Álvaro Pais

Álvaro Pais nasceu em Salnés, Pontevedra, cerca de 1275, e faleceu em Sevilha a 25 de janeiro de 1349. Filho ilegítimo do Grande Almirante de Espanha, Payo Gómez Chariño (1295), necessitou de uma dispensa papal para ficar sem "defeitos natalícios", de forma a poder ascender a dignidades eclesiásticas.
Sob a proteção de Sancho IV de Castela, pôde adquirir uma formação elevada e sólida, frequentando as melhores universidades e tendo os melhores mestres. Estudou, assim, Direito Canónico e Civil em Bolonha nos últimos anos do século XIII ou meados do XIV, sendo seu mestre Guido de Baysio, de cujas mãos recebeu a licenciatura e mais tarde o grau de doutor em Direito Canónico. Em Bolonha ensinou durante algum tempo, despertando enorme admiração e sendo tido em excecional categoria. Homem simples e humilde, entra então na Ordem dos Frades Menores (Franciscanos), em 1306, em Assis, onde noviciou. De acordo com uma tradição dúbia, terá sido, como franciscano, aluno do seu confrade John Duns Scotus (Escoto) em Paris. De facto, depois de entrar na Ordem, muitos são os lugares onde é reclamada a sua presença física, como reza a sua biografia. Em 1308, surge em Perúgia a ensinar Direito Canónico no convento dominicano da cidade e três anos mais tarde, em Milão, é tido a assistir à coroação de Henrique VIII do Luxemburgo. Antes de 1313, terá habitado um convento franciscano em Lucca, visitando por essa altura o Monte Gargano, no Sudeste de Itália. Cerca de 1317, Fr. Álvaro está no Monte Alverne, lugar sagrado dos franciscanos, pois ali o seu Santo fundador terá recebido os estigmas das Chagas de Cristo em 1224. Neste período e nos anos seguintes, envolve-se em complicadas polémicas sobre a pobreza e a observância estrita da Regra de S. Francisco, adotando uma postura rigorista. Em 1318, a sua residência oficial é o convento de Arac÷li, em Roma. Retira-se, entretanto, para Compatri, devido à marcha de Luís da Baviera sobre Roma e à coroação do antipapa Nicolau V. Assistirá mesmo, em Anagni, ao processo contra aquele rei bávaro, junto do qual se alinhavam alguns irmãos de hábito de Fr. Álvaro. As acusações, porém, atingi-lo-ão igualmente, embora parece que injustamente. Convencido da sua inocência, o Papa francês João XXII chama-o a Avinhão, onde o nomeia seu penitenciário (1329-1330).
Em 1332, é consagrado bispo de Coron (Peloponeso, Grécia). Em 1333-1334, é nomeado bispo de Silves, Portugal, onde já se encontra em 1335. Aqui sofre uma série de ataques do rei Afonso IV (a quem criticara duramente, em 1335, por se envolver na guerra com Castela do clero e até do povo). Perante esta situação difícil, refugia-se definitivamente em Sevilha, opção que tomou um dia em que, quando rezava a missa, quase fora assassinado, o que o fez abandonar a diocese de Silves.
Homem enciclopédico, de grande envergadura intelectual e elevado prestígio moral, escreveu várias obras, de cunho canonista, mas a sua mais emblemática e célebre é o De Planctu Ecclesiæ (O Pranto da Igreja), escrita entre 1332 e 1340. Nesta obra, descreve de forma perfeita o estado da Igreja e da Cristandade, criticando asperamente a desordem e imoralidade a que tinham chegado clero e religiosos do seu tempo. Retrata também a época quanto às ideias e costumes, esclarecendo também doutrinas sobre a relação entre o poder temporal e espiritual, debate constante e alvo de tantas controvérisas e choques naquele turbulento século XIV. Em Tavira, publicará também o Speculum Regum (O Espelho dos Reis), entre 1341 e 1344.
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