Administração Carolíngia

A dinastia Carolíngia, que vem no século VIII substituir a Merovíngia na soberania do Reino Franco, fundada por Pepino, o Breve e celebrizada por Carlos Magno, assume grande importância no contexto espácio-temporal em que se insere, ganhando protagonismo em diversos aspetos marcantes da Idade Média.
Por um lado vai favorecer um processo de reforço da cultura religiosa medieval e um ressurgimento intelectual e artístico, construindo palácios, mosteiros e catedrais, instituindo escolas e estúdios de copistas, salvando assim inúmeras obras de autores clássicos. Chama-se mesmo a esta fase o Renascimento Carolíngio.
O percurso dos Carolíngios torna-se também importante pelo seu carácter expansionista. Já em 751 Pepino, o Breve - pai de Carlos Magno - vai entrar em conflito com os lombardos, conquistando esse território, onde irá criar um Estado Pontifical que se manterá no poder dos papas até 1870. Entra também em guerra contra os Árabes que acaba por expulsar para as terras de Espanha. Em 768, Pepino, o Breve deixa o reino aos seus dois filhos, mas Carlomano viria a morrer em 771 e Carlos Magno assume sozinho o reinado. Dá continuidade à política de conquistas iniciadas por seu pai e em 772 lança-se numa longa guerra contra a Saxónia, que consegue submeter 30 anos mais tarde. Anexa também a Lombardia - que se tinha rebelado pela mão de Desidério, novo rei lombardo - e a Baviera. No Danúbio, Carlos Magno derruba ainda o poderio dos ávares. Nesta fase o Reino Franco atinge um nível de riqueza material e territorial sem precedentes.
Em 800 Carlos Magno é coroado imperador pelo Papa Leão III, em Roma, sendo senhor de um reino que compreende um território de um milhão de quilómetros quadrados e que se estende a leste além do Elba até às terras dos Eslavos; a sudeste até à Eslovénia; a sul até à Espanha; e a oeste até à Bretanha. É o chamado Sacro Império Romano-Germânico.
Este conjunto de fronteiras, tão alargado e longínquo, vai obrigar os Carolíngios a desenvolver três aspetos essenciais para a manutenção da sua integridade territorial: um exército capaz de patrulhar e defender as linhas fronteiriças; uma administração rigorosa, estável e equilibrada; e, por fim, uma capacidade diplomática eficaz e interveniente nos pontos nevrálgicos de poder e de decisão. Assim, grande parte do sucesso dos Carolíngios, sobretudo nos primeiros reinados, deve-se a uma forte e estável aliança com a Igreja de Roma.
Carlos Magno, tal como o imperador de Bizâncio, vai considerar-se imperador da cristandade no Ocidente. Fixa a sua corte em Aix-La-Chapelle, onde vai tentar construir uma cidade à semelhança de Roma e dá início a uma política de intervenção nas questões religiosas e teológicas do seu reino e do Ocidente. Promulga centenas de decretos, legislando sobre a educação, a vida monástica, a gestão do património do reino, a reforma agrícola, bem como as funções do exército e todo o tipo de questões legais.
Carlos, o rei dos Francos, revela-se um governante atento e inteligente, e apesar de se imiscuir nas questões da Igreja não vai permitir que a Igreja se imiscua nas questões do seu Império.
Segundo os interesses de Roma, o Império Carolíngio deveria manter-se uno, facilitando e reforçando o processo de avanço da cristianização na Europa. Segundo a tradição germânica o Império deveria ser dividido em reinos, que apesar de dependentes do imperador têm um soberano próprio. Carlos Magno decide utilizar o sistema tradicional e divide o seu Império em reinos: o da Aquitânia e o de Itália, cuja administração confia aos seus filhos, e o da Baviera, que é entregue ao seu cunhado. Em Aix-La-Chapelle, constitui um quadro administrativo com cerca de 250 oficiais, os condes, bispos e Missi Dominici - homens que percorrem o reino em seu nome - saídos das famílias aristocráticas da Austrásia. Na corte de Aix-La-Chapelle podemos ainda encontrar intelectuais de toda a Europa.
Carlos Magno permanece franco até ao fim da vida, mantendo inclusivamente várias concubinas, mas vai conseguir conciliar a sua personalidade com o título de imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Visita Roma por várias vezes: a primeira em 774, a segunda em 780 e outra ainda em 785. Nele se reúnem as qualidades de guerreiro, cristão, legislador e protetor da arte e da cultura.
Nesta fase da dinastia Carolíngia é conseguido um equilíbrio notável entre os interesses do imperador e os interesses do Papa. São mantidas as tradições do Sacro Império e a unidade de grande parte do Ocidente, fundindo-se as culturas germânica, romana e cristã.
O mesmo não sucede no reinado de Luís, o Piedoso. O sucessor de Carlos Magno será muito marcado pela influência de Roma. Os bispos assumem grande protagonismo político e acabam por conseguir a união do Império, em detrimento da tradição advogada pelos filhos do imperador, o que vai causar mal-estar nas classes dominantes e que pouco depois dá azo a graves conflitos internos. O Império mergulha na guerra civil e consequentemente perde a sua força.
Após a morte de Luís, em 840, o Papa perde o seu suporte no seio do reino dos francos e os herdeiros dividem o reino entre si, de acordo com a "Partilha de Verdun", em 843. Segundo esta divisão, o Império é repartido em três partes: uma parte, a ocidente, é entregue a Carlos, o Calvo e compreende a atual área da França; uma parte central atribuída a Lotário I, que compreende a Itália, os Países Baixos, a Alsácia, a Lorena e a Borgonha; a terceira parte, a oriente, é composta pelo território alemão e é entregue a Luís II. Cedo os três irmãos voltam a entrar em conflito e o reino de Lotário - situado no centro das hostilidades - é primeiro disputado e depois partilhado por Luís e Carlos.
A unidade territorial do Império iniciada por Pepino, o Breve e consumada por Carlos Magno, não passa já de uma quimera. E a própria Igreja, que antes defendera a união para se implantar, utiliza agora a divisão para reafirmar influências nos reinos em conflito.

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