António José da Silva, «o Judeu»

Protagonista típico de uma segunda fase do teatro de Bernardo Santareno, em conflito com uma sociedade injusta e intolerante, António José da Silva, o Judeu, cuja biografia é narrada, entre os flagelos do Santo Ofício e o sucesso teatral, até à sua condenação à morte na cena final de um auto de fé, vive permanentemente acossado, com medo de ser torturado e encarcerado pela Inquisição, e só por momentos ilude a sua fragilidade quando é consagrado como dramaturgo. A figura malograda de António José da Silva, condenado à morte num país que, diante da Europa iluminista, persistia no obscurantismo, trágica e abruptamente passando do triunfo à perseguição, pelas mesmas mãos que o aplaudem e o condenam, fora já tratada literariamente no romance histórico O Judeu de Camilo Castelo Branco. Objeto desta obra-prima da segunda metade do século XX, a figura trágica do dramaturgo português adquire uma dimensão mais vasta: a correspondência entre o medo e a angústia que dominam toda a existência do autor seiscentista, e o contexto que o espectador contemporâneo conheceria sob o regime salazarista; a aproximação do destino do Judeu com o das vítimas dos campos de concentração (evocados sob a forma de filmes-documentários num sonho premonitório da mãe do "judeu") eleva o judeu a símbolo dos que, por ódio, despotismo e ignorância, são perseguidos, recordando de forma tristemente irónica, nos comentários do Cavaleiro de Oliveira, a falência de ideais humanistas no homem civilizado. O judeu de Bernardo Santareno aproxima-se, deste modo, da figura arquetípica de Cristo/cordeiro imolado pelo mal do Mundo e as cenas de grande densidade dramática em que Lourença assiste ao sofrimento e condenação do filho agonizante reatualizam a cena da pietà.
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