Abadia de Fontenay

No período românico os monges beneditinos tentaram aproximar-se da simplicidade da basílica paleocristã, que esteve na origem da ecclesia, fugindo da ostentação das outras igrejas do seu tempo. Mas numa altura de grandes tensões entre o papa e o imperador, os seguidores daquele não podiam consentir que as suas construções fossem menos majestosas do que as imperiais.
A terceira igreja abacial de Cluny (1088-1130), centro da ordem Beneditina no norte, fiel ao papa, é exemplificativa de um edifício agrupado românico constituído por: dois transeptos, dois cruzeiros, quatro torres adicionais e um deambulatório.
A grande rutura arquitetónica aconteceu com os monges cistercienses, que se separaram dos beneditinos (1098), devido a divergências relativas a questões de ordem e de administração. A sua religiosidade afastou-se dos interesses mundanos, o que fez com que estes ganhassem, rapidamente, muitos adeptos na Europa. Esta vida de pobreza e ascese também se refletia na arte que espelhava a sua opção espiritual. A arte de Cister não constitui um estilo próprio, mas uma reação de austeridade formal ante os excessos decorativos do românico. A sua arquitetura, difundida nos séculos XII e XIII, coincide temporalmente com o fim da arte românica e o nascimento do estilo gótico, do qual aproveita, com grande pragmatismo, algumas inovações técnicas.
A arquitetura cisterciense, como podemos observar em exemplos paradigmáticos como as abadias de Clarivaux (1115) e a de Fontenay (1139-1147), constrói-se a partir de uma estrutura simples - uma nave fechada por um transepto e coroada por uma abside retangular, sem grande ornamentação nem vitrais.
Para Henri Focillon (Arte do Ocidente) na arte cisterciense houve um período especial, a que se pode chamar Românico ou melhor ainda Românico despojado, que é representado pelo tipo de Fontenay, cuja igreja apresenta uma nave escura coberta por um berço quadrado e as naves laterais com berços transversais. Este exemplo da pureza da arte cisterciense pode encontrar-se noutros pontos da Europa, por exemplo: em Champagne (Trois-Fotaines), na Suíça (Bonmont e Hauterive), na Inglaterra (Fountains) e na Escandinávia (Alvestra).
As regras de vida e arte cistercienses foram sendo liberalizadas, mas a proibição da construção de torres sineiras, por exemplo, manteve-se. Os sinos eram instalados em coruchéus de madeira.
Estes mosteiros cistercienses, deviam satisfazer as necessidades dos monges e dos seus dependentes. Eram "mundos independentes" (Jacques le Goff).
A planta de Fontenay, reconstituída por L. Bégule, mostra uma grande organização e um equilíbrio entre as componentes religiosa e económica. A igreja teria uma cabeceira pouco faustosa, teria a sala do capítulo, aquecimento, lavabos, portaria, padaria, pombal, enfermaria e adega.
A abadia cistercense de Fontenay foi considerada monumento Património Mundial pela UNESCO.
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