Anúbis

Deus dos mortos, segundo a mitologia egípcia, Anúbis era considerado o inventor do embalsamento e estava associado à mumificação. O guardião dos túmulos e juiz dos mortos era representado iconograficamente como um animal da família dos Canídeos, ou sob a forma humana com cabeça de chacal. Em raras ocasiões aparece representado sob a forma totalmente humana, tal como surge, por exemplo, na capela do templo de Ramsés II em Abido. É geralmente representado com a cor negra, que pode simbolizar a cor que o corpo do defunto adquire na fase da mumificação, devido às substâncias usadas durante o processo, ou a renascença (Osíris) ou a fertilidade (Nilo). Etimologicamente o seu nome parece derivar de inep, que significa "putrificar" ou "apodrecer", estando, deste modo, diretamente associado à decomposição dos corpos. A sua representação como um cão ou como um chacal pode ter nascido da observação dos animais selvagens rondando os cemitérios, retirando e desmembrando os corpos das campas pouco profundas, o que levou a eleger Anúbis como guardião dos mortos, cemitérios e túmulos. A questão relativa à filiação de Anúbis é pouco clara: algumas crenças apontam-no como filho de vários casais divinos (Néftis e Ré, Néftis e Osíris ou Néftis e Seth) ou como filho de Ísis, da vaca celestial Hesat ou de Bastet. O culto de Anúbis está patente nas necrópoles, onde surgem preces e hinos, evocando a sua proteção, nas paredes das mastabas mais antigas. Segundo a mitologia, teria sido Anúbis quem embalsamou o corpo de Osíris. O deus dos mortos seria um dos 42 juízes (número correspondente às províncias do Egito Antigo) que compunha o tribunal responsável pelo julgamento do defunto. Anúbis seria o responsável por conduzir o morto à presença de Osíris e presidia à cerimónia da "pesagem do coração", verificando o bom funcionamento da balança. A tutela da 17.ª província do Alto Egito, cuja capital era Cinópolis, era de sua responsabilidade. Testemunham o seu culto a necrópole de cães mumificados, animais sagrados de Anúbis, encontrada na localidade de Charuna, e as duas capelas a si dedicadas, inseridas no templo de Hatchepsut. Também venerado em Mênfis, Abido e Dendere, o culto de Anúbis adquiriu uma grande importância durante o Império Novo, aparecendo frequentemente representado em pinturas nos túmulos privados e nas vinhetas dos papiros funerários. Surge na sua forma humana com cabeça de cão (ut, o sacerdote que desempenhava a sua função no contexto funerário, usava uma máscara de cão selvagem durante a cerimónia) ou na versão canina, deitado ou em pé sobre as múmias, sarcófagos, tal como nas vinhetas dos papiros funerários e em amuletos, como invocação da sua proteção, enquanto guardião do túmulo (tal como é possível constatar, por exemplo, no túmulo de Tutankhamon). A sua função protetora pode também ser vislumbrada nos vasos canópicos (que se destinavam a guardar os órgãos dos defuntos) alusivos a Duamutef, filho de Hórus e guardião do estômago do defunto, cuja tampa tem a forma da cabeça de um cão selvagem. Anúbis é também referido como Khentiamentiu ("O que está à frente dos Ocidentais"), Khentisehnetjer ("O que está à frente do pavilhão de deus"), Tepidjuef ("O que está no topo da montanha", isto é, o que guarda os mortos), Nebtadjeser ("Senhor da Terra Sagrada", isto é da necrópole) e Imiut ("O que está no sítio do embalsamento"). O culto de Anúbis perdurou até à época Greco-Romana, onde se transforma numa divindade cósmica, sendo frequentemente identificado com Hermes, na mitologia grega, e reinando sobre a terra e sobre o céu.
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