Alain Oulman

Compositor, encenador e editor franco-português, nasceu a 15 de junho de 1928, no Dafundo, e faleceu a 29 de março de 1990, em Paris. Foi responsável por uma autêntica revolução na carreira de Amália Rodrigues, e na história do próprio fado, ao introduzir novas melodias e poesia erudita de métrica irregular.
Os seus pais deixaram Paris, durante a Primeira Guerra Mundial, e instalaram-se inicialmente na Ilha de São Miguel e, mais tarde, em Lisboa. A família materna estava ligada a uma das mais famosas editoras francesas, a Calmann-Levy, e o pai era um poderoso industrial. Foi assim criado num ambiente conservador, tendo frequentado o liceu francês. Despertou cedo o seu gosto pelas artes. Teve aulas de piano e sempre foi dado ao teatro, ao desenho, à literatura e ao cinema. No entanto, cursou Engenharia, na Suíça e em França. E começou por se dedicar aos negócios da família. Mas nunca descurou as suas paixões artísticas.
A primeira a revelar-se de forma mais séria foi o teatro, tendo sido encenador do grupo amador Lisbon Players. Foi, de resto, ali que conheceu a sua mulher, a professora inglesa Felicity Serra. O bom desempenho nesta companhia levou-o a outras experiências, chegando mesmo a trabalhar com Raul Solnado, na Companhia Portuguesa de Comediantes. A música e a literatura eram também uma presença constante. Passava horas a ler e a tocar piano. A ideia de juntar as duas artes fascinava-o. Começou por musicar poemas de Apolinnaire para Juliette Greco. E, em 1962, venceu a timidez e resolveu abordar Amália Rodrigues. Nasceu assim uma das mais profícuas relações da história do fado. Amália gravou mais de 20 composições suas. O primeiro poema que Oulman adaptou ao fado foi "Vagamundo", de Luís Macedo. Seguiram-se muitos outros, que se tornaram clássicos da fadista, como "Abandono" (David Mourão-Ferreira), "Espelho Quebrado" (David Mourão-Ferreira), "Havemos de ir a Viana" (Pedro Homem de Melo), "Fado Português" (José Régio), "Com que voz?" (Camões) ou "Gaivota" (Alexandre O'Neill).
Alain Oulman produziu, em 1962, Asas Fechadas, também conhecido pelo álbum do busto, de Amália Rodrigues, que provocou uma enorme polémica. Foi olhado com desconfiança tanto pela classe intelectual como pelos meios tradicionalistas do fado. Mas o certo é que décadas depois estes temas então ousados entraram no repertório básico do fado, como se fizessem parte da tradição.
Em 1966, Alain Oulman foi preso pela PIDE acusado de pertencer à Frente de Ação Popular – movimento clandestino de extrema-esquerda. É sabido que Oulman, oriundo de um meio conservador, nunca pertenceu a esta Frente, apesar de conviver com alguns elementos. Após cinco semanas de prisão, por pressão direta de seu pai sobre Salazar, foi libertado, mas expulso de Portugal. Viveu primeiro em Londres, mas acabou por se fixar em Paris. Continuou a corresponder-se com Amália Rodrigues. Contudo, a distância impediu uma colaboração mais assídua. Só a partir de 1970, por pedido do próprio general De Gaulle (chefe de Estado francês), foi levantada a proibição de regressar a Portugal. Oulman não voltou a mudar-se, mas visitava o nosso país regularmente. No entanto o seu ofício passou então a ser o de editor. Dedicando-se de corpo e alma aos negócios da família e fazendo um notável trabalho de tradução. De resto, foi ele que convenceu Mário Soares a escrever o emblemático livro Portugal Amordaçado.
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