Arraia-Miúda

A ideia de evocar a revolução popular de 1383 nasce nesta peça de Jaime Gralheiro como símile da revolução popular de abril, aproximação apresentada pelo autor, desde logo, no "recado" que antecede o texto dramático: "Ao escrevê-la, pensava na luta que o Povo português tem vindo a desenvolver pela sua libertação, ao longo de quase novecentos anos de nacionalidade; pensava, também, no pouco que tem conseguido e no muito que terá de fazer para jogar fora a canga que lhe puseram e à qual (às vezes) parece já estar habituado; pensava, ainda, no ranço deste caldo cultural em que sempre tem vivido, todo ele feito de paternalismos senhoriais, medos míticos, crendices sacralizadas, obscurantismos cultivados...". Por isso, de histórica, a peça, redigida em 1975 e representada em 1976, no rescaldo da revolução de abril, acaba por resultar em flagrante atualidade: "O Povo de Lisboa / Tomou a Revolução. / Foram anos e anos a sonhar, / Foram anos e anos a lutar / Na longa escuridão..." Embora o seu objetivo não seja exatamente a reconstituição histórica, mas uma perspetiva histórica elaborada à luz da dialética histórica, ou, como afirma em "Nota prévia", "mostrar a Revolução de 1383 através dos olhos de alguém que vive aqui, em Portugal. Hoje.", o dramaturgo teve o cuidado de "reconstruir o complexo jogo de influências de grupos sociais na revolução: os grandes nobres, os mercadores, os prestamistas judeus, a pequena nobreza revolucionária, o rei, o mestre, a Igreja e o povo mais humilde, a arraia-miúda, que, em certo momento, sob o impulso dum tanoeiro, teve de tomar a iniciativa" (da contracapa de Arraia-Miúda, Lisboa, 1977).
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