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Uma Família Inglesa

Romance da autoria de Júlio Dinis, inicialmente aparecido em folhetins com o título Uma Família de Ingleses e subintitulado Cenas da Vida do Porto, foi publicado em 1868. Enquanto Camilo retratava o velho mundo da aristocracia fatalista e em decadência, Júlio Dinis aborda um mundo novo em cujo desenvolvimento acredita. No período durante o qual escreveu, entre 1858 e 1870, vivia-se uma fase de acalmia que propiciava o fomento das obras públicas. Todos os valores da burguesia crente no êxito da boa vontade e da iniciativa individual pareciam então catalisadores de progresso. Júlio Dinis emerge deste otimista meio burguês. Ao mesmo tempo, será ele que sustentará a sua obra, através da leitura dos folhetins em que ela é inicialmente publicada e onde se afirma como fulcro de uma fase decisiva da ficção portuguesa - o romance de tema contemporâneo.
António José Saraiva nota que, ao contrário de Eça de Queirós, capaz de analisar objetivamente as instituições que representa nos seus romances, Júlio Dinis identifica-se de tal modo com o meio que representa que parte desde logo, não da realidade, mas de construções ideais. Isto torna-se óbvio em Uma Família Inglesa, se atentarmos na tipificação caricatural da maior parte das personagens ou na idealização extrema de Jenny, «anjo do lar» quase ubíquo da família Whitestone que leva o próprio narrador a referir-se-lhe como «tão celestial que se espera a cada passo vê-la desprender-se da terra e dissipar-se», confiando-lhe o poder de resolver todas as crises, embora não a dote de grande densidade psicológica.
Uma Família Inglesa é um romance exemplar da sua técnica narrativa. A ação evolui nos diversos espaços físicos e sociais portuenses, essencialmente caracterizados pelo meio comercial do Porto, geradores de ambientes e caracterizadores das personagens: o elegante bairro da colónia britânica, residência da família Whitestone; a Rua dos Ingleses, ao tempo o centro da vida comercial e financeira do Porto, onde se situa o escritório de Richard Whitestone, inglês dono de uma grande firma de exportação, e onde trabalha Manuel Quintino, o modesto e obediente guarda-livros, cujos ambientes caseiros o romance nos dá a conhecer; o espaço da boémia, onde se movem Carlos Whitestone, jovem herdeiro da família, e os seus amigos, que inclui o célebre Café Guichard e o Águia de Ouro, palco da festa de Carnaval onde Carlos se cruza com a mulher misteriosa que virá a ser Cecília; a Foz, escolhida por Jenny e Cecília para local de confidências e desabafos, etc.
O enredo aparentemente sentimental que realiza o velho esquema da Gata Borralheira culminará no casamento de Carlos com Cecília, filha de Manuel Quintino. Contudo, a crise novelesca não envolve apenas o par romântico mas as suas famílias ligadas por uma antiga relação de trabalho. A relação entre Carlos e Cecília consubstancia-se pelas visitas do primeiro à casa da segunda com o objetivo de ser instruído na arte comercial pelo pai desta, vitimado pela doença. Neste percurso se traça a redenção de Carlos, cuja leviandade amorosa e desinteresse pelo mundo do trabalho são assim transformados em empenhamento marital e profissional. O trabalho surge, assim, não só como fonte de riqueza mas também de felicidade familiar e como motor de uma harmonia universal implícita na união de indivíduos de meios sociais muito diferentes. Neste sentido, pode afirmar-se que este romance atinge uma síntese, revelando-se Júlio Dinis capaz de explorar a verosimilhança dos arquétipos inconscientes do seu tempo, não só através da consideração da interioridade das suas personagens principais mas também e sobretudo graças aos polos temáticos em que assenta a sua narrativa: a família e o trabalho.

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