António Ribeiro Chiado

António Ribeiro Chiado nasceu em Évora, num lugar humilde dos arrabaldes da cidade, não sendo, no entanto, possível determinar a data e o local com precisão. Numa carta do arcebispo de Serpa pode ler-se: "... quase impossível descobrir a data de nascimento e só por verdadeira casualidade poderia encontrar-se". Professou na Ordem Franciscana mas a sua vida desregrada levou-o a abandonar o voto monástico após ter sido preso: "Um tal frade não convinha à ordem nem a ordem lhe convinha a elle". Vivendo a boémia que caracterizava as ruas de Lisboa no século XVI e que atraía os homens jovens caídos no desregramento de todos os vícios, António Ribeiro teria a alcunha de Chiado (cf. Moraes: termo asiático que significa malicioso) devido à sua vida escandalosa, lembrando a sua notoriedade como "dizidor e bargante". Quanto a esta alcunha, e segundo Alberto Pimentel, in Obras do Poeta Chiado colligidas, annotadas e prefaciadas por Alberto Pimentel, 1889, continua sem se saber exatamente se foi a rua íngreme onde o poeta viveu e que fazia chiar os carros que lá passavam que deu o nome ao poeta, ou se, pelo contrário, foi o facto de António Ribeiro Chiado "xiar" ("xiar" significava, na época, "maldizer" característica muito própria do autor, como se comprova pelas suas obras, nomeadamente através da polémica mantida com o poeta mulato Afonso Alvares) tendo, posteriormente, dado aquele o nome à rua.

De acordo com Alberto Pimentel, António Ribeiro Chiado "viveria assim em inteira liberdade em sua casa, entregando-se a todos os prazeres e de acordo com o seu carácter e temperamento".

Como Gil Vicente, A. R. Chiado recorreu ao verso heptassílabo tradicional, à indefinição dos aspetos temporais e espaciais, à desarticulação estrutural e à linguagem popular utilizada por personagens. Conhecendo bem os costumes populares e o calão do século XVI, flagelou e atacou todos os vícios palacianos, embora aquele, enquanto etnógrafo, tivesse sido muito mais completo e detentor de uma observação mais aguda. Sem uma ação devidamente estruturada, a maioria dos seus autos constituem apenas esboços que não têm continuidade. Apenas o Auto das Regateiras, fugindo a esta precaridade, apresenta uma ação que vai ser desenvolvida, terminando com um casamento entre gentes da Alfama. Segundo Teófilo Braga, A. R. Chiado representou na corte, diante de D. João III, o Auto da Natural Invenção, o que nos leva a concluir que, como Gil Vicente, este teria também sido ator. Na verdade, confirmando-se ou não esta teoria, não faltavam a Chiado as aptidões necessárias para ser ator, na medida em que era detentor de uma grande habilidade para imitar o gesto e a voz de qualquer pessoa.

Os autos de Chiado, embora não tendo o valor etnográfico da obra do seu mestre Gil Vicente, mostram um estudo e conhecimento das instituições sociais e dos costumes do século XVI, sendo nítida a crítica e desmistificação da corrupção vigente. Assim, encontramos recorrentemente nas suas obras as seguintes temáticas:

- venalidade dos tribunais e corrupção dos oficiais de justiça;
- os abusos da maledicência da época;
- desmistificação das misérias e injustiças sociais do século;
- referências negativas à vida palaciana e enredos e intrigas da corte;
- crítica ao clero;
- presença do escravo(a) negro(a) tão do gosto da corte.

Segundo Alberto Pimentel, na obra já citada, a irregularidade métrica (excesso e falhas de versos) que caracteriza a obra de Chiado deve-se ao facto de a língua portuguesa, na época, não ter encontrado ainda o estado de maleabilidade e flexibilidade que atingiu posteriormente e que a tornou de mais fácil manejo. O português do século XVI não encontrara ainda formas definidas e uma disciplina gramatical que facilitassem o trabalho do escritor. Chiado recorreu permanentemente a estrangeirismos, nomeadamente latinos, italianos e castelhanos, o que fez aumentar a confusão da linguagem.

Morreu em 1591.

Referências a Chiado feitas por outros autores:

Apesar de não serem dados a importância e o respeito merecidos à sua obra, muitos autores, para além de Luís de Camões, a ele se referiram. Soropita, descrevendo e ridicularizando os sujeitos do seu tempo, teria afirmado: "Outros há que por serem de carregação não entram na lenda; mas para elles o Chiado que lhes soube assentar as costuras".

O padre jesuíta Francisco da Fonseca, na sua obra Évora Gloriosa, referiu: "António Ribeiro, celebérrimo pela alcunha de Chiado, que ainda hoje persevera em hua rua de Lisboa, foy de facetíssimo e lapedíssimo génio, e de singular agudeza de engenho...".
Como referenciar: António Ribeiro Chiado in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2018. [consult. 2018-12-10 22:40:17]. Disponível na Internet: