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Cultura, Filosofia e Ciência Muçulmanas na Península Ibérica

A partir do século VIII (711) os Muçulmanos - árabes e berberes do Norte de África - estabeleceram-se na Península Ibérica e, inevitavelmente, exerceram uma influência cultural importantíssima que iria ter reflexos durante um longo período. Em muito maior número, suplantaram rapidamente os Visigodos, que habitavam este território a sul do Mondego e mesmo entre este rio e o Douro.
O seu avanço como civilização mede-se através do uso de palavras árabes, das quais o português se apropriou, e que são, na sua maioria, termos técnicos ou científicos. No entanto, saliente-se que a influência do árabe na língua portuguesa não foi além dos substantivos e nunca chegou a transformá-la na sua estrutura, que permaneceu sempre latina. A litoralidade de Portugal preservou muitos dos arcaísmos da linguagem denotando uma impermeabilização, o que já não aconteceu com o castelhano, que incluiu muito mais vocábulos árabes. Este fenómeno deve-se a uma maior exposição a influências da cultura islâmica, cuja maior expressão se verifica na Lusitânia oriental e na Bética.
O árabe, uma das maiores formas da expressão da cultura muçulmana, resistiu muito bem à adulteração que a proximidade com outras línguas provocava. Os fatores da resistência teriam sido o permanente contacto com os centros de cultura islâmica, com o seu livro sagrado, o Corão, lido quotidianamente, e com a cultura veiculada pelas escolas. Numa primeira fase, o latim, como língua oficial da Igreja e da administração, também não manifestou grande permeabilidade à influência do árabe e só raramente aparecem vocábulos que evocam essa proximidade de culturas. Lentamente, o latim ia sendo relegado para segundo plano devido ao desinteresse dos jovens. O clero assegurava a sua progressão com dificuldade e os romances continuaram a ser o modo de expressão dos cristãos sem terem sofrido adulteração significativa.
Durante parte do século X e, em grande medida, durante o século XI, o árabe afirmou-se e implantou-se como língua culta, destronando o latim. Este cedeu terreno ao árabe clássico, que se difundiu pela elite culta. O árabe, que se falava entre os funcionários e o povo em geral, sofreu a introdução de vocábulos acusando uma certa romanização.
Como já se afirmou, um dos pilares da cultura muçulmana foi o ensino. O ensino das crianças poderia fazer-se em casa sob a supervisão de um mestre ou então nas escolas públicas. Era nesta fase que se aprendia a ler, a escrever e a recitar o Corão. A continuidade dos estudos dependia de fatores económicos: o jovem mais abastado podia estudar em casa com os mestres; os restantes participavam nos cursos que decorriam nas mesquitas. Era nesta altura que se instruíam com disciplinas essencialmente vocacionadas para a religião, a filosofia, o direito e a língua. Naturalmente que o peso recaía sobre as matérias de índole religiosa. O ensino assim estruturado era coadjuvado com a existência de bibliotecas, que assumiam uma especial magnitude nas cidades e vilas mais importantes.
Depreende-se, imediatamente, que a cultura muçulmana assentava essencialmente numa forte componente religiosa cuja pedra de toque era a mensagem presente no Corão. O apego ao islamismo e o trabalho constante de leitura e interpretação do livro sagrado permitiram uma maior amplitude na análise filosófica e teológica. A conjugação com as constantes deslocações através de um vasto território, efetuadas por comerciantes e viajantes, provocou uma difusão e uma partilha do pensamento, da arte e das técnicas. Paralelamente ao ensino ministrado nas escolas, às discussões públicas sobre os mais variados assuntos e à transmissão de experiências através de contactos, também a corte desempenhou um papel importantíssimo na difusão do saber, pois albergava no seu seio um sem-número de sábios e artistas que, apoiados pelo soberano, difundiam um saber de elite.
A herança de testemunhos arquitetónicos permite avaliar a organização do culto através da proliferação de mesquitas que, variando no tamanho, se implantaram em todas as cidades e vilas de certa importância. Abriam-se em franco diálogo com o exterior e com a vida urbana, e tinham uma implantação privilegiada no centro da cidade. A par destas construções de maior importância, existiam também pequenas "mesquitas" que seguiam o modelo das maiores como, por exemplo, a de Córdova ou a de Sevilha. As mesquitas compunham-se essencialmente de um espaço quadrangular - a sala de colunas com o indispensável mihrab, direcionador do edifício e do crente para Meca, o pátio, o chafariz para as abluções rituais e um pequeno minarete, que se elevava em altura e ganhava importância nas mesquitas maiores, onde o muezzim chamava os crentes ao culto.
