A Sibila

A publicação de A Sibila, obra distinguida com os prémios Delfim Guimarães, em 1953, e Eça de Queirós, no ano seguinte, consagra Agustina Bessa-Luís como nome cimeiro da novelística contemporânea. Em 1963, Eduardo Lourenço chama a atenção para a mutação operada pela Sibila no panorama das letras nacionais, assinalando o ano de 1953 como um marco histórico entre duas épocas literárias: o significado mais profundo dessa obra foi, segundo o autor de O Canto do Signo, "acaso, o de ter de novo imposto um mundo romanesco, insólito, veemente, estritamente pessoal, desarmante e tão profuso e rico, verdadeira floresta da memória, tão povoada e imprevisível como a vida, onde nada é esquecido e tudo transfigurado, mundo grave e inesquecível soberanamente indiferente à querela literária ideológica que durante quinze anos paralisara em grande medida a imaginação nacional. Foi como o sinal, há muito esperado, para a grande aventura que desde então tem removido, como em raras épocas passadas, o subconsciente literário português." (Cf. O Canto do Signo. Existência e Literatura (1957-1993), Lisboa, Presença, 1994, p. 162.) Com efeito a publicação de A Sibila veio resolver, retomando a rutura no universo da narratividade operada por um Raul Brandão ou pela evolução, sob o ascendente do modelo bergsoniano, da narrativa presencista, vários dos impasses em que se enredara a evolução da novelística contemporânea, entre os quais merece destaque a possibilidade de conciliação entre regionalismo e universalismo, ao encontrar na evocação do mundo rural um veio profundo para a análise das relações humanas e da relação do ser com a memória; ou a surpreendente anulação da oposição entre objetividade e subjetividade do narrador, pela intromissão de uma voz, a um tempo, omnipresente, constante, e "alheia a toda a complacência sentimental e como duplicada por uma olhar distanciador" (LOURENÇO, Eduardo, op. cit., p. 161); a conciliação de um sentido social e mítico-trágico na construção das personagens; ou ainda a reformulação dos modos de representação da realidade que, sem ser posta em causa, é subvertida na sua linearidade pelo movimento de evocação que impõe a descontinuidade e um permanente deslize do vivido para o não vivido, do real para o sobrenatural.
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