A Relíquia

Romance de Eça de Queirós, saído em folhetins na Gazeta de Notícias, publicado em 1887, no Porto. A sua epígrafe - "Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia" - tornou-se célebre por sintetizar a aliança entre realismo e imaginação, naturalismo e fantástico, união, aliás, patente na obra e confirmada na "Introdução" (na qual se diz que a realidade vive na obra "ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da História, ora mais livre e saltando sob a caraça vistosa da Farsa").
Da intriga central - a viagem de Teodorico à Terra Santa, de onde traz, não a relíquia que prometera à tia beata, mas sim, por lapso, a camisa de dormir de uma amante - sobressai o sonho ou a viagem no tempo do protagonista que, acompanhado pelo seu erudito amigo Dr. Topsius, assiste à pregação, julgamento e morte de Jesus. A obra, que exalta a figura humana de Cristo, como paradigma de amor e de bondade, foi considerada herética pelos setores mais conservadores, por questionar a divindade de Cristo.
Teodorico Raposo, o narrador, tendo ficado órfão aos sete anos de idade, vê-se obrigado a viver sob tutela de sua riquíssima mas extremamente devota tia, D. Maria do Patrocínio. Querendo herdar tal fortuna, Raposo tudo faz para cair nas boas graças da austera senhora, construindo uma existência dupla. Por um lado, cultiva uma extrema e abnegada prática religiosa ("Ia a matinas, ia a vésperas. Jamais falhei a igreja ou ermida onde se fizesse a adoração ao Sagrado Coração de Jesus. Em todas as exposições do Santíssimo eu lá estava, de rojos. Partilhava sofregamente de todos os desagravos ao Sacramento. Novenas em que eu rezei, contam-se pelos lumes do céu."). Por outro, apesar da pouca energia que o «sentimento religioso» lhe deixa, diverte-se pouco religiosamente com mulheres "de má vida". Satisfeita com o comportamento do sobrinho, que conhece apenas parcialmente, D. Maria do Patrocínio decide encomendar-lhe uma viagem a Jerusalém, onde este deverá substituí-la, rezando como ela rezaria e intercedendo por si e por sua saúde.
Nesta viagem, de que o próprio Teodorico fala num breve prefácio como da "glória superior da minha carreira", acabará por corporizar-se a sua duplicidade existencial através do seu percurso por lugares santos e bordéis e, simbolicamente, através dos dois embrulhos iguais que ele transporta. Enquanto um deles encerra a "santa relíquia", a "relíquia milagrosa" pedida por sua tia - um galho de uma árvore com espinhos que Raposo alega ser a coroa de espinhos de Jesus Cristo, o outro contém uma camisa de dormir, oferecida por uma amante, com a seguinte inscrição: "Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozámos".
O ensaísta Eduardo Lourenço escreveu uma vez que "o universo inteiro (para Eça) está escrito em caracteres femininos", referindo-se à cultura beata e ao "cristianismo de sacristia e de alcova" que caracteriza a educação que algumas das personagens femininas de Eça, na esteira de grande parte das mulheres portuguesas do século XIX, dão aos seus descendentes. Mas podemos dizer que o universo de Raposo está escrito em caracteres femininos, não só porque a sua existência é desde o início marcada por estes valores por influência feminina de sua tia, mas também porque, também desde o início, nos lugares por que ele passa são as mulheres que, através do seu olhar, nós vemos em primeiro lugar: no universo, Teodorico lê primeiro os caracteres femininos.
É como se, em Teodorico, o excesso e a ostentação da prática religiosa o tivessem conduzido erroneamente a procurar na vida o que não encontra na religião e vice-versa. Através do seu pensamento, assistimos ao deslocamento dos valores cristãos: o culto que deveria ser prestado a Cristo é transferido para o corpo feminino. Há como que uma confusão entre o sagrado e o feminino: Teodorico deseja e visualiza corpos femininos no oratório de sua tia, substituindo o corpo crucificado de Cristo: "À noite, depois do chá, refugiava-me no oratório, como numa fortaleza de santidade, embebia os meus olhos no corpo de ouro de Jesus, pregado na sua linda cruz de pau-preto. Mas então o brilho fulvo do metal precioso ia, pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva cor de carne, quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os ossos, arredondava-se em formas divinamente cheias e belas; por entre a coroa de espinhos, desenrolavam-se lascivos anéis de cabelos crespos e negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se rijos, direitos, dois esplêndidos seios de mulher, com um botãozinho de rosa na ponta".
É neste contexto que a sátira denuncia a efemeridade do amor humano. Em face das traições que povoam a sua vida amorosa, Teodorico não pode deixar de sentir a nostalgia de um amor «divino» no qual se misturassem os valores pouco efémeros do Cristianismo: "Rompeu-me então na alma a fulgurante esperança de um amor de monja mais forte que o medo de Deus, de um seio magoado pela estamenha de penitência caindo, todo a tremer e vencido, entre os meus braços valentes!...". A educação e a prática cristã tinham sido demasiado fortes para lhe permitirem escapar ileso.
De resto, num dos passos mais longos do romance, aquele do sonho em que Teodorico se vê regressado à Antiguidade cristã, presenciando o julgamento e crucifixão de Jesus Cristo, assistimos a uma reescrita da história sagrada. No sonho de Teodorico, Jesus Cristo não ressuscita, é apenas retirado do seu sepulcro, sendo Maria Madalena que, não o encontrando nesse local pela manhã do dia seguinte, difunde a crença na sua ressurreição: "E assim o amor de uma mulher muda a face do mundo e dá uma religião mais à humanidade!", conclui Teodorico.
Uma mulher (sua tia) forçara-o a cultivar uma crença criada por outra mulher (Maria Madalena) que outras (as suas ingratas amantes) haviam deslocado e desmentido.
Enquanto Camilo recorre ao sarcasmo e à paródia para exprimir a vanidade do mundo em geral, Eça serve-se da ironia e da sátira, mais subtis e delicadas, como é visível em A Relíquia, narrativa do homem português do século XIX, deformado por via feminina através de uma educação cristã que, para além de não o preparar para as realidades práticas da vida, lhe nega e confunde impulsos básicos, contaminando-o com valores que ele não é capaz de encontrar num mundo onde o amor humano é efémero e o amor divino pouco credível, e parecendo dotá-lo de uma retórica grandiloquente pouco adequada a esse contexto. Trata-se, no fundo, de, mais uma vez, traçar o retrato daquela que, segundo Jacinto do Prado Coelho, é a grande personagem latente da obra de Eça: Portugal.
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