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Neoclassicismo

IntroduçãoArquiteturaArtes Plásticas e DecorativasLiteraturaIntrodução
O Neoclassicismo, também designado por estilo neoclássico, foi uma corrente artística desenvolvida desde o século XVIII até aos inícios do século XIX (aproximadamente entre 1755 a 1830, embora com algumas variações nos diferentes países), resultante da recuperação da gramática formal das artes da antiguidade clássica greco-romana, como a clareza, o equilíbrio e a ordem.
Na segunda metade do século XVIII atingiu-se o esgotamento das possibilidades expressivas e formais dos estilos Barroco e Rococó, acompanhando a crise da própria ordem social que os sustentara. Tal como verificara noutros momentos de crise, o retorno às raízes artísticas da civilização ocidental, a antiguidade greco-romana, parece ser a solução para encontrar a estabilidade e as possibilidades de progresso. Este processo ideológico encontrou apoio no pensamento histórico ilustrado que, através da arqueologia (com as escavações de Herculano, de Pompeia e de Roma) e da história de arte (protagonizada pelo historiador alemão J. J. Winckelmann), permitira a redescoberta da antiguidade.

Arquitetura
A arquitetura neoclássica surgiu em Roma, em meados de setecentos, através da ação teórica e prática de Anton Rafael Mengs (1728-1779) e J. J. Winckelmann (1717-1768), tendo conhecido um significativo desenvolvimento nas cidades de Milão e de Turim, com a atividade de G. Piermarini.
Em França, a construção do Panteão de Paris (também conhecido por Igreja de Sainte Geneviève), projetado por Jacques Germain Soufflot (1713-1780) para o rei Luís XV, representa o momento de imposição da estética racionalista clássica sobre o Barroco decadente. Soufflot desenvolveu outros trabalhos importantes como a coluna de Austerlitz, a Place Vendôme e o Arco do Carroussel, todos em Paris. Outros arquitetos importantes neste período foram J. A. Gabriel (1698-1782) primeiro arquiteto real, autor da Praça da Concórdia (1757) e do Petit Trianon de Versalhes (1762); Charles Percier e Pierre François Fontaine, arquitetos de Napoleão e responsáveis pelo Arco do Triunfo da Étoile, em Paris (1806-1836) e Barthélemy Vignon (1806-42), famoso pelo projeto da Igreja da Madeleine de Paris, construída para comemorar as vitórias de Napoleão.
Étienne-Louis Boullée (1728-99) e Claude Nicholas Ledoux, os arquitetos mais ousados deste período, desenvolveram projetos utópicos e visionários de edifícios gigantescos constituídos por sólidos perfeitos e de grande pureza linguística. Embora pouco tenham construído, a sua influência teórica e pedagógica tornou-os precursores da arquitetura moderna.
Outro país europeu onde o Neoclassicismo teve um grande desenvolvimento foi a Alemanha. A sua gramática severa e simples, fortemente marcada pela arte grega, está bem representada nos trabalhos de Karl Friedrich Schinkel, de Langhans, autor da Porta de Brandeburgo em Berlim, (1788-1791) e de Leo von Klenze, responsável por inúmeros projetos, entre os quais, a Glipoteca, a Pinacoteca e os Propileus de Munique e o templo Walhalla (1830-1842), próximo de Ratisbona.
Em Inglaterra, destaca-se a obra do pioneiro Robert Adam (1728-1792), responsável por algumas importantes escavações arqueológicas em Itália, de W. Chambergs, ou de Sir John Soane (1753-1837), um dos mais originais artistas deste período, autor do Banco de Inglaterra (1796).
O Neoclassicismo em Espanha, desenvolvido desde o último quartel do século XVIII, teve como protagonistas os arquitetos F. Sabatini e J. de Villanueva, responsáveis pelo projeto do Museu do Prado.
Nos Estados Unidos, o Neoclassicismo, conhecido por Estilo Georgiano, inspira-se de forma direta no neo-palladianismo inglês. Dos exemplos mais interessantes desta tendência refiram-se a casa do arquiteto Thomas Jefferson (1743-1826) em Monticello e o Capitólio de Richmond, do mesmo projetista.
