afrocentrismo

Basicamente, os afrocentristas discordam das teorias que relegam os africanos para a margem do pensamento e do conhecimento da Humanidade. Neste sentido, o afrocentrismo defende que se deve interpretar e estudar as culturas não europeias, nomeadamente a africana, e os seus povos do ponto de vista de sujeitos ou agentes e não como objetos ou destinatários.
Segundo os afrocentristas, a noção ocidental ou europeia do conhecimento baseado no modelo grego não é tão antiga como os europeus creem ser, tendo sido adotada apenas a partir do período da Renascença na Europa. De qualquer forma, o modelo grego não pode ser considerado como "europeu" em rigor, dado que foi profundamente influenciado na sua origem e mitologia pela cultura egípcia, ou seja, por uma cultura de origem africana.
A visão eurocêntrica, ou de pensamento centrado no modelo europeu, tornou-se numa visão etnocêntrica, ou seja, de valores relativos aos povos da Europa, que valoriza o modelo de pensamento e de experiência europeia em detrimento dos modelos de pensamento de outras culturas que são, por comparação, subavaliados e subvalorizados. Este conceito de afrocentrismo começou a ser defendido nos anos 80 por estudantes afro-americanos, afro-brasileiros, das Caraíbas e africanos, que começaram por adotar uma perspetiva afrocêntrica nos seus trabalhos. O afrocentrismo não defende que o mundo seja interpretado sob uma única perspetiva cultural, como foi o caso do eurocentrismo, mas que seja reconhecida a existência de uma cultura e a sua avaliação em termos de pensamento e conhecimento através da sua própria perspetiva, neste caso, e mais concretamente, que a cultura africana seja analisada, de per si, enquanto sujeito e não através de modelos culturais que por vezes não só não a entendem como a desprezam e desvalorizam.
Quando, por exemplo, se fala de arte, música, dança ou teatro, as referências são sempre europeias e assumem uma supremacia em termos intelectuais e artísticos. Os afrocentristas defendem que não deve haver uma única perspetiva ou uma visão que se sobreponha às outras, mas que devem coexistir diferentes visões filosóficas e de conhecimento sem que qualquer uma delas se sobreponha às restantes.
Durante cerca de cinco séculos, os africanos estiveram afastados, enquanto protagonistas, da vida social, política, artística, intelectual e económica tanto nas sociedades de pensamento ocidental, para onde foram deslocados, como nas suas nações africanas de origem pelo colonialismo europeu. Nesse sentido, a corrente afrocêntrica defende que o conhecimento e a experiência devem ser reavaliados do ponto de vista dos africanos, enquanto seres humanos ativos capazes de conceber molduras próprias de pensamento e de experiência. Os afrocentristas defendem que os seres humanos não podem nem devem abdicar da sua cultura, seja relativamente às suas próprias referências históricas seja às do grupo onde estão inseridos. Opõem-se à deslocação, ou seja, a serem marginalizados ou a serem considerados "o outro" e defendem a centralização, ou seja, que devem ser considerados o agente, o "eu".
Algumas das questões que mais preocupam os afrocentristas dizem respeito a uma certa desorientação e desconhecimento dos próprios africanos que, identificando-se como europeus ou americanos, consideram esse estatuto incompatível com o facto de serem africanos, ou, mais grave ainda, o facto de considerarem incompatível o ser cumulativamente humano e africano.
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