A Invenção do Amor e Outros Poemas

Além de "A Invenção do Amor", um poema de assinalável sucesso na poesia portuguesa de resistência, este volume, publicado em 1961 e da autoria de Daniel Filipe, contém "Canto e Lamentação na Cidade Ocupada" e "Balada para a Trégua Possível". A "Invenção do Amor" parte de uma microestrutura diegética, contando a perseguição movida pela cidade contra dois infratores da ordem e da rotina, dois amantes que, pelo simples facto de se amarem, colocam "em jogo a cidade / o país, a civilização do ocidente". O perigo de contaminação pelo amor reside na capacidade que o amor possui de desencadear a reflexão e a consciencialização sobre a condição humana ("Se um homem de repente interromper as pesquisas / e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão / já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja"), de promover a descoberta de uma existência movida por valores essenciais: "Alguém que os escutou / deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas / E quando foi interrogado em tribunal de Guerra / respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz / Lhe lembravam a infância / Campos verdes floridos / Água simples correndo / A brisa das montanhas." Sob o modelo de Éluard, poeta do amor e do combate, evocado numa epígrafe que abre e fecha o poema, enquanto nota de esperança que espera "au bout du chagrin une fenêtre ouverte / une fenêtre eclairée", a urgência da mensagem reiterada no poema, sob a forma de antífrase, a da urgência do amor, é construída a partir de um discurso fortemente exortativo, apelativo, anafórico, que lança mão de todos os recursos retóricos para conseguir a persuasão dos destinatários. A poesia de "A Invenção do Amor" é, assim, "inevitavelmente retórica, porque não existe na cidade a experiência autêntica do amor que Daniel Filipe se obriga a inventar. E então há que forçar a entoação das palavras, enfatizá-las, repeti-las, numa tentativa de violentar o real e impor nele o projeto do poeta." (ESPADINHA, Francisco - "Nota sobre A Invenção do Amor", in A Invenção do Amor e Outros Poemas, 6.a ed., Lisboa, 1983, p. 14). As duas composições também coligidas neste volume, evocando, em epígrafe, Guillén e Carlos Drummond de Andrade, retomam a temática do amor-libertação, da conceção do amor como instrumento de combate que une o sujeito poético a uma companheira com quem travará uma luta pela humanização da cidade hostil, até que ela se converta em "cidade prometida": "Pelos meninos tristes suburbanos / contra o peso da angústia contra o medo / contra a seta do fogo traiçoeira cravada / em nosso doce coração aberto / lutaremos meu Amor".
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