Em Portugal, a primeira obra construída dentro do novo estilo foi inteiramente importada de Itália. Trata-se da capela de S. João Batista na igreja de S. Roque de Lisboa, encomendada em 1742, pelo rei D. João V aos arquitetos Salvi e Luigi Vanvitelli. José Costa e Silva (1714-1819), formado em Bolonha, representaria o apogeu nacional deste estilo. Projetou, entre muitos outros edifícios, o Teatro Nacional de S. Carlos (1792) e o Palácio Nacional da Ajuda (este em conjunto com o italiano Fancisco Xavier Fabri), que não chegou a concluir-se.
Em Coimbra salientam-se alguns trabalhos do engenheiro militar Guilherme Elsden, como o edifício do Museu da Universidade, construído entre 1773 e 1774.
No Porto a introdução do estilo neoclássico deve-se à ação dos ingleses residentes nesta cidade, o que explica a enorme influência da tendência palladiana, presente nomedamente no Hospital de Santo António, projetado pelo inglês Jonh Carr (cerca de 1770), no edifício da Feitoria Inglesa ou no Palácio da Bolsa, de J. da Costa Lima. Um dos expoentes máximos do Neoclassicismo nortenho foi o engenheiro Carlos Amarante (1748-1815), autor de vários edifícios tardo-barrocos e neoclássicos, como a Igreja da Trindade no Porto.

Artes Plásticas e Decorativas
Roma constituiu o núcleo de formação e de divulgação da estética pictórica neoclássica. Alguns trabalhos pioneiros, influenciados pelos trabalhos históricos do alemão Johann Winckelmann, do estilo académico de Nicolas Poussin (1594-1665), da pintura renascentista de Rafael e da estatuária antiga, foram realizados por um conjunto de pintores de inúmeras nacionalidades, de entre os quais se destacaram o alemão Anton Raphael Mengs (1728-1779), o escocês Gavin Hamilton e o americano Benjamin West e o francês Joseph-Marie Vien.
O francês Jacques-Louis David (1748-1825), discípulo de Vien e estudante em Roma entre 1755 e 1781, representou o ponto máximo da pintura neoclássica. O quadro "Julgamento dos Horácios", executado em 1784, revela alguns dos elementos fundamentais da sua gramática, como a frieza e rigidez das figuras, a clareza da solução compositiva ou a suavidade do cromatismo.
No contexto artístico francês, onde a pintura neoclássica conheceu um vasto desenvolvimento, muitos outros artistas alcançaram um alto nível de qualidade estética. Entre estes refiram-se Jean-Baptiste Greuze (1723-1805), Jean Gros (1771-1835), principal artista de Napoleão, e Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867), discípulo de David e um dos precursores do gosto exótico romântico.
A pintura neoclássica espanhola revela uma dupla inspiração: a obra de Mengs, que marcou gande parte dos artista da escola madrilena de finais do século XVIII, e a de J. L. David, representada na pintura de José de Madrazo e José Aparicio.
Em Portugal, a pintura neoclássica teve como expoentes máximos dois artistas formados em Roma: Francisco Vieira Portuense (1765-1805), e Domingos António de Sequeira (1768-1837).
Tal como se verificou ao nível da pintura, o principal impulsionador do gosto neoclássico na escultura foi o historiador Winckelmann, durante a sua estada em Roma. A reputação do meio artístico romano atraía artistas oriundos de diversos países, como o sueco John Tobias Sergel e o inglês Thomas Banks, que assumiriam um papel fundamental na divulgação internacional da nova estética.
O italiano Antonio Canova (1757-1822) iniciou a sua produção artística em Roma, na década de quarenta do século XVIII. Desde os seus primeiros trabalhos, Canova denuncia o desejo de recuperação do carácter calmo e puro das formas clássicas, tornando-se quase de imediato no expoente máximo da escultura neoclássica.
Outros escultores importantes deste período foram o dinamarquês Bertel Thorvaldsen (1770-1844), o americano Horatio Greenough (1805-1852) e o francês Jean-Antoine Houdon (1741-1828). Em Portugal, o escultor João José de Aguiar, discípulo de Canova em Roma, realizou importantes trabalhos como as estátuas do Palácio Real da Ajuda, em Lisboa.
Ao nível das artes menores (como o mobiliário, os objetos decorativos e a porcelana, a joalharia e a tapeçaria, entre outras áreas), o estilo neoclássico apresentou uma expressão significativa em França (com os estilos Luís XVI e Império) e em Inglaterra, com os trabalhos de Robert Adam.

