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Império Carolíngio

A dinastia carolíngia sucedeu na Gália (antigo nome da França) à merovíngia em 751, sendo fundada por Pepino, o Breve, que naquele ano depôs o último merovíngio e se fez eleger rei dos Francos por uma assembleia do seu povo, para além da sagração papal em 754. Esta sagração passou a ser uma norma para todos os reis, unindo, por outro lado, o Papado à nova dinastia. Ambos realizariam a unidade cristã do Ocidente.
O herdeiro de Pepino, seu filho Carlos (ou Carlos Magno), foi o grande artífice desse projeto. Dividindo primeiramente o reino com seu irmão Carlomano, governou sozinho a partir de 771 e até 814, data da sua morte. Rapidamente este jovem monarca se lançou no projeto de expandir o seu reino e paralelamente a Cristandade, animado pelo desejo de restaurar o Império Romano do Ocidente, já que a parte oriental deste se manteve sempre, com sede em Constantinopla. Conquistou a Aquitânia e vastas regiões da Germânia (dominou e cristianizou o último povo pagão independente, os Saxões), atingindo o Elba; submeteu o Norte da Itália (reino lombardo) e a Espanha até ao Ebro, repelindo os sarracenos e estimulando a Reconquista Cristã, apesar da sua derrota em Roncesvalles frente aos muçulmanos; repeliu o avanço dos Ávaros na Hungria. Realizou também a unidade destes domínios em torno da Gália, consolidada no seu coroamento imperial em Roma pelo papa Leão III no Natal de 800.
Ocupando a maior parte do Ocidente, o Império Carolíngio era acima de tudo um império cristão. O seu soberano assumia uma função eminentemente religiosa e estava investido de uma imensa autoridade política, judicial, legislativa e militar, centralizando o governo no seu próprio palácio em Aix-la-Chapelle (Aachen, na Alemanha). Rodeava-se de conselheiros, clérigos ou laicos, alguns de grande prestígio intelectual, como Alcuíno. Não só guerreiro e conquistador, Carlos Magno foi também um homem preocupado com a administração do seu império, no sentido de esta ser o elo de ligação entre os vários povos, para além da fé cristã. Do seu palácio emanava inúmeras capitulares, documentos régios que decretavam leis ou regulamentos ou eram meras circulares administrativas. Instituiu os missi dominici (os "enviados do senhor"), seus homens de confiança enviados regularmente para fiscalizar os funcionários locais (os comtes, na origem dos "condes"), recebendo o apoio dos bispos. A administração local baseava-se nos condados e, em regiões de fronteira, nas marcas (como na Bretanha, Espanha, etc.), governadas por duques, prefeitos ou margraves. Além disto, estava constantemente em viagem pelo seu império.
Paralelamente, Carlos Magno ambicionou a renovação da tradição da cultura antiga esquecida pelos merovíngios, reunindo em seu redor homens sábios como o já citado Alcuíno, Paulo Diacro, Teodulfo e outros. Promulgou a obrigação de cada bispado possuir uma escola e tentou restaurar os estudos, com a criação de escolas palatinas, para além das monásticas ou presbiteriais. Impôs também o uso da escrita dita "carolíngia" (ou "minúscula carolíngia"), cerca de 780. Multiplicou a cópia de livros, principalmente dos Padres da Igreja e dos autores latinos e gregos. Alguns historiadores chamam a este esforço cultural e intelectual renascimento carolíngio, do qual o maior expoente foi o filósofo Scott Erígena.
O Império Carolíngio, na figura do seu fundador, acabou por ser a fusão daquilo que restava da civilização romana com o mundo bárbaro, para além do ponto final no caos originado pelas invasões. Era uma unidade em torno de uma autoridade imperial forte que, juntamente com a do papa, mantinha a ordem na sociedade do tempo, ainda que este esforço não lhe tenha sobrevivido, por demasiada ligação à sua personalidade majestática. Morreu Carlos Magno em 814, entrando o império num declínio crescente com o seu único herdeiro, Luís, o Pio, que deixou vários filhos. À boa maneira franca, Luís dividiu o poder pelos mesmos, que se envolveram em lutas mesmo ainda durante a sua vida, que acabou em 840. A imensidão do império, com os seus particularismos regionais, as invasões normandas, as insuficiências administrativas, as aspirações autonómicas dos condes e o desenvolvimento sem travão do feudalismo ajudaram também ao enfraquecimento da obra deixada por Carlos Magno. O filho mais velho de Luís, Lotário, enfrentou a união dos outros dois - Luís, o Germânico, e Carlos, o Calvo. Assinaram, em 843, o Tratado de Verdun, dividindo o império - que seu pai ainda conseguira manter - em três partes independentes: a Francia ocidental (França), para Carlos; a Francia oriental (ou Germânia, atual Alemanha) para Luís; e a parte central, ou Lotaríngia, para Lotário, que recebeu também o título imperial. Carlos, o Calvo, entre 875 e 877, e depois Carlos, o Gordo, de 884 a 887, com a ajuda da Igreja, tentaram ainda restaurar a antiga unidade carolíngia, sem sucesso todavia, desagregando-se o império em 887. A dinastia continuou, contudo, a governar os reinos derivados do antigo império. Desapareceu na Germânia em 911 e na França em 987, dando aqui lugar aos Capetos.

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