Anrique da Mota

Poeta palaciano dos séculos XV e XVI, frequentou as cortes de D. João II, D. Manuel e D. João III. Produtor e negociante de vinhos, foi também magistrado e exerceu a função de Juiz dos Órfãos em Lisboa. Possuidor de apreciável cultura, cultivou a poesia satírica em moldes que permitem considerá-lo um precursor de Gil Vicente. Na sua poesia, manifesta um sentido crítico apurado, atento aos aspetos pitorescos da realidade, e uma vocação particular para um estilo dialogado e bastante vivo. As suas composições, de temática amorosa, (nomeadamente a Farsa do Alfaiate e O Pranto do Clérigo) constam do Cancioneiro Geral. Uma das composições surge sob a forma de acróstico; a outra, inspirada no motivo petrarquista da vida solitária e na mitologia greco-latina, e com composições satírico-cómicas, como, por exemplo, as trovas a João Rodriguez de Sá, sobre uma cobrança difícil. Mas é acima de tudo pela sua vocação teatral que o nome de Anrique da Mota é associado ao Cancioneiro. Estabelecendo a ponte entre as manifestações dramáticas medievais e a poderosa criação vicentina, redigiu quatro farsas - Pranto do Clérigo, Farsa do Alfaiate, Farsa do Hortelão e Lamentação da Mula - e uma composição de cariz dramático, Processo de Vasco Abul, onde fustiga como motivos principais a avareza, a ambição e a penúria do reino. Na Farsa do Alfaiate, o cómico é suscitado pela desproporção entre o paroxismo do desespero do protagonista e a situação em causa, a perda de um cruzado; no Pranto do Clérigo, o cómico surtido do mesmo tipo de situação, que, desta feita, corresponde à perda de uma pipa, é reforçado pelo cómico de linguagem no diálogo entre o clérigo e a negra de Manicongo; na Farsa do Hortelão, o alvo da chacota é a avareza do provedor das Caldas da Rainha, gerando-se o cómico, no diálogo entre Anrique da Mota e um hortelão, através da oposição entre a descrição da fertilidade da horta e a "secura" do provedor. Na Lamentação da Mula, a sátira assume um tom mais amargo: Anrique da Mota encontra, à porta de D. Diogo, filho do Marquês, uma mula que está de partida com os amos para uma romaria à Senhora de Nazaré, e que se queixa da fome e maus tratos a que a sujeitam; passados alguns dias, a mula volta a encontrá-lo e descreve a jornada, a fome que vira e sentira nas terras por onde passara, e tece duras considerações sobre os seus efeitos: "Esta (a fome) faz muitas vilezas / onde nam valem castigos, / esta faz mil fortalezas / darem poder aos inimigos. / Esta faz muitos amigos / se perderem...". O Processo de Vasco Abdul combina a estrutura dramática com a estrutura de torneio poético: Vasco Abdul queixa-se à Rainha de uma moça a quem dera enquanto bailava, por brincadeira, um colar de ouro, que desejava ver restituído. Depois do cómico gerado pela exposição da situação, o "processo" desenvolve-se com a intervenção de "ajudadores" de defesa ou de embargo, entre os quais figuram, por exemplo, o próprio Anrique da Mota e Gil Vicente.
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