Literatura
É um movimento literário que se propõe um regresso ao Classicismo de Quinhentos quanto aos géneros, quanto à forma, quando à linguagem. Duas serão as suas grandes vertentes: uma, a doutrinação estética, consequente do racionalismo presente no Verdadeiro Método de Estudar, que muito deve à Arte Poética de Francisco José Freire (o «Cândido Lusitano»); a outra, a criação literária. Estava, porém, reservada à Arcádia Lusitana, fundada em 1756, a magna tarefa de reação contra os exageros do barroquismo. À sua fundação presidiu o intento de reabilitar o gosto literário e restabelecer o equilíbrio na literatura. As ideias da Arcádia, mais especificadamente de Correia Garção, o grande teórico do Neoclassicismo quer em dissertações quer em textos poéticos documentais, são principalmente estas: segundo Boileau, «nada é belo senão a verdade», por isso, o Neoclassicismo realça a verdade da natureza e a verdade humana; o teatro deve moralizar; logo, também a poesia tem de ser útil; devem imitar-se os antigos, mas com originalidade; deve banir-se a rima e usar-se o verso branco; deve procurar-se o ajustamento do atual e do quotidiano, à sobriedade e pureza dos moldes antigos - e nisto falhou; preconiza o uso da mitologia; tenta renovar o teatro, a poesia (e nesta cultivam, além das espécies que o século XVI restaurara, essencialmente o ditirambo e as odes pindáricas e anacreônticas, o que era anacrónico). Os resultados não corresponderam inteiramente ao plano traçado, talvez pelo cansaço do que era clássico. Na Oração II, Garção põe o dedo na ferida, quando diz: «Aqueles pomposos desígnios de domar o génio da Nação, fazendo que a crítica fosse recebida como conselho não como ofensa, aquela magnífica ideia de banir da Poesia portuguesa o inútil adorno de palavras empoladas, conceitos estudados, frequentes antíteses, metáforas exorbitantes e hipérboles sem modo, introduzindo em nossos versos o delicioso e apetecido ar de nobre simplicidade, foram os dous polos que primeiro perdemos de vista». Insiste sempre no valor construtivo da crítica mas aponta, ainda, a necessidade de "ensinar o que se há de de fazer", o que obrigava a estudo e trabalho. Para ele, o mau gosto que invadira a literatura era a liberdade, a facilidade, o desprezo das regras de Aristóteles, Horácio, Cícero e Quintiliano, quanto à poética e à retórica, a falta de leitura dos clássicos, de pureza de dicção, de harmonia nos versos, de magnificência na fábula, de constância nos caracteres; enfim, a falta de ordem, de pureza e de simplicidade que o Gongorismo arrastara consigo. Era, pois, um movimento desajustado na época, pois caminhava-se cada vez mais para o individualismo na arte que vai caracterizar o Romantismo. Salvaguardem-se alguns toques do quotidiano e da natureza exótica em Garção, a forma como Cruz e Silva observa a riqueza vegetal do Brasil onde situa, entre outras, a metamorfose do Manacá e do Beija-flor, aproveitando a lição de Ovídio nas suas Metamorfoses (Orfeu e Eurídice). Refira-se ainda o poema herói-cómico, o Hissope, possivelmente inspirado por Le Lutrin de Boileau, onde se desvia das limitações que o Neoclassicismo quase impunha. O assunto do poema desenvolve-se num plano regular, com uma certa comicidade, que resulta da imponência com que o autor nos apresenta um assunto tão irrisório, numa linguagem saborosamente irónica e até grosseira - marmanjo, bestial patada - a contrastar com o estilo grandiloquente, próprio do género épico, onde a animização de entidades abstratas (a Lisonja, a Excelência, a Senhoria, a Discórdia...) está ao serviço da crítica e da sátira à futilidade e aos caprichos da moda, à vã filosofia escolástica, à loucura da poesia barroca, à mania filologante, aos lisonjeiros que, em vão, «compõem grandes Ilíadas e tecem / Aos vaidosos magnates, mil sonetos, mil pindáricas odes, epigramas... ». Bocage encostado ainda ao Neoclassicismo pela forma, pelos temas (a aurea mediocritas, o tema das mudanças...) e pela mitologia, afirma um notável avanço para a corrente literária que se anuncia, o Pré-Romantismo.
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