antroponímia

Os nomes primitivos tinham um significado exato, o que, aliás, correspondia às exigências psicológicas e simbólicas das tribos que os usavam. Na Índia clássica, as Leis de Manu exigiam que os nomes de mulher fossem doces, agradáveis e fáceis de pronunciar, e que os dos homens exprimissem a missão essencial da casta respetiva: os dos brâmanes deviam exprimir uma força benévola, os dos guerreiros a força, os dos párias a abjeção. Os nomes hebraicos - como, de resto, os dos povos semíticos contemporâneos - refletiam a presença e atributos de Deus, para os homens, e um simbolismo naturalista, no caso das mulheres (uma jovem meiga, por exemplo, podia chamar-se Rachel, "ovelha").
Nos primeiros tempos do nomadismo e em tribos pequenas, um nome bastava; mas, à medida que as comunidades iam aumentando, era inevitável haver duplicações de nomes. O primeiro expediente para melhorar a identificação pessoal foi acrescentar-lhe uma designação patronímica. Entre os hebreus, sociedade essencialmente matriarcal, o nome do pai começou por ser acrescentado como sinal honorífico, e só mais tarde foi geralmente reconhecido como elemento de identificação.
Numa sociedade primitiva atual, como a dos Macondes (Moçambique), dar o nome a um recém-nascido é uma cerimónia de grande significado social. Se a criança é primogénita, recebe o nome do avô ou avó paternos; não o sendo, o dos avós ou tios maternos. Se o casal tem muitos filhos e não sabe o nome que há de dar à criança, a ideia pode vir de um parente que os visite, que lhe dá o seu nome e, mediante a oferta de uma galinha ou de dinheiro, fica a ser o seu mbwana: a criança pertence-lhe, e ele adquire certas responsabilidades em relação a ela. Todavia, o nome dado ao recém-nascido não o acompanha até à morte. Ao passar os ritos da puberdade, o mbwana dá-lhe outro, e o nome original não torna a ser pronunciado. A razão para isto é que o nome está ligado a uma certa personalidade; mudando esta - como sucede nos ritos da puberdade -, é forçoso que o nome também mude. É pelo mesmo motivo que o maconde pode mudar outra vez de nome, se passar por uma grande mudança de personalidade ou de estatuto social. Pode mesmo suceder que um maconde se canse do nome que tem e resolva mudá-lo; basta para isso informar os seus parentes e vizinhos que, a partir daquele momento, se irá chamar fulano.
À medida que a civilização avança, e com ela aumentam as responsabilidades sociais, o nome ganha uma precisão e complexidade especiais. Na Grécia clássica, a criança recebia dos seus pais um nome, sete ou oito dias após o parto; e estes nomes - baseados nos deuses e seus atributos, nas qualidades físicas e morais, na vida pública, etc. - variavam imenso. Para designar com precisão um indivíduo, acrescentava-se ao seu nome um patronímico, ou o nome do pai em genitivo, e a indicação do demo ou clã a que pertencia: o grande orador Demóstenes chamava-se, em grego, Demosthénes Demosthénous Paianiéus, "Demóstenes, filho de Demóstenes, de Peaneia". Certas pessoas tinham também sobrenomes. Os nomes das mulheres eram semelhantes, mas, após o casamento, era frequente o nome do marido, em genitivo, substituir o patronímico.
Em Roma, a criança recebia um prenome (prænomen) oito ou nove dias após o seu nascimento, que era acrescentado ao nome da sua gens ou família (nomen gentilicium). Se pertencesse a uma classe social média ou elevada, adotava também um sobrenome (cognomen), que indicava o ramo da gens a que pertencia. Alguns indivíduos tinham ainda um agnomen ou apodo, geralmente honorífico: Africanus, Torquatus, etc.
Um filho adotivo recebia o nome de quem o adotava, acrescentando-lhe um segundo cognomen, terminado em -anus, que indicava a sua gens de origem: o filho de Lucius Æmilius Paulus adotado por Publius Cornelius Scipio ficou a chamar-se Publius Cornelius Scipio Æmilianus.
Os libertos mantinham geralmente o seu nome de escravo como cognomen, acrescentado ao nomen gentilicium de quem os libertava. Não era permitido dar a um escravo o nome de um homem ilustre, nem a uma criança livre um nome de escravo.
Este sistema foi usado, com relativamente poucas alterações, até à queda do Império Romano do Ocidente. As invasões bárbaras e a fundação de vários reinos germânicos na Europa Central e Ocidental tiveram, entre muitas e variadas consequências, a de fazer voltar a antroponímia ao velho sistema de nome e patronímico (geralmente a forma genitiva do nome de batismo do progenitor).
Este sistema encontrava-se também em uso entre os muçulmanos: ao nome de nascimento (alam ou ism'alam), correspondente ao prænomen, seguia-se o nome de família (nasab), correspondente ao nomen. Foi apenas quando se tornou necessário precisar a identificação individual que a este nome básico se acrescentaram outros elementos: o sobrenome (kunyah), que precedia o nasab; um apodo (laqab) indicando alguma particularidade física, psicológica ou episódica; o nome de relação tribal (nisbah); o nome de profissão (ism mansib); e, em certos casos, ainda um pseudónimo poético (tahallus). Na prática, todavia, os homens do povo contentavam-se com o seu nome (alam) e uma referência ao progenitor (nasab): Suleiman ibn Abdallah, 'Salomão filho de Abdalá'.
O sistema de nome e patronímico utilizado na Europa Ocidental veio a modificar-se gradualmente durante a Idade Média. Ao nome de batismo começou a acrescentar-se um apelido, que entre os nobres podia basear-se no topónimo dos solares ancestrais - Andrade, Vasconcelos, etc. - e entre os plebeus, que não possuíam um feudo, podia resultar de uma alcunha, do lugar de proveniência ou de outra característica distintiva. Estes apelidos vieram a tornar-se hereditários, sobretudo a partir do século XVI para a nobreza e do século XVII para a burguesia e o povo. Mesmo assim, a individualidade do nome era um sentimento tão forte que ainda hoje se encontram sociedades em que a identificação se faz por nome e patronímico, e não por nome e apelido: é o caso dos países nórdicos, em que ao nome de batismo se segue o do progenitor com o sufixo -son ou -dottir, conforme se aplique a um filho ou a uma filha. Um outro vestígio dos costumes ancestrais persiste em Inglaterra, onde é possível, e relativamente fácil, mudar de apelido mas não de nome de batismo, que é o que realmente identifica um indivíduo.
Com o decorrer dos tempos, a lei determinou que os apelidos de um indivíduo fossem transmitidos aos seus descendentes, como direito que a estes assistia. É o que ainda hoje sucede. Em Portugal, atualmente, o Código do Registo Civil regulamenta a atribuição de nomes de batismo, para evitar extravagâncias ocasionais.
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