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discurso direto/ indireto/ indireto livre

Discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre são três conceitos clássicos, amplamente estudados pela gramática tradicional, que designam três modos de reportar ou citar um ato de enunciação. Segue-se uma descrição sucinta de cada um dos processos.

Discurso Direto: processo de citação de uma voz que é introduzido por um verbo declarativo (como: <dizer, afirmar, declarar, responder, confessar, indagar, continuar, replicar, perguntar>, etc.) e assinalado graficamente por dois pontos seguidos de mudança de linha e de um travessão para marcar que se trata de outra fala, como no exemplo seguinte:

"Virgília ouvia-me calada; depois disse:
- Não escaparíamos talvez; ele iria ter comigo e matava-me do mesmo modo."
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

Existem outras possibilidades gráficas de marcar o discurso direto, como o uso de aspas, o uso do travessão ou até a colocação do enunciado entre vírgulas, seguido de um verbo declarativo.

"- Quer comprar alguma coisa? disse ela estendendo-me a mão."
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

"(...) oito dias depois, como se eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (Act., IX, 17) «Levanta-te, e entra na cidade»."
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

O discurso direto é uma operação que confere ao discurso a vivacidade e naturalidade típicas da oralidade, pelo recurso a interjeições, exclamações, vocativos e interrogações diretas, entre muitos outros elementos.

Discurso Indireto: processo enunciativo em que um locutor incorpora outra voz diferente da sua, a voz de um enunciador. Em literatura, pode dizer-se que é um processo em que o narrador incorpora a voz de uma personagem. As falas do enunciador são também introduzidas por um verbo declarativo, só que aparecem sob a forma de uma frase completiva, como no exemplo seguinte:

"Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias que ela escutou sem dizer nada."
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

O discurso indireto implica uma transposição ao nível da dêixis pessoal, temporal e espacial que está bem documentada nas gramáticas escolares e prescritivas. Seguem-se alguns exemplos desta transposição:

< Pronomes pessoais, possessivos e demonstrativos na 1.ª e 2.ª pessoas gramaticais no discurso direto passam à 3.ª pessoa no discurso indireto;
< Verbos no Presente no discurso direto passam a Pretérito Imperfeito no discurso indireto;
< Verbos no Pretérito Perfeito no discurso direto passam a Pretérito Mais-que-Perfeito no discurso indireto;
< Verbos no Imperativo no discurso direto passam a Conjuntivo no discurso indireto;
< Advérbio de lugar <aqui no discurso direto passa a <ali no discurso indireto

Discurso Indireto Livre: Operação enunciativa, corrente apenas na literatura mais recente, em que a voz do narrador e a voz do personagem se confundem, sendo uma espécie de interseção entre o discurso direto e o discurso indireto. Trata-se do ato de enunciação mais difícil de analisar em termos tradicionais, sendo por isso um tipo de enunciação muito estudado em análise do discurso, que o integra num tipo de discurso relatado. Tradicionalmente, apresentam-se as seguintes características: é um enunciado livre de subordinação sintática, não possuindo, portanto, as conjunções integrantes típicas do discurso indireto, o que permite aproximá-lo do discurso direto, mas apresenta transposições ao nível da dêixis pessoa, temporal e espacial que são típicas do discurso indireto. Veja-se o seguinte exemplo:

"O marquês e D. Diogo, sentados no mesmo sofá, um com a sua chazada de inválido, outro com um copo de St. Emilion, a que aspirava o bouquet, falavam também de Gambetta. O marquês gostava de Gambetta: fora o único que durante a guerra mostrara ventas de homem; lá que tivesse «comido» ou que «quisesse comer» como diziam – não sabia nem lhe importava. Mas era teso! E o Sr. Grevy também lhe parecia um cidadão sério, ótimo para chefe de Estado..."

Eça de Queirós, Os Maias

Estas operações enunciativas conheceram um tratamento especial no quadro da análise do discurso, especificamente à luz do conceito de polifonia, o que conduziu a uma renomeação terminológica. Assim, a reprodução de outras falas passou ser designada por discurso relatado (do francês, discours rapporté), termo que inclui o discurso direto, o discurso indireto, o discurso indireto livre e uma quarta forma, o discurso direto livre, além de outras formas híbridas e fenómenos de modalização, itálico, alusões, citações várias, etc.
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