Para além das diferenças relativamente à disposição e estrutura dos edifícios em comparação com os edifícios cristãos, há também uma demarcação e uma diferença nítida na abordagem dos cultos, nomeadamente no culto da morte. Os mortos eram enterrados fora do perímetro das cidades, envoltos num sudário, sem qualquer despojo, diretamente em contacto com a terra e numa posição de decúbito lateral, com o rosto voltado para Meca. Trata-se de um ritual completamente distinto do ritual cristão.
Apesar de professarem outro tipo de religião, os Muçulmanos toleravam o culto cristão. Ainda assim, há relatos de martírios e perseguições levados a cabo contra os cristãos, datando do século IX. Mantiveram a organização eclesiástica cristã com a conservação das dioceses e das paróquias, bem patente pela vigência de antigos oragos. Não se abandonaram cultos que já vinham de épocas anteriores, como é o caso da peregrinação de homenagem às relíquias de S. Vicente. Os muçulmanos também conviviam e toleravam os seguidores de outras religiões, já que nas suas cidades também viviam judeus, protegidos pelos próprios muçulmanos, com quem partilham os locais e rotas de comércio. Segundo Cláudio Torres, a implantação do islamismo foi lenta e gradual e não uma imposição religiosa rápida à custa de razias e massacres perpetrados pelos exércitos árabes, sírios e berberes. Só nos finais do século X a comunidade muçulmana se tornou numericamente expressiva.
Perante este quadro desenvolveu-se a teologia e a filosofia. Alguns dos mais célebres teólogos muçulmanos viveram no território português. Podem-se apontar, entre estes, os teólogos Ibrahim ibn Harun al-Zahid e Abu 'Amr ibn 'Abd al-Barr de origem cordovesa, este último implantado em Lisboa nos séculos X e XI e Yahya ibn Ahmad ibn Wuhaibi, sevilhano, do século XI, responsável pela escola corânica em Silves. Naturalmente que também no território andaluz há teólogos originários do ocidente da Península, nomeadamente em Sevilha, como são os casos de Abu 'Abd 'Allah ibn Zaid al-Yaburi, originário de Évora, e do poeta e teólogo Abu-I Walid al-Baji, de Beja, que desempenhou uma atividade importante de combate à heresia zahirista em Maiorca. Entre os filósofos destaca-se a figura de Abu Muhammad 'Abd Allah ibn Muhammad ibn al-Sid al-Batalyawsi, da segunda metade do século XI, originário de Silves, que elaborou o Livro dos Círculos, obra de carácter filosófico e teológico.
Estes homens eram portadores de um extenso saber distribuído por várias áreas como a teologia, a gramática, a história, a filosofia e o direito, e não era raro que uma só pessoa congregasse os diferentes saberes. A poesia, extremamente elaborada e muito original, teve um destaque muito importante no panorama literário do Ocidente, cujos polos principais foram Silves, Évora, Santarém e Lisboa. Além da poesia, os Muçulmanos mostravam também grande aptidão para a música, conforme transparece da terminologia ligada a instrumentos musicais que chegou aos nossos dias.
No que diz respeito aos costumes, a crítica feita pelos teólogos e ascéticos deixa-nos a sensação de uma grande liberdade e de um grande contraste com as regras de conduta dos cristãos, por exemplo, em relação à liberdade sexual.
Relativamente às manifestações artísticas, o ocidente peninsular não é muito fértil. Face à região da Andaluzia e mais precisamente a Córdova, o ocidente peninsular constituiu um território sem importância excessiva, permanecendo uma mera província marginal às grandes realizações artísticas que iam ocorrendo. Esta escassez de edifícios e objetos agravou-se com a ação substituidora levada a cabo pelos cristãos, destruindo intencionalmente a maior parte dos testemunhos da presença islâmica no nosso território. Destes testemunhos subsistem em maior quantidade capitéis, que atestam o valor escultórico da arte islâmica.
Ilustrativa deste facto é a constatação e implantação de mesquitas em todas as cidades e vilas importantes e que, posteriormente, foram transformadas em igrejas ou, no caso das mesquitas maiores, convertidas em catedrais, como aconteceu em Coimbra, Lisboa, Évora e Silves. Transformava-se o quadrado da área da mesquita numa planta de cruz latina, acrescentando ou retirando materiais, adaptava-se o mihrab, o minarete transformava-se em torre sineira, destruíam-se as decorações árabes, adaptava-se tudo, o que implicava por vezes elevadas despesas. Na sequência de todas as adaptações, que a foram descaracterizando, tornou-se difícil muitas vezes a perceção daquilo que fazia parte da antiga mesquita. Em Portugal, o único caso em que se identifica imediatamente o espaço do edifício muçulmano é a igreja matriz de Mértola. Aqui foram conservadas a planta quadrada, as colunas, as portas com os arcos em ferradura e o mihrab.

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