Álvaro de Brito Pestana

Segundo Teófilo Braga, este poeta palaciano seria filho de Afonso Rodrigues Alardo e de uma ama de D. Afonso V, mas os dados biográficos relativos a Álvaro de Brito Pestana são escassos e não suficientemente seguros: cruzam-se nos registos históricos figuras com o mesmo nome, não havendo sequer elementos que permitam distinguir Álvaro de Brito Pestana, de Álvaro de Brito, ambos os nomes presentes no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. As trinta composições de Álvaro de Brito Pestana que integram o Cancioneiro Geral revelam uma grande diversidade temática, que vai da expressão amorosa, ao louvor religioso, ao panegírico régio e à crítica social, aliada a um virtuosismo formal, que não exclui certos traços conceptualistas como o desenvolvimento de jogos lexicais, a exploração do anagrama, o recurso a efeitos fónicos e rítmicos. As composições amorosas são construídas sobre os lugares-comuns da poesia cortesã, a partir de um encarecimento hiperbólico da mulher amada, aliado à expressão da coita de amor do poeta:
"Amo e praz-me servir / a quem meu querer ofende, / por me dar nojo sentir / minha vontade partir / de a servir não entende" (Grosa d'Álvaro de Brito, / sobre terribles coi- / tas desseo.).
A agudeza do estilo do autor atinge o seu paroxismo em composições encomiásticas como, por exemplo, as trovas oferecidas ao rei D. Fernando, onde cada uma das letras do nome do monarca inicia todas as palavras de cada uma das estrofes. As composições satíricas versam a crítica a uma nova ordem de valores e de costumes, colocando-se o poeta na charneira entre um tempo passado e um tempo presente dominado pela desordem e pela injustiça. Na longa composição de "D. Álvaro de Brito Pestana a / Luis Fogaça sendo vere- / ador na cidade de Lix- / boa, em que lhe daa / maneira para os / ares maos se- / rem fora / dela", apresenta, numa crítica mordaz, a capital como uma imagem de caos moral, social e político, vituperando os vícios e ambição desmesurada
["Todo mal cada ûu faz / por serem prevalecidos / seus estados, / cuidamos viver em paz, e vivemos combatidos, / guerreados (...)"]; denunciando o despojamento das suas riquezas pelos "estrangeiros" que "levam desta nossa terra / ouro, prata, / nossas bolsas alivando"; alertando para a iminência da retaliação divina sobre este viver desordenado com que compactua o próprio poeta, ao assumir a primeira pessoa do plural; e chamando aos "que governam e rejem" a responsabilidade de corrigir e limpar a cidade. Este texto de denúncia não surge isolado, mas dá continuidade a uma série de pequenas composições, onde o autor acusa a corrupção e injustiça de alguns funcionários régios, juízes, corregedores, provedores, a maior parte das vezes identificados pelo seu nome próprio. Entroncando na veia satírica das cantigas de escárnio e maldizer da poesia trovadoresca, estas composições assumem um tom jocoso, para que contribui, por vezes, uma linguagem popular com efeito cómico e o jogo de palavras. Na longa composição de Álvaro de Brito Pestana "em louvor de Pero / Diaz" corregedor em Lisboa, o avolumar de alusões satíricas, a acusação de prática corrupta de "erros judiciaes", com um inventário das vítimas da má-fé do corregedor, dão ao tom irónico da composição uma coloração sarcástica e até um pouco amarga, que culminará com um apelo para uma intervenção divina sobre a justiça régia. Com efeito, a própria atuação do monarca não está, nos textos satíricos de Álvaro de Brito, isenta de achegas, sobretudo no que respeita à arbitrariedade da recompensa de serviços dos bons servidores que só "per graça devinal" podem "medrar neste Portugal", como, por exemplo, na composição onde se mostra ofendido porque o rei o:"mandou ao esmo- / ler pedindo-lhe / mercê". Nesta medida, o louvor religioso apresentar-se-á na lírica do poeta palaciano como uma opção segura onde encontrará a justiça e o prémio que o mundo não lhe ofereceu: "Aquestas taes grorias vãas, / que o mundo dá e tome, / sam em some / todas tristes e vilãas. / Enganosas fantesias / sam dominios, riquezas, / tristezas, / consomidas senhorias. / Procuraram meus desejos / d'haver premios mundanos: / muitos annos / com trabalhos mui sobejos, / servi e segui mortaes; / deram-me por galardam / fraca raçam, / a menor de meus iguaes." (Copras d'Álvaro de Brito / Pestana, estando pera / se finar").
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