Alcorão

Também chamado Corão, exprime uma mensagem transmitida em voz alta ao profeta Maomé. A revelação oral só foi colocada sob a forma de livro cinquenta anos após a sua morte. Compõe-se de cento e catorze capítulos divididos em versículos que se classificam segundo uma ordem decrescente de extensão - os textos mais longos são os mais recentes, os mais pequenos são anteriores e remontam às origens da pregação em Meca. A pregação original coloca a tónica no fim do mundo terrestre; na condenação dos pecadores, sobretudo dos ricos; e na felicidade eterna dos justos. A segunda parte da pregação em Meca incide sobre uma necessária unidade religiosa contra o politeísmo. Não se trata formalmente de um poema, mas de uma prosa com rima.
Esta organização coloca obviamente vários problemas de interpretação, porque o texto não se encontra ordenado cronologicamente nem por assuntos. Dizem respeito à gesta e feitos de Maomé que ocorreram entre os primeiros 150 anos da era muçulmana (630 a 770 da era cristã). Todos estes factos foram reunidos numa obra sobre a vida do profeta e foi igualmente elaborada uma cronologia a partir de 612 da era cristã até 632, data da morte de Maomé. Em 622 ocorre talvez o facto mais importante para o profeta e os seus companheiros, tendo mudado radicalmente a vida da comunidade - a partida da sua cidade natal para Medina, onde se estabelece com os seus seguidores, a que se deu o nome de Hégira. Apesar da elaboração da cronologia há uma grande relutância em aceitá-la como correta. As investigações mais recentes pretendem interpretar o Corão através do estudo dos elementos tradicionais da cronologia islâmica em comparação com o texto da mensagem. Assim pode medir-se o alcance e o reflexo dos dados políticos, sociais e religiosos que servem de contexto à ação de Maomé. Trouxeram também à análise conjuntos de textos e de temas que correspondem aos momentos-chave da pregação de Maomé. Desta forma, os textos corânicos puderam ser agrupados segundo os temas tratados e segundo os critérios estilísticos, dividindo as revelações anunciadas em Meca (textos mais curtos) e as anunciadas em Medina de linguagem mais prosaica e que correspondem a uma fase de desenvolvimento e de organização política e jurídica da nova comunidade. Os conteúdos surgem por vezes com carácter fragmentário e pecam pela falta de unidade literária.
Naturalmente a periodização possibilitou um conhecimento mais profundo do modo de organização da vulgata corânica. Após a morte de Maomé, a vontade de preservar e tornar perene a pregação do seu profeta fez com que os seus companheiros passassem a escrito tudo o que viria a constituir as regras de conduta social e religiosa. Foi Abu Bakr, sucessor de Maomé, entre 632 e 634, que permitiu a reunião de grandes coleções de textos. Contudo, a elaboração de um texto único só acorreria durante o califado de Utman, entre 644 e 656. Todos os conjuntos anteriormente recolhidos e que se mostraram divergentes foram destruídos. O texto, nas suas diversas vertentes teológica, dogmática e jurídica, foi aceite sem contestação, embora tenha sido criticado pelos Kharidjitas e pelos Shiitas no que diz respeito a matéria política. A "vulgata" estabelecida por Utman representa para todos os muçulmanos o texto autêntico da Revelação.
O texto corânico é usado diariamente nos rituais religiosos e é constantemente citado em monumentos (mesquitas, túmulos e edifícios públicos), nas escolas e em ilustrações de miniaturas. A autenticidade do texto é notada pela proibição do uso de traduções para outra língua que não o árabe, pois o uso de textos traduzidos constituía uma violação. Hoje existe uma maior abertura, facilitando o acesso ao livro sagrado daqueles que não sabem o árabe. Preconiza um monoteísmo puro baseado na figura de Alá.
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