentos, em partilhar com os outros as suas dificuldades e em procurar conforto e ajuda.
Esta reflexão aplica-se a muitas outras crianças e jovens maltratados. Alguns deles conseguem vencer o ciclo da adversidade, outros vivem entregues à incapacidade de estabelecer relações afetivas promotoras de mudança.
Apesar de todo o esforço desenvolvido para apoiar este adolescente, sinto que tenho travado uma luta em parte condenada ao fracasso